Fortaleza, cidade de sotaques e sabores

Este visitante que vos escreve nasceu no Ceará

Este visitante que vos escreve nasceu no Ceará. Faz 20 anos que saí da pequena Umarí (hoje com pouco mais de 7 mil habitantes, na região árida do estado) e nunca mais havia retornado à minha terra natal. Me surpreendi ao retorna agora, com amigos. A capital cearense, com seus mais de 2,6 milhões de habitantes, em nada se assemelha ao clichê de atraso por vezes pregado à imagem do Nordeste.

Se chegar pelo ar, o turista já se surpreende como Aeroporto Internacional de Fortaleza. Concedido à iniciativa privada pelo Governo Federal em 2017, é moderno e parece ter sido inaugurado ontem. Ao redor, há muitas opções de transporte, como motoristas de aplicativos, uma espécie de metrô fortalezense, além dos tradicionais táxis. 

Ouvi de moradores locais que o transporte coletivo não é dos melhores. Acho que vale mais a pena se locomover por aplicativos: a cidade não é tão grande e os pontos turísticos são concentrados em regiões estratégicas. A maioria dos motoristas é muito solícita e sugere boas opções de passeio e experiências culturais aos passageiros.

Comecei meu roteiro pela Praia de Iracema, a Copacabana de Fortaleza. O ponto mais badalado é a estátua cor de bronze Iracema Guardiã, uma curvilínea mulher empunhando uma espécie de vara, virada para o mar, como se protegesse a cidade de um ataque. 

O monumento, um dos maiores símbolos de Fortaleza, é uma homenagem à “virgem dos lábios de mel” do romance do escritor cearense José de Alencar. Para muitos, a obra é considerada uma metáfora sobre a colonização brasileira, com a personagem se apaixonando por seu conquistador – ou a América se curvando à Europa.

Da Praia de Iracema dá para ver, ao longe, o Porto de Mucuripe e as torres de energia eólica, que não param um segundo sequer, impulsionadas pelo vento vindo do oceano. Outros locais também ostentam enormes torres de captação de energia.

Outro ponto curioso é avistar o velho navio petroleiro Mara Hope, que pegou fogo em 1983 em um porto americano. Ao ser rebocado em 1985, rumo ao Cabo Horn, no extremo sul do continente, acabou encalhado em um banco de areia próximo à orla.

Fortaleza sem ir à praia. Mas, atenção:por contado porto, vale a pena pesquisar a balneabilidade. A Praia do Futuro (ocupa 8 dos 25 quilômetros de praias da capital) tem águas limpíssimas e é a queridinha dos turistas. Lá foi rodada parte das cenas do filme homônimo, estrelado por Wagner Moura.

O mar de Fortaleza tem vários tons de verde, que quase nunca são azuis. Fotografias não captam o tom: só o olho humano pode perceber a tonalidade única. O horizonte, visto da areia, também parece não ter fim. Jangadas coloridas completam a paisagem. É lindo demais.

Algo curioso é que os quiosques (ou barracas,como chamam os locais) são estabelecimentos com lazer completo: guarda-sóis e chuveiros para tirar o sal do corpo depois do banho de mar. Muitos têm até piscina, playground e outras atrações para divertir as crianças. E tem para todos os gostos: para a família, para o público LGBT, com trilha sonora de samba, forró, música popular brasileira e por aí vai. 

A combinação dos quiosques é perfeita: água, sol, a brisa do vento do Ceará e comida para todos os gostos. Aconselho provar o tradicional baião de dois (dependendo do quiosque há variação do prato, com queijo coalho, creme de leite, bacon, linguiça calabresa ou outros ingredientes), caranguejo (o difícil é quebrar o bicho para comer),pata de caranguejo empanada, casquinha de siri e tapioca.

Por falar em tapioca, um point não muito famoso, mas que vale a pena, é o Centro das Tapioqueiras de Messejana, distrito de Fortaleza, um point mais afastado da região central da capital. São vários boxes que vendem toda a combinação de recheio que se possa imaginar de tapioca.

Muitas delas são uma fina camada de massa de tapioca, coberta de uma também fina camada de queijo coalho. O prato parece uma obrade arte.E o sabor da tapioca do Ceará nem se compara à tapioca feita com a massa vendida nos supermercados do resto do País.   

Tanta comida boa precisa de bebida para acompanhar .A maioria dos comércios da cidade vende caipirinhas (experimente com a cachaça Ypióca, que tem a fábrica sediada na cidade e exporta para vários países) e drinques feitos à base dos frutos da região. Acerola, cajá, cajarana, seriguela e tamarindo–o gosto é indescritível, talvez por isso o personagem Chaves, do seriado, brincava “que tem gosto de uma fruta e parece outra–são obrigatórios.

No Mercado Central de Fortaleza dá para tomar sucos de todos esses sabores. O lugar também é ideal para levar lembranças de Fortaleza. São quatro andares de boxes com artesanatos lindos (casais de Lampião e Maria Bonita e pretos velhos, baianas, Padim Ciços e todo o arsenal de personagens do Nordeste), cangas, redes, produtos em couro e tantas outras coisas que é melhor ir com um cartão de crédito com limite considerável. 

Uma dica importante: o povo cearense, além de tempero, gosta de açúcar e sal. Tomei café da manhã (delicioso, por sinal) em uma padaria e pedi cuscuz com carne seca e queijo e café. O prato veio salgado e adoçado a gosto do cozinheiro. Não é costume oferecer opções de adoçante ao cliente, por exemplo. Diabéticos e hipertensos, avisem ao garçom ao fazer o pedido! 

Em três dias na cidade, não consegui fazer os programas culturais como Centro de Cultura Dragão do Mar (tem várias atrações, entre elas um planetário) e o Teatro José de Alencar (que tem visitas guiadas). Quem quiser visitar o parque aquático Beach Park e as famosas praias de Jericoacoara e Cumbuco deve reservar um dia ou mais só para isso, porque as atrações ficam a uns bons quilômetros do centro. 

No fim da viagem, o turista volta para casa falando um pouco de cearencês (veja exemplos abaixo).Para mim, ficou a vontade de voltar logo. E, particularmente, me reencontrei como cearense quando o avião sobrevoou o Rio São Francisco, tão grande e imponente, o Oásis do Sertão. Talvez na próxima viagem eu faça uma parada para me banhar nas águas do Velho Chico. E viva o Nordeste do Brasil!

Dicionário Cearencês: “Ei,macho!” – expressão usada para chamar alguém. Tipo“Eaí, cara?” Arrudeia/arrodear – dar a volta em algo. “Arrudeia ocarro”. Diaboeisso – “Que diabo é isso”, exprime espanto, surpresa. Fumando numa quenga –Pessoa brava, irritada. Mangar – Dar risada. “Fulano está mangando de alguém/algo”.  

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