( Alexsander Ferraz/AT) Nesse ritmo decidido, pés cravando as certezas nas calçadas. Já tive essa pressa, pé direito a apostar corrida com o esquerdo, mesmo sem compromisso algum. Dominei o método entre andar e correr, espiando o relógio a cada mil passos. Gastei poucos sapatos (nunca fui de usar sapato), mas esfoliei muita sola no passeio público. Já tive certeza para onde ir, sabia (pelo menos achava) onde era necessário. Costumava procurar o caminho mais curto. Hoje, privilegio o que tenha árvore. Tentaram me parar para pedir uma informação, fingi que não ouvi. Quiseram engraxar meu sapato, mostrei vitorioso meu tênis. Chamaram meu nome, fingi que era outro. Me ofereceram ouro, bíblias, sexo, drogas, incenso, santinho de candidato, acelerei o passo. Quando vejo alguém tropeçar, lembro que sou bom nisso. E de pisar em buraco. Surfista do asfalto, trapezista ao rés do chão, sei usar os braços na busca do equilíbrio. Desenvolvi tamanha habilidade que raramente desabo ou torço o pé. Não me conformo com a raridade dos aplausos. Já me aborreci com procissões de formigas e chuvas pelo caminho. Poça já foi motivo de irritação, hoje é de procura – entendo agora que graça veem as crianças. Também perdi a paciência com quem andava devagar como me pego agora, compreendo a impaciência de quem me ultrapassa cerrando dentes – mas não concordo. Às vezes sonho em poder voar. Basta um impulso com os braços para decolar. A sensação é boa, mas não sei se trocaria essa possibilidade pela de poder andar e pisar descalço na lama com sua consistência de chocolate nos pés. Perdi a bússola e os mapas. As placas me mostram um destino que não quero seguir. O Guia Quatro Rodas de páginas amareladas, esquecido na estante, indica rotas que não existem mais. O que era norte virou contramão e tanta rua mudou de nome. Posso jurar que sabia o caminho de cor, as casas de referência deram lugar a um centro empresarial com seis torres e uma praça sem verde e banco para sentar, por onde ninguém passeia. E o GPS, tão recente e já desatualizado. Caminhei muito pensando nela. Andei em vão por onde achei que ela iria estar, sempre seiscentos passos atrasado. A esperança a fazer esquina com o desalento. Hoje, acho graça quando penso nisso, embalado por esta rede. Balanço o corpo, meneio a cabeça, reabro o livro. Sem sair do lugar, vou bem mais longe.