CEO da Bandeirantes Deicmar desde 2024, Washington Flores Júnior, de 62 anos, lida diariamente com a logística que envolve a carga. Por essa razão, conhece bem os problemas e possíveis soluções para o setor. Em entrevista para A Tribuna, Flores falou a respeito do Porto de Santos sob vários aspectos, como os acessos, locais de expansão para o complexo e vocações da região, como o porto-indústria e as Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs). Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! No Summit Porto-Indústria, realizado em julho pelo Grupo Tribuna, o senhor fez um alerta direto: o Porto de Santos corre risco de colapso logístico nos próximos anos se nada for feito para resolver os gargalos de acesso e escoamento. Por quê? Em minha palestra no evento, apresentei nossa expectativa de curto e médio prazos baseada em dois pilares: a situação atual de entrada e saída dos terminais da Margem Direita e os projetos anunciados pelas autoridades. Quase todos os dias testemunhamos os longos congestionamentos na entrada e na saída do Porto, filas que também prejudicam os moradores que tentam entrar ou sair de Santos. O Governo Federal planeja implantar um novo terminal de contêineres na região do Saboó, licitação programada para ocorrer ainda este ano, e o Governo Estadual planeja construir uma nova pista no Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI). Serão duas obras que ampliarão imensamente o tráfego de caminhões na região portuária e o tráfego de veículos leves e pesados na Serra. Entre o Porto e a Serra está o nosso gargalo atual, duas pistas da Anchieta na entrada e duas pistas na saída de Santos. O que hoje já é um grande problema vai se tornar um obstáculo ainda maior para quem trabalha no Porto e para quem vive em Santos. A chegada ao Porto de Santos possui gargalos há anos e que só pioram. Como resolver isso? Quais obras são necessárias? Não acredito que alguém saiba nesse momento que obras são necessárias para resolver em definitivo nossos problemas de acesso. Achismo não funciona em logística. É fundamental que um estudo de tráfego seja elaborado imediatamente e a solução apontada no estudo seja implantada antes da entrada em operação dos dois grandes projetos em curso, o Tecon Santos 10 e a nova pista da Imigrantes. Então, uma nova pista na Imigrantes é solução ou um problema? A ampliação da capacidade do Sistema Anchieta-Imigrantes é a solução para que mais veículos subam e desçam a Serra em menor tempo, com menos restrições e com mais segurança. Se os acessos às cidades da Baixada Santista, principalmente Santos, não forem ampliados na mesma proporção, a nova pista trará um problema de grandes proporções para o Porto e para os moradores de Santos. Washington Flores Júnior: "Achismo não funciona em logística. É fundamental que um estudo de tráfego seja elaborado imediatamente e a solução apontada seja implantada antes da entrada em operação dos dois grandes projetos em curso" (Alexsander Ferraz/AT) E o túnel Santos-Guarujá? Acredita que é um ativo indispensável? O túnel é um projeto de mobilidade urbana, não é um projeto portuário. As prefeituras da região podem se manifestar com muito mais propriedade que eu sobre o tema. O que pensa do Tecon Santos 10? Resolve o problema de capacidade do Porto? Hoje já há necessidade de novos berços para operação de navios de contêineres. Acredito que o Governo Federal tenha feito uma avaliação criteriosa para chegar à conclusão de que o projeto que vai ser licitado é o melhor para resolver o problema atual de falta de capacidade. Muita gente extremamente capacitada trabalhou muito tempo nisso. Todos nós esperamos que o volume de carga continue a crescer, ano a ano, portanto a solução apresentada é somente para atender o problema atual. A futura capacidade instalada estará esgotada depois de alguns anos, da mesma maneira que a capacidade atual, instalada em 2013 com a entrada em operação de dois novos terminais, já está esgotada em 2025. Planejar é olhar muito à frente, vencida esta etapa já se faz necessário pensar a próxima. Há possibilidade de implantar porto-indústria na região? A relação porto-indústria não é algo modular, que só funcione de uma única maneira pré-formatada. A indústria já estabelecida na grande São Paulo é gigantesca e precisa ser abastecida. Ela já funciona desta maneira e sustenta uma grande parte do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Não precisamos que a indústria desça a Serra para se tornar melhor. Precisamos que o Porto funcione bem e os acessos sejam fluidos para que ela se torne cada vez mais competitiva. Olhando por este contexto, entendo que o porto-indústria já está implantado, só precisamos garantir que ele se torne cada vez mais robusto com uma infraestrutura que suporte seu crescimento. Quais exemplos de fora poderiam ser usados no Porto de Santos? Tivemos a oportunidade de visitar um porto-indústria fantástico na Coreia do Sul durante a viagem da Missão Porto & Mar, organizada pelo Grupo Tribuna em 2024. No Brasil há outros exemplos igualmente bem sucedidos principalmente em mineração e celulose. Entendo que Santos deve buscar seu próprio caminho, respeitando suas características, sua geografia, seus moradores e a importância estratégica que o Porto de Santos representa para a economia brasileira. O que o senhor pensa sobre Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) de maneira geral e na Baixada Santista como grandes colaboradoras do desenvolvimento? Entendo que as ZPEs são grandes indutoras de novos negócios e melhoria de margens para os exportadores e seu funcionamento deve ser estimulado pelas autoridades, principalmente a aduaneira. Sua implantação na Baixada Santista é factível desde que fora da área portuária. A área portuária deve primordialmente atender navios, essa é sua vocação. ZPEs e atividades acessórias, inclusive armazenagem e manipulação da carga, devem preferencialmente ser realizadas em zonas secundárias, nas imediações do Porto. A Área Continental de Santos seria ideal para expansão do Porto de Santos, já que faltam espaços? A Área Continental de Santos me parece ser a última fronteira a ser explorada dentro da área coberta pelo canal de navegação de acesso ao Porto. É uma área ainda a ser desenvolvida e que pode abrigar diversos novos terminais, ampliando muito a capacidade portuária. Por ser uma área nova, ainda tem uma grande vantagem que é a possibilidade de modelagem de acordo com as necessidades da economia nacional, sem a pressão de atividades já instaladas e da cidade demandando por mais espaço para as necessidades dos munícipes. É uma baita oportunidade que nos é apresentada para o desenvolvimento de um projeto sustentável, com acessos viários e de navegação que viabilizem a implantação de um empreendimento de grande porte. Certamente haverá necessidade de uma avaliação da capacidade do canal de navegação. Como o canal é inelástico, precisamos conhecer os limites dele antes da implantação de um projeto que pode multiplicar o número de navios que demandarão o Porto. O que o senhor pensa do aumento da Poligonal do Porto, com inclusão de áreas em outras cidades? Porto é porta de entrada e de saída. Quanto mais portas, mais opções os exportadores e importadores terão para desenvolver seus negócios e gerar crescimento para o País. Lembro somente que a infraestrutura portuária deve sempre ser analisada em conjunto com a capacidade das vias de acesso, de modo a não comprometer a qualidade de vida de quem vive nas cidades portuárias. A relação porto-cidade precisa ser elevada para um novo patamar de maturidade. Sua empresa vai implantar centros de distribuição na Grande São Paulo. A região não perde com isso? A região não perde nada com os três centros de distribuição que implantaremos no entorno da grande São Paulo até o fim deste ano. O objetivo destas novas unidades operacionais é levar o Porto mais próximo da casa de nossos clientes, fazendo com que o negócio deles se torne mais competitivo. Quanto mais fortes nossos clientes se tornarem, mais cargas movimentarão pelo Porto de Santos e por nossas unidades alfandegadas.