(Tomaz Silva/Agência Brasil) Está um calor dos diabos. Pior: dos diabos entrarem na fila do Ponto Frio para abrir crediário e comprar um ventilador. Mas é preciso fingir que não está tanto assim, beber muito mais do que quer que seja e fazer um esforço sobre-humano para seguir a vida como se não estivesse esse calor. Melhor não dizer nada. Nada fazer, nada providenciar. Deixar a geladeira tremer pelo esforço, a luz faltar de desânimo, a pipoca estourar espontaneamente, o corpo se largar de impotência. É preciso, principalmente, não gritar. Só que tem uma coisa: não deixe de visitar tia Rosa porque está muito calor; não despreze a data do boleto por conta do calor; não passe o dia em frente à TV porque está muito, muito calor. Muito menos deixe de escovar os dentes, não tente explicar a piada, nem dê um murro na cara do guarda porque está calor. Xingue pela centésima vez o idiota que derrubou as árvores da rua, e agora a pobre da Edileuza tem que andar sob o sol inclemente que faz derreter os sonhos da Edileuza. Não ponha a culpa no ministro, não tire a casquinha da ferida (aliás, mesmo que não esteja calor, não tire), não se sente na frigideira disfarçada de banco de praça. Não se iluda com o sorriso da moça, não se ache no direito de fazer bobagem, nem cobre a presença urgente do zelador porque está quente demais. Mas, mesmo estando esse calor, reúno todas as minhas forças para explicar algo útil à sociedade: sei por que o trânsito piora tanto no verão. Prontos? Simples: porque os motoristas se recusam a sair dos carros com ar condicionado e ficam dando voltinhas adicionais, adiando a chegada ao destino. Daí vão juntando mais e mais carros, e a resposta aí está. Não, não precisa agradecer, está quente demais para isso. Fato é que, no calor, só os tarados, os chatos, as crianças hiperativas e os laterais-direitos estreantes dos times de várzea do interior ainda encontram energia. E, por gentileza, controle esses perdigotos: ouvir já exige muita paciência, com chuva de saliva beira o impossível. E se, ao sair de casa, o bafo quente embaçar seus óculos, nada de cobrar um tiro de meta no pobre cachorro que passa, limpando a calçada com sua língua dependurada. Respire fundo (se isso não fritar seus pulmões) e lembre-se de que seu amor platônico, sua deusa inalcançável, a essa hora também está derretendo feito sorvete de creme – lamentosa, melecada, praguejando, enlouquecida de torpor. Só não reclame. Pare de reclamar, caramba. Está quente, mas não há nada de surpreendente nisso: todo ano nesta época faz calor. Dizem que foi bem pior em 72, 76, 81, 86, 89 etc. Erga as mãos para o céu por você não ter sido um funcionário público no Rio de Janeiro em 1941, tendo que trabalhar na repartição de terno e gravata, brilhantina no cabelo e sem ar refrigerado. Como esse povo aguentava isso sem enlouquecer é que são elas (os loucos se sentem muito à vontade no calor). Vou à janela, e tudo parece uma imensa fotografia: nenhuma folha se mexe, nenhuma brisa ousa acontecer, o ar em brasa paira sobre o mundo. Mas – alívio – o relógio de rua me informa que, nesses 15 minutos, o forno baixou de 35°C para 33°C. A gota de suor desistiu de passear na pele. A camisa está pouco menos empapada. Atenção: uma brisa. Como no caso do bêbado e o equilibrista da famosa canção, há esperança.