(Clément Falize/Unsplash) Eu conheço uma pessoa que é anticronista. Constatem que, já na primeira linha, eu me revelo um sujeito francamente covarde, pois não digo o nome, sexo, se é amigo(a) ou parente, vizinho(a) ou colega de trabalho – e eu sou doido, nesses tempos de tretas e caneladas, de sair revelando nomes por aí? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Voltemos ao que interessa: essa pessoa é uma anticronista. Não, ela não tem particularmente algo contra o gênero ou esses escritores em particular. Eles não lhe são antipáticos, apenas incompreensíveis. É que ela enxerga o mundo de um prisma rigorosamente oposto ao do cronista. Pois é certo que o cronista tem uma tendência a reparar em pequenos acontecidos e não acontecidos, belos ou banais, alegres ou melancólicos, que poderiam passar despercebidos a boa parte das pessoas. Então, ele se incumbe (sem que ninguém tenha pedido, é bom que se diga) de resgatar esse lado da vida que, afinal, aí está. De uma maneira geral, pode-se dizer que o cronista tem um olhar mais lírico sobre as coisas. Gosto do que escreveu a respeito Raul Drewnick, grande cronista de Curitiba: “Quando eu escrevia crônicas, parecia um político em campanha. Cumprimentava os postes do meu bairro, conversava com as árvores, assobiava para os cachorros. É o que há de melhor em ser cronista: essa camaradagem com tudo, essa impressão de que nem sempre a literatura precisa ser a tia sisuda que, para não manchar a pele, nunca se expõe ao sol.” Está certo que tem horas que o cronista abusa: acontece dele confundir leveza com melaço e sair salpicando açúcar em tudo. Por vezes, seu olhar é risonho em exagero, otimista sem motivo, e costuma enjoar na quinta linha. Parafraseando Gertrude Stein, às vezes um poente é um poente é um poente. Mas voltemos à (ao) anticronista. Sua visão de mundo é tudo, menos lírica: seus olhos tendem a captar o ruim, o lamentável, a raiva que há em volta. Ela (a pessoa, insisto que não vou entregar o gênero) não sente a brisa que sopra no rosto, apenas a possibilidade de nuvem cinza que ela possa trazer; crianças jogando bola só lhe evocam a possibilidade de um vidro quebrado; de qualquer oportunidade ela espera a decepção; seu riso é crispado, dura um décimo de segundo e costuma nascer mais do infortúnio de alguém do que de uma alegria à toa. Aliás, se tem algo que a irrita é esse tal de ‘à toa’: tudo que envolva pausa, balanço, leveza, alguma contemplação (vagabundagem mesmo, sejamos claros), afeta sua sensibilidade de modo inverso ao do cronista. Torce contra a festa na casa do vizinho, contra um namoro que mal começou, o calouro no programa da TV, para que chova nos quatro dias de Carnaval, contra o Brasil na Copa – aliás, torce contra o Brasil em qualquer ocasião. Dali não sairá palavra de incentivo; se um sentimento vai ficar, será rançoso. Talvez ela é que esteja certa, não sei, a gente até acha às vezes este mundo meio porcaria mesmo. Mas que desse jeito os dias ficam meio amarguinhos, ficam. E que vantagem pode haver nisso? Não tenho procuração para defender a classe, mas acho que, no fundo, a despeito das tretas e caneladas já citadas, a vida é pró-cronista. Uma pró-cronista um tanto ressabiada, velhaca, chegada numa rasteira, mas que tende a pender para o nosso lado. Acho mesmo. E tenho dito (espero que sem exagerar no açúcar).