Evelyn Lima: "Trabalhei em turno e, muitas vezes, era a única mulher na operação. Quando isso vira cultura, você não se sente diferente, é normal, e inspira outras mulheres, com certeza” (Alexsander Ferraz/AT) No setor portuário há 16 anos, Evelyn Santo de Lima, de 40 anos, assumiu, em novembro, o cargo de diretora de Planejamento Operacional da Santos Brasil. É a primeira mulher a alçar a posição na companhia e, possivelmente, no País. O posto é estratégico em um mercado tão competitivo e ainda predominantemente masculino. Evelyn tem de garantir que um navio entre, opere e saia do terminal dentro do tempo planejado, respondendo com eficiência à cadeia logística. Atuando no maior terminal de contêineres da América do Sul, o Tecon Santos, no Porto de Santos, com movimentação anual de 2,7 milhões de TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), ela planeja também as operações do Tecon Imbituba (SC) e Tecon Vila do Conde (PA). Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Sua formação profissional não está diretamente relacionada ao setor portuário. Como você ingressou nesse mercado? Eu sou graduada em Ciências Econômicas, pós-graduada em Supply Chain e Gestão de Pessoas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e, atualmente, faço pós-graduação em Contabilidade e Administração Financeira pela PUC do Rio Grande do Sul. Eu estava terminando a minha graduação em Ciências Econômicas, em 2009, quando apareceu a oportunidade de estágio dentro da Santos Brasil para trabalhar na área operacional. Porto é algo que, naturalmente, quem mora na Baixada Santista admira. Todo mundo fala: “Nossa, um dia eu quero trabalhar no Porto, mas trabalhar em quê?”. Muitas vezes, a gente não tem ideia da gama de tecnologia e das funções que existem dentro de um terminal de contêineres ou dentro de qualquer outro tipo de terminal dentro de um porto como o de Santos. Como foi sua trajetória na companhia? Eu fui selecionada nessa oportunidade que a Santos Brasil colocou para o mercado. Passei nove meses aprendendo desde o que é um contêiner, as diferenças entre eles, como ele pode ser ovado ou estufado, até o processo final — da documentação ao embarque ou desembarque do navio. Depois, recém-formada, eu fui chamada para ser funcionária no setor de planejamento de pátio. Eu estava no setor há cerca de dois anos e meio quando surgiu a oportunidade de ir para o planejamento de navios. O pátio tem uma segregação específica e a gente fala que ele é o inverso do navio. Com esse conhecimento, comecei a trabalhar nas operações de navios. Foram quase sete anos ali até surgir a oportunidade de subir para uma cadeira de gestão, comandando um turno na coordenação de operação por volta de 2014. Depois disso, a companhia entendeu que a operação estava crescendo e dividiu a estrutura entre execução e planejamento. Isso permitiu refinar o serviço ao cliente e trazer mais eficiência, pensando um minuto, seis horas, um ano, cinco anos, até 30 anos à frente. Eu fui selecionada para assumir a divisão do planejamento operacional. Evelyn Lima: "A gente define prioridades do dia, da semana, quais navios atracam, se chegam no tempo ou atrasados, e adapta a operação para entregar a movimentação de contêineres no menor tempo possível” (Alexsander Ferraz/AT) A Santos Brasil foi a primeira empresa portuária a criar uma divisão específica de planejamento operacional? Os terminais locais não tinham essa divisão, mas, hoje, outros já adotam. Isso trouxe ganhos de eficiência, reduzindo o tempo do navio no Porto e tornando a Santos Brasil a potência que ela é hoje. Depois passei para a gerência de planejamento, numa estrutura maior, com mais sofisticação, cultura de diversidade e início de ESG. Um ano e meio depois, assumi a gerência executiva de planejamento operacional, dando suporte técnico também para Imbituba e Vila do Conde. A ideia é que o cliente enxergue a mesma Santos Brasil em todos os terminais. Desde meados de 2023, esse foi o desafio. E, recentemente, assumi a Diretoria de Planejamento Operacional, com um foco mais estratégico. Como é assumir essa posição? É uma responsabilidade grande, não só pela competência técnica para manter a Santos Brasil pioneira em tecnologia e inovação, mas também no desenvolvimento de pessoas. Assumir essa posição é dar visibilidade para outras mulheres e servir como inspiração. É uma responsabilidade bem grande. O que você faz na prática? O planejamento operacional é responsável pelos três grandes sistemas de um terminal: gates oper<CW-24>acionais, retaguarda e cais. Esses sistemas precisam estar em sinergia para evitar conflito, ineficiência ou desperdício. A gente define prioridades do dia, da semana, quais navios atracam, se chegam no tempo ou atrasados, e adapta a operação para entregar a movimentação de contêineres no menor tempo possível. A gente faz parte da cadeia de suprimentos. Quando alguém compra algo na internet, nosso trabalho é garantir que isso chegue no menor tempo possível, com eficiência e segurança, tanto para a carga quanto para as pessoas. Se eu tenho quatro navios para operar, preciso definir tipo de operação, prioridade, quantidade de equipamentos e velocidade para que o navio saia no tempo correto e siga para o próximo porto. A gente trabalha em sistema just in time, tanto para carga quanto para navios. Você supervisiona as chegadas e as partidas dos navios? Sim, nos três terminais. Quantos navios você supervisiona por dia? A gente olha hora à hora. No Tecon Santos, podemos atracar até quatro navios de contêiner ao mesmo tempo. Considerando os outros terminais, administramos praticamente seis navios simultâneos, além dos próximos que estão para chegar. Também olhamos os próximos 7 a 15 dias. Então, você gerencia o plano A, mas também tem que ter sempre um plano B para quando houver imprevistos? Planejamento o tempo todo, plano A, B e C. Quantos contêineres são movimentados por dia? No Tecon Santos, operamos de 18 a 20 navios por semana. Em 24 horas, movimentamos de 3,5 mil a 4 mil contêineres. Além disso, temos gates e ferrovia, com cerca de 3,5 mil a 4 mil veículos acessando o terminal no mesmo período. Em outubro, batemos o recorde mensal de 137.640 contêineres movimentados só no Tecon Santos. Podemos dizer que não tem nenhum navio que passe sem a sua supervisão? Não tem nenhum navio que passe sem o planejamento operacional. Você também planejou o novo Centro de Controle Operacional (CCO) da empresa. Fale um pouco sobre ele. Pensamos no CCO como um sistema de produção. Cada cadeira tem uma função específica, mas todas trabalham juntas para um único resultado: a saída do navio no tempo. Depois pensamos na digitalização, nos sistemas, na informação em tempo real, dashboards (painéis de controle), inteligência artificial para previsibilidade de volume, permitindo decisões rápidas e melhor alocação de recursos, com mais eficiência, rapidez e segurança. Quando foi entregue o novo CCO? Em 2020. Com dor no coração, ele será demolido este ano, mas teremos um centro tão moderno quanto no prédio novo (sede administrativa) no primeiro semestre de 2027. Como você define a sua carreira no setor portuário? Quando eu estava na universidade, não imaginava esse universo. Hoje, ocupar esse cargo é mostrar que o Porto gera oportunidades em tecnologia, administração, em várias áreas. O estágio foi um divisor de águas. Quando vejo um navio saindo, algo que eu planejei, é a maior satisfação e motivação no final do dia. Você é uma mulher pioneira no setor portuário, no caso como diretora de planejamento operacional. Como você encara isso? Hoje, já temos mais mulheres, o que é muito importante. No começo, você se sente um pouco deslocada, mas a Santos Brasil é um time que acolhe muito. Trabalhei em turno e, muitas vezes, era a única mulher na operação. Quando isso vira cultura, você não se sente diferente, é normal, e inspira outras mulheres, com certeza.