Imagem ilustrativa (Freepik) O nome foi mudando ao longo dos anos: mendigo, andarilho, sem-abrigo, morador de rua e, mais recentemente, pessoa em situação de rua. A mudança no vocabulário não é apenas uma questão de “politicamente correto”. Ela reflete uma mudança de paradigma: do olhar de julgamento para o olhar de cidadania e direitos humanos. Ao nomear com mais cuidado, a sociedade passa a reconhecer essas pessoas como sujeitos de direito e não apenas como um “problema urbano”. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O contingente de pessoas vivendo nessa situação aumentou a olhos vistos depois da pandemia. Não há números oficiais na Baixada Santista nem nas capitais, mas basta andar pelas ruas dos centros urbanos para constatar a quantidade de homens e mulheres, de todas as faixas etárias, vivendo sobre marquises ou na porta de comércios fechados. A questão é complexa: metade da população quer banir as pessoas em situação de rua das cidades, a outra metade acolhe e alimenta. E tem ainda os que agridem, ateiam fogo, destroem seus pertences. Também há os que doam dinheiro e os que olham com desdém e preconceito. Não há um comportamento único quando se fala em convivência urbana entre públicos tão diversos. Buscar caminhos não é tarefa fácil, mas o primeiro passo é conhecer esse público e entender qual foi a trajetória anterior à rua. Conflito familiar, desemprego, falta de recursos para o aluguel, questões amorosas e de gênero são apenas algumas das muitas razões que levam um contingente tão grande de pessoas a ter a rua como destino certo para a sobrevivência. Romper o ciclo da rua exige políticas públicas integradas e contínuas — não apenas ações emergenciais ou paliativas. Moradia, saúde mental, acesso a documentação, qualificação profissional e reinserção no mercado de trabalho são partes de uma engrenagem que só funciona se houver coordenação entre diferentes esferas do poder público e envolvimento da sociedade civil. Em alguns casos, sim, será preciso o poder da polícia para capturar quem trafica e quem se beneficia desse público para fazer dinheiro de forma ilícita. Mas certamente não é o lugar comum de todos aqueles que vivem nessa condição. Também é fundamental superar o estigma e promover empatia. A rua é, muitas vezes, o último recurso para quem teve todos os outros negados. Por isso, enxergar essas pessoas em sua complexidade é uma maneira de reafirmar a dignidade humana como direito universal e entender que, sim, o outro poderia ser um dos nossos ou poderia ser um ‘eu mesmo’, a depender das circunstâncias. Ao mudar o nome, mudamos também a lente. E é por meio dessa nova lente — mais justa, mais humana e mais comprometida com a transformação — que podemos começar a construir respostas que não apenas removam a dor da rua, mas devolvam o direito à cidade, à cidadania e à esperança.