(FreePik) Hoje, ao entrar na cozinha, dei com algo pequeno e brilhante no chão, destoando do piso. Me agachei, era um clipe. Sem encontrar utilidade para o momento, guardei o aparecido na gaveta mais próxima. É estranho encontrar um único clipe assim, solitário, abandonado. Os clipes têm hábitos gregários, andam em bandos, tanto que a gente costuma usar a palavra no plural: clipes, mesmo quando se refere a um só. Fora que eles têm ainda mais necessidade de contato que nós, humanos: vivem se enganchando, se enroscando, às vezes dá um upa soltar um do outro. Temos que admitir que o sujeito que inventou o clipe era um gênio. Que troço simples, definitivo, aquele formato imitando um mini trombone, perfeito para juntar papeis, anexar documentos, sem machucá-los como fariam os grampeadores. Muito usei os clipes nesta vida. Trabalhei em algumas empresas, e, se não fossem os clipes ou a parada para o cafezinho, nenhuma delas sobreviveria. Mas, por ora, eles pouco me servem. E é um conforto constatar isso. Não me lembro da última vez que os usei. Talvez quando imprimi alguma crônica de duas ou três páginas (outra coisa rara, ando meio preguiçoso). Acho que a última vez foi vergonhosa: um fiapo de carne ficou preso entre os dentes; sem ter fio dental ou palito por perto, desdobrei o clipe até ficar aquela ponta de metal e cutuquei o vão dos dentes. Confesso, foi muito feio, posso ouvir os apupos do pessoal, mas resolveu a questão. Só não contem ao meu irmão mais velho, que é dentista e me daria uma bronca merecida. Minto. A última vez foi outra e ainda mais estranha, duvido que o inventor do clipe imaginou esse uso: um dos lacres que prendia a placa do meu carro (já velhinho, coitado) se soltou, ela ficou pendurada, quase caindo, e andar por aí sem placa dá multa pesada. Meu filho Pedro resolveu a questão: amarrou a placa com um clipe grosso até que eu levasse o carro a uma oficina para substituir o lacre. Se alguém criou uma nova maneira de usar o clipe e elevá-lo à categoria de obra de arte, foi meu amigo José Carlos Lollo, que com alicate e muito talento fazia verdadeiras esculturas com clipe. Tenho uma minha com óculos e tudo, criada pelo moço, na prateleira de minha biblioteca. Enfim, são desses estranhos usos as últimas referências que tenho dos clipes. De que eles me serviriam agora? O mundo está ainda mais digital, mexemos no dia a dia com cada vez menos papel. Além do quê, tenho me ocupado de funções onde um clipe pouco ajudaria: matutar enquanto caminho, observar nuvens, prosear com amigos, escrever no computador. Estará destinado aos clipes o mesmo fim das máquinas registradoras ou de escrever? Serem substituídos sem dó, esquecidos da importância que um dia tiveram, para servir unicamente como peça de recordação ou enfeite? Ah, não. Não é possível que até um clipe solitário encontrado no chão da cozinha me ponha reflexivo. Acho que agora passei dos limites. Como o clipe, o cronista não tem salvação.