O setor de cruzeiros marítimos no Brasil passa por uma desaceleração. Fechou a temporada 2024/2025 com 838,1 mil cruzeiristas, 0,8% menos do que temporada anterior (844 mil), e experimentará novo recuo na temporada 2025/2026, que ofertará 674,6 mil leitos em sete navios regulares, uma redução de 186,4 mil leitos (-19,5%). Falta de infraestrutura portuária adequada, altos custos de insumos e ações judiciais trabalhistas e de consumidores contribuem para essa retração. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O mapeamento completo do mercado de cruzeiros na última temporada foi apurado no Estudo de Perfil e Impactos Econômicos no Brasil realizado pela Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos (Clia Brasil) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV). A pesquisa aponta que, apesar da leve retração, o resultado alcança o segundo maior patamar da série histórica desde 2016/2017, com exceção da temporada atípica de 2021/2022, no período pós-pandemia. O estudo mostra que, com nove navios em operação, a temporada registrou média de 93,1 mil hóspedes por embarcação — também o segundo melhor índice histórico. O presidente da Clia Brasil, Marco Ferraz, avaliou que, mesmo com redução de seis mil passageiros em relação à temporada 2023/2024, “2024/2025 foi estável e com impacto socioeconô-mico positivo. A FGV calculou que o impacto econômico, influenciado pela inflação do período, subiu de R\$ 5,2 bilhões para R\$ 5,5 bilhões. Os empregos também subiram de 80 mil para 84,5 mil vagas. Então, a gente tem os maiores números da história de impacto econômico e de empregos”, afirmou. Navios de passagem Os 29 navios de passagem, com roteiros internacionais, que apenas escalam nos portos brasileiros, totalizaram 233 mil visitas, impactando em R\$ 583,9 milhões a economia brasileira, sendo R\$ 266,5 milhões oriundos de cruzeiristas e R\$ 317,4 milhões da operação dos navios. Esse capital gerou mais de 9,1 mil postos de trabalho e R\$ 62,1 milhões em tributos municipais, estaduais e federais. Retração preocupa A retração no setor, porém, preocupa. Ferraz explicou que é reflexo de um ambiente de negócios pouco competitivo. “Alguns fatores que levam a essa retração são falta de infraestrutura portuária adequada, calado operacional, berços sem estrutura para fornecimento de gás natural liquefeito e de energia elétrica enquanto os navios estiverem atracados”, enumerou. “Além disso, o Brasil enfrenta custos operacionais acima da média mundial, chegando a ser mais de 50% maiores que no Caribe ou na Europa. Somam-se a isso a burocracia e o alto custo dos vistos para tripulantes estrangeiros, ações judiciais trabalhistas e de consumo, e a carga tributária pesada sobre combustíveis, fretamento e operações a bordo”, destacou Ferraz. O presidente da Clia Brasil comentou ainda que os entraves resultaram na perda de dois navios para o Caribe, de certa forma, desfalcando a frota da temporada brasileira 2025/2026, que ocorrerá de 21 de outubro a 24 de abril de 2026, com sete navios de linhas regulares. Na última temporada foram nove. “As companhias apresentam planos de negócios às matrizes, mas outros destinos conseguem oferecer condições mais atrativas”, observou. “Enquanto recebemos menos de 1% da população em cruzeiros, países como a Austrália, com uma população dez vezes menor, já superam 1,3 milhão de passageiros ao ano”, comparou Ferraz. Terminal no Valongo Entusiasta da mudança do Terminal Marítimo de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, de Outeirinhos para o Valongo, Ferraz salientou que a estrutura, cujo projeto contempla o dobro de passageiros (2 milhões de pessoas) e três berços para navios, “sem dúvida impulsionaria o mercado de cruzeiros”. Costa Cruzeiros O presidente executivo da Costa Cruzeiros para as Américas, Dario Rustico, destacou a relevância do estudo. “A pesquisa nos fornece insights valiosos que nos ajudam a moldar nossas estratégias para oferta de navios e itinerários pensando sempre em atender às expectativas dos diferentes perfis de viajantes”. Rustico comemorou os números da temporada passada. “Já estávamos com 100% das cabines disponíveis vendidas meses antes do final da temporada, para os três navios que operamos (Diadema, Favolosa e Pacifica). Este resultado excepcional reflete a forte demanda do mercado brasileiro por nossas experiências de cruzeiro, a qualidade dos nossos navios e itinerários, e o trabalho incansável da nossa equipe, parceiros e agentes de viagens”. A MSC Cruzeiros não se manifestou. MSC Preziosa abre a temporada, que começará em 26 de outubro no Porto de Santos; Concais já prepara a estrutura para os passageiros (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Primeiro navio chegará a Santos em 26 de outubro A próxima temporada de cruzeiros marítimos será mais curta, de 21 outubro de 2025 a 24 de abril de 2026, e contará com sete transatlânticos de linhas regulares, dois a menos do que na temporada anterior, justificando a redução de 19,5% em comparação ao período 2024/2025. Segundo o Concais, que administra o Terminal Marítimo de Passageiros Giusfredo Santini, no Porto de Santos, a temporada começará em 26 de outubro, com a chegada do MSC Preziosa, e encerrará no dia 19 de abril de 2026, com a partida do Costa Diadema. O cais santista receberá 14 navios, cinco de linhas regulares e nove em trânsito, que farão 133 escalas em 95 dias, quatro dias a menos do que na temporada 2024/2025. Os cruzeiros de cabotagem serão feitos pelas companhias MSC Cruzeiros, com os navios Preziosa, Seaview, Harmonia, Sinfonia e Fantasia, e Costa Cruzeiros, com o Diadema e o Favolosa. Armadores O presidente executivo da Costa Cruzeiros para as Américas, Dario Rustico está otimista. “Observamos um cenário de alta demanda, um público cada vez mais interessado na experiência de viajar de cruzeiro. As vendas antecipadas estão se mostrando muito promissoras, e a estratégia de diversificar os roteiros, incluindo minicruzeiros e viagens mais longas, tem sido fundamental para atrair diferentes perfis de viajantes”. Transatlânticos Sobre os navios Diadema e Favolosa, Rustico comentou que “ambos são muito queridos pelos nossos hóspedes. Mantemos os destinos clássicos e mais procurados da América do Sul em roteiros, com duração de 3 a 9 noites”, comentou Rustico. O presidente executivo da Costa ressaltou que “a cidade de Santos é um dos principais e mais estratégicos hubs para as nossas atividades de embarque e desembarque na América do Sul”. Limitação de calado e de berços desafia o setor O Porto de Santos concentrou 60% dos cruzeiristas que viajaram pela costa brasileira na temporada 2024/2025, mas a infraestrutura limitada impõe desafios ao setor. Hoje, os navios precisam atracar em áreas afastadas do Terminal Marítimo de Passageiros, administrado pelo Concais, o que complica a logística de embarque e desembarque. “Há espaço para navios menores na frente do Concais, mas existe uma restrição de calado e de comprimento, o que torna a operação difícil. Temos que mandar os navios para os berços 31 e 32, em frente à área de celulose, e os passageiros precisam percorrer mais de um quilômetro de ônibus até chegar à embarcação, disputando espaço com caminhões e trânsito local”, explicou o presidente da Clia Brasil, Marco Ferraz. Segundo ele, a situação se agravou após o embargo de um dos berços do Cais da Marinha, em 13 de março deste ano, quando o navio petroleiro Olavo Bilac colidiu contra o cais e três embarcações. “A infraestrutura não está preparada para cruzeiros. O Porto de Santos faz o máximo para nos atender, mas, para o passageiro, a experiência acaba não sendo tão simples”, afirmou Ferraz. Concais Em nota, a arrendatária do terminal de passageiros informou que “há limitação de calado, mas o maior impeditivo é o comprimento. O cais de atracação em frente as instalações do Armazém 25 atende navios com até 296 metros de comprimento. Em dias com embarcações simultâneas que excedem esse tamanho, estas devem atracar no cais de Outeirinhos ou nos Armazéns 31 e 32, conforme determinação da Autoridade Portuária de Santos (APS)”. O Concais informou também que existe a possibilidade de navios de passageiros atracarem nos berços de Outeirinhos 2 e 3, conforme determinação da APS. “O MSC Preziosa, com 333 metros, o MSC Seaview, com 323,3 metros, e o Costa Diadema com 306 metros, não atracarão no cais 25”. Por fim, a empresa esclareceu que “a exemplo de temporadas anteriores, participa de reuniões com a APS sobre a escala de atracações da temporada 2025/2026”. Cais da Marinha Procurada, a Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP) informou que ainda não há previsão para execução dos reparos no cais danificado após a colisão do navio petroleiro. “O projeto executivo, que detalhará as fases da obra e estimativas mais aproximadas dos prazos de execução, está sendo elaborado. Paralelamente, estão em andamento as tratativas para contratação da empresa responsável pela execução da obra, bem como ratificar ou retificar os prazos estabelecidos no plano executivo”. A CPSP ressaltou ainda que “todos os esforços nas ações de reparo do píer visam restabelecer as condições de operação no menor prazo possível”. APS A Autoridade Portuária de Santos (APS) explicou que “a oferta de berços para navios de cruzeiros no Porto de Santos, historicamente, não é junto ao terminal de passageiros, mas nos berços que melhor atendem às necessidades dos passageiros, que têm prioridade sobre os embarques e desembarques de cargas, contando com a atenção da Guarda Portuária e equipes da APS tanto no cais como nos arredores do terminal”. A APS esclareceu ainda que “o calado do Porto de Santos está dentro das especificações de projeto, contando com constante dragagem de manutenção e que o transporte em ônibus é necessário para a segurança dos turistas e das operações”. Segundo a APS, desde que o cais de Outeirinhos foi construído para receber cruzeiros, em 2016, não houve investimento público no setor até agora, quando a gestora do Porto entregará uma passarela para pedestres até o terminal do Concais, passando sobre a Perimetral e a linha férrea. “Os passageiros de cruzeiros não precisarão mais cruzar pela faixa de pedestres e trilhos ferroviários”, diz a APS.