Gabriela Otero: "Nos portos, gestão de resíduos já é algo bem resolvido, além de transparência e governança, mas o eixo social precisa ser melhor trabalhado” (Alexsander Ferraz/ AT) Como surgiu o Pacto pela Sustentabilidade e qual é o papel do Pacto Global da ONU nessa iniciativa com o Ministério de Portos e Aeroportos? A santista Gabriela Otero é gerente de Água, Oceano e Resíduo do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU). Bacharel e Licenciada em Geografia e Mestre em Ciências, ambos pela Universidade de São Paulo (USP), ela possui mais de 15 anos de experiência em gestão e execução de projetos nacionais e internacionais com foco em resíduos, economia circular e oceano. Nesta entrevista para A Tribuna, Gabriela fala sobre diversos aspectos envolvendo ESG nos portos brasileiros, destacando o Porto de Santos e também o Pacto pela Sustentabilidade, lançado pelo Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) em parceria com o Pacto Global da ONU - Rede Brasil. Tem muita sintonia. Na verdade, o Pacto Global da ONU-Rede Brasil tem um memorando de entendimento, parceria com o MPor, grande lançador desse Pacto pela Sustentabilidade em janeiro deste ano. É um divisor de águas porque ele estabelece uma política de sustentabilidade para portos, aeroportos e sistemas aquaviários. Traz aí não só o ente público dessas estruturas, mas também convida os privados para que adotem premissas de ESG, de questões ambientais, de segurança e governança, nas suas operações, nas suas estratégias. Que tipo de compromisso as empresas e autoridades portuárias assumem ao aderir ao Pacto? Eles têm alguns pilares e são compromissos diferentes. Na verdade, os entes públicos precisam atender a essa política. A gente olha para questões de emissões de poluentes, quais são as matrizes energéticas utilizadas nas suas operações, que tipo de cooperação está sendo feito com outros modais de transporte, gestão de resíduos, inclusão social, capacitação, educação, sistemas de governança e transparência. Tudo isso os entes públicos passam a reportar. Os entes privados são convidados a se juntar. É uma adesão voluntária. Tanto o privado quanto o público tem a chance de ganhar, ao final de cada ano, uma premiação, um tipo de selo bronze, prata ou ouro. E não basta ganhar a medalha. Segue a obrigatoriedade de evoluir ao longo do tempo, para ir alcançando outros status e mesmo para manter o que ganhou. "Quando falamos de transição energética e planos de adaptação climática dos portos, não podemos esquecer das pessoas trabalhadoras”, diz Gabriela (Alexsander Ferraz/ AT) Hoje, mais de 30 empresas já aderiram ao programa. Quais são os critérios de adesão e como o Pacto Global acompanha o cumprimento das metas? As empresas que estão no Pacto Global acabaram vendo um valor adicional de estar nele e nos pedem mais orientações. Querem, de fato, materializar o que colocam como compromisso público e até fazer mais. No Porto de Santos, por exemplo, há as arrendatárias. Há terminais gigantescos, muito bem consolidados. Vemos o Porto como um lugar que exerce uma liderança ESG. Fez o próprio manifesto ESG, que foi premiado, é referência e trouxe as empresas do Porto para assinar. Quais os principais eixos de atuação do Pacto em relação à agenda ESG — e como se aplicam, na prática, aos portos brasileiros? Nos portos, gestão de resíduos já é algo bem resolvido, além de transparência e governança. Mas o social, essa relação porto-cidade está muito no namoro e precisa casar. Ou seja, trazer a comunidade para trabalhar no Porto e devolver infraestrutura para a comunidade. O eixo social precisa ser melhor trabalhado. É um desafio porque cada local vai trazer um perfil de comunidade. Como o Pacto pode apoiar o Porto de Santos a reduzir emissões e gerir resíduos de forma mais eficiente? O Porto de Santos é bem atuante no Pacto Global. Eles participam conosco das plataformas de comunicação para engajamento, de clima, anticorrupção e a de oceano, que é a que eu lidero. Eles estão aderindo aos nossos compromissos públicos. No que o Porto consegue controlar, faz muito bem. Agora, exercer essa liderança sobre os arrendatários é um desafio, mesmo sabendo que essas empresas, na maior parte delas multinacionais, já trazem boas práticas. Na gestão de resíduos sempre vejo oportunidades de melhoria, de como se consegue diminuir essa geração e de que forma pode ser aproveitado regionalmente. Há questões tecnológicas que o Porto precisa superar, mas sempre é preciso licitação, o que pode ser também desafiador diante de preço e qualidade, porém necessário. Quais são os impactos esperados da Agenda 2030 no médio e longo prazo para o comércio exterior e para a imagem dos portos brasileiros no cenário global? Temos falado muito de economia azul, de que forma a gente movimenta investimentos, linhas de crédito e financiamento para a descarbonização de frotas e para a diversidade de matriz energética nos portos. Uma grande tendência da discussão está na criação dos corredores verdes entre portos. Eles são rotas de transporte descarbonizadas entre dois ou mais portos comprometidos em reduzir ou eliminar suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) tanto na navegação (combustíveis alternativos, rotas otimizadas) quanto na infraestrutura associada (abastecimento, incentivos, monitoramento de dados). Ou seja, como é que a otimização do consumo de combustíveis e as alternativas deles podem influenciar nessa logística para que ela seja mais eficiente, menos poluente e economicamente viável. Quais exemplos de boas práticas portuárias já podem ser destacados entre os participantes — e o que está sendo feito de inovador em sustentabilidade portuária? Vejo a construção dos inventários de emissões, que é o primeiríssimo passo. Temos portos fazendo isso, como o do Açu (RJ) e o de Santos. Eles fizeram até capacitação fora do Brasil para entender como construir esses inventários. Vejo esse intercâmbio de informações entre os portos e as equipes técnicas, mais do que as agendas políticas e de alta direção. Quando falamos de transição energética e planos de adaptação climática dos portos, não podemos esquecer das pessoas trabalhadoras. Ou seja, como estão sendo informadas, capacitadas, além de protocolos para informação e registro de ocorrências. Como Santos, com sua relevância logística e ambiental, pode se tornar um modelo de porto sustentável para o Brasil e a América Latina? O Porto tem uma equipe muito robusta de ESG, alinhada, modernizada e disponível para as agendas fáceis e difíceis. É o maior porto do Hemisfério Sul. Há o desafio de estar em uma ilha. Acho que isso ajuda. É uma cidade de médio a grande porte, com meio milhão de habitantes. Na sazonalidade, a população chega a duplicar ou triplicar e o Porto não para. Compras online e perfil de consumo mudam, mas o Porto se adapta e traz a sua capacidade máxima. Tem as questões climáticas e de dragagem que estão influenciando. O Porto de Santos se sai muito bem quando a gente olha para todas essas composições em um estado que é o mais industrializado, com demanda altíssima de escoamento. Santos também possui herança política e cultural que cresce junto com a existência do Porto. A população joga muito junto com o Porto, mas essa relação com a Cidade, em diferentes momentos da existência, é que sinto que precisa ser reforçada. Qual mensagem deixa aos operadores portuários e empresas da cadeia logística que ainda não aderiram ao Pacto? É um ambiente seguro. Algumas empresas têm muito receio de entrar e serem julgadas. Mas se você já colocou isso no seu modelo de negócio e na sua visão estratégica, está com dificuldades de instrumentalizar, quer saber o que as outras empresas estão fazendo e deseja compartilhar sua dificuldade em prol de solução, entre no Pacto. Há um time de especialistas, composto por pessoas com graduação, mestrado e vivência de mercado, e estamos disponíveis. O Pacto é a ajuda para cumprir a Agenda até 2030.