(Divulgação) Domingo, se meu ônibus não despencar numa curva da Serra, se os mariscos do Garcia não aprontarem alguma, se ninguém misturou metanol na caipirinha da barraca, vou ver de perto a poeta Ana Martins Marques. Ela vai estar a partir das 14 horas, no Teatro Guarany, em mais uma mesa imperdível da 17ª Tarrafa Literária. Estaremos respirando o mesmo ar, dividindo um espaço de algumas dezenas de metros. Quem abre a torneira / convida a entrar / o lago / o rio / o mar Meu primeiro espanto será constatar que Ana Martins Marques é uma pessoa. Que bebe água, coça o braço e aperta os olhos ao receber na cara um foco de luz. Quer dizer que, como eu e você, ela teve caxumba, impostos a pagar e dias mal-humorados? Mesmo diante da evidência, não estarei convencido. Pois que essa mulher é uma divindade (ai, que cafona, risque essa palavra) e sua escrita, um feitiço. Na Idade Média, talvez queimassem Ana Martins Marques numa fogueira. Sorte estarmos em 2025, quando podemos descer a Serra de ônibus, sentar em poltronas reclináveis e concentrar nossa fereza nesse lamentável time atual do Santos. É bom encontrarmos uma vez ou outra pessoas / que conhecemos na infância / é bom nos esforçarmos por um tempo / para parecer com a lembrança delas Não sei o que me faz pensar isso, mas Ana (de tanto lê-la, criei certa intimidade) deve ser uma pessoa tímida, como costumam ser as grandes. Se bem me conheço, quando chegar minha vez na fila dos autógrafos, nada lhe direi. Estarei petrificado e as palavras soarão em gaguejos - ou nem soarão. Melhor deixar as palavras por conta dela, que as trata melhor. Talvez diga a Ana que sua poesia me fez sobreviver a anos muito difíceis, quando pairou uma nuvem de ódio e deselegância, e quase não reconheci meu país. Mas ali estava sua poesia, da arte das armadilhas, a aspergir sutileza e esperança ao nosso desalento. Se eu vivesse / à beira-mar / teria / outra cor / outros cabelos /eu me apaixonaria / por homens diferentes / gastaria meu dinheiro com outras coisas / talvez desse festas / vestisse apenas / branco O que me encanta e estarrece em sua poesia é que ela usa as mesmas palavras que eu, sua tia Guiomar, o síndico do prédio e o dentista usam. Ela não pesca no dicionário termos meio obscuros para dar um verniz acadêmico, não. Lá estão a feira, a foto, os guindastes, o cavalo, para servir apenas à mensagem e à métrica precisa. Aqueles que nasceram longe / do mar / aqueles que nunca viram / o mar que ideia farão / do ilimitado / que ideia farão / do perigo / que ideia farão / de partir? Domingo de noite, ao subir a Serra, se meu coração sossegar, se o trânsito não nos enlouquecer, serei um homem realizado: terei conhecido a poesia em carne e osso, que (suponho) tem orelhas e cabelos, fica nervosa diante de uma plateia e se senta meio torto na cadeira. Só espero poder / tocar o sol / antes / do solo Até logo, Ana Martins Marques. *Escritor e publicitário