No acumulado dos nove primeiros meses deste ano, o terminal da Santos Brasil movimentou 194.468 veículos contra 143.713 unidades no mesmo período do ano passado – alta de 35,3% (Santos Brasil/Divulgação) O Porto de Santos segue acelerando quando o assunto é exportação de automóveis. O complexo santista é responsável, atualmente, por aproximadamente 55% dos embarques do País, distribuídos entre os terminais Ecoporto, na Margem Direita, e Santos Brasil, na Margem Esquerda (Guarujá). Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Segundo dados da Autoridade Portuária de Santos (APS), a partir do Comex, sistema do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), foram exportados de janeiro a setembro deste ano 108.657 unidades via Porto de Santos. O crescimento é de 39,08% em relação às 66.191 do mesmo período em 2024. O número também já superou o total do ano passado, que foi de 92.926 unidades. Levando em conta os valores financeiros, a movimentação foi de US\$ 1,5 bilhão neste ano, também até setembro - 37% a mais que os US\$ 922,8 milhões da mesma faixa temporal em 2024. A importância também superou a do ano anterior completo, que foi de US\$ 1,3 bilhão. Diretor executivo da Process Log & Comex, empresa especializada em operações de Logística e Comércio Exterior, Lúcio Lage comenta que a exportação de veículos tem um peso enorme para a economia da Baixada Santista, porque movimenta toda uma cadeia logística regional: porto, terminais, transportadoras, agentes de carga, despachantes, seguradoras e empresas de serviços. “Do ponto de vista econômico, é uma atividade que traz liquidez e previsibilidade para o comércio exterior da região. Cada navio embarcando veículos representa centenas de contêineres, cargas fracionadas, serviços logísticos, transporte rodoviário e seguro internacional: tudo isso circulando capital na Baixada Santista”, argumenta. Crescimento de outros Embora muito à frente dos portos de Paranaguá (PR), segundo colocado com 51.870 veículos exportados até setembro, e de Suape (PE), em terceiro lugar com 28.099 unidades, os números de outros complexos portuários brasileiros envolvendo o assunto chamam a atenção. “Os números demonstram a centralidade de Santos nas exportações, ao mesmo tempo em que evidenciam o crescimento da operação de outros portos, resultado da diversificação logística das montadoras e da retomada operacional de terminais regionais”, avalia Rafael Cristelo, gerente geral da K Line, empresa japonesa de navegação que opera mais de 600 navios em todo o mundo e é líder no País no transporte marítimo de veículos. Quadro geral A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) informou que, até setembro, foram exportadas 430,8 mil unidades pelo Brasil - em 2024, foram 398 mil. A quantidade supera a previsão feita pela entidade em janeiro para o ano - de 428 mil - e foi refeita em agosto, aumentando para 552 mil. Cristelo observa que as exportações brasileiras de veículos permanecem altamente concentradas na América Latina. A Argentina é, de longe, o principal destino, respondendo por aproximadamente 50% do valor total exportado entre janeiro e setembro deste ano. Na sequência, destacam-se México (20%), Colômbia (10%), Chile (6%) e outros mercados da região, como Peru, Uruguai e Paraguai. “Historicamente, o Brasil se especializou na produção de automóveis de passeio, SUVs compactos, caminhões e chassis de ônibus, enquanto a Argentina concentra sua indústria na fabricação de picapes, devido à forte presença local de fornecedores e montadoras voltadas a esse segmento”, explica. O gerente geral da K Line lembra que, apesar de o México permanecer como segundo maior mercado para os veículos brasileiros, vem enfrentando crescente concorrência de modelos chineses. “O market share (grau de participação no mercado) já ultrapassa 35% naquele país — fator que naturalmente reduz o espaço para os produtos nacionais”, afirma. Porto tem dois terminais para carros Operado pela Santos Brasil, o Terminal Exportador de Veículos (TEV), na Margem Esquerda, é responsável por mais de 90% da movimentação de automóveis no Porto de Santos - e cerca de 40% no País. Trata-se do maior terminal de veículos do Brasil, com capacidade operacional para 300 mil automóveis por ano, e está localizado em área contígua à do Tecon Santos, terminal de contêineres também administrado pela Santos Brasil. A maior parte vai para Argentina, Colômbia, Equador, Chile e México (Santos Brasil/Divulgação) No acumulado dos nove primeiros meses deste ano, o terminal movimentou 194.468 veículos contra 143.713 unidades no mesmo período do ano passado – alta de 35,3%. No último trimestre, foram 73.202 veículos - alta de 31,1% comparado ao terceiro trimestre de 2024, mantendo a trajetória positiva do terminal, impulsionado pelo forte desempenho das exportações de veículos leves para mercados como Argentina, Colômbia e México e de pesados para os Estados Unidos. Países As exportações representam a maior parte da movimentação no terminal. No primeiro semestre deste ano, dos 121.266 veículos operados, 114.235 foram para a exportação. No mesmo período do ano passado, o total foi de 87.858, com 77.470 unidades enviadas para o exterior. Embora haja cargas para praticamente todos os continentes, a maior parte do atendimento é para a América do Sul (Argentina, Colômbia, Equador e Chile) e do Norte (México, com a maior representatividade). “Nossa movimentação é majoritariamente de exportação em razão da proximidade com o maior polo industrial produtor de veículos do Brasil, onde estão localizadas várias das principais montadoras (região do ABC e interior de SP). Além disso, São Paulo tem maior taxa de tributos na importação em relação a outros estados com atividade portuária”, afirma o diretor de Operações de Terminais Portuários da Santos Brasil, Bruno Stupello. Já o Ecoporto, pertencente ao Grupo EcoRodovias, movimentou 20.057 unidades de janeiro a setembro deste ano, número superior ao mesmo período de 2024 (15.499), o que representou um crescimento de 29%. “A capacidade do nosso espaço para carro pode aumentar ou diminuir de acordo com o perfil de carga que está agendada, isso é característica de terminal multipropósito”, explica, em nota, o Ecoporto. Atividade requer mão de obra especializada Embora a exportação de automóveis tenha impacto expressivo em empregos, o diretor executivo da Process Log & Comex, Lúcio Lage, acredita que existem melhorias a serem feitas. Ecoporto exportou 20.057 unidades de janeiro a setembro de 2025 (Ecoporto/Divulgação) O especialista lembra que a atividade demanda mão de obra especializada em diversas etapas: estufagem, conferência, vistoria, documentação, seguros e gestão logística. Para cada emprego direto dentro de uma montadora ou terminal, observa Lúcio, há vários empregos indiretos em empresas de apoio, como as do setor logístico, de comércio exterior e transporte. “O que pode ser melhorado é a qualificação e integração da mão de obra local com as novas tecnologias do setor, como sistemas de rastreamento, digitalização documental e processos aduaneiros automatizados”, explica. Além disso, Lage acrescenta que políticas de incentivo e simplificação tributária podem ampliar a competitividade das empresas da região, permitindo que mais operações sejam realizadas em Santos, em vez de migrar para outros portos com custos menores ou burocracia reduzida. “Quanto mais previsibilidade e eficiência o ambiente portuário oferecer, mais empregos e investimentos o setor atrai”, detalha. Competitividade Dentro disso, manter a competitividade do Porto de Santos é essencial. O principal desafio, segundo o especialista, é equilibrar custo, eficiência e infraestrutura. “Santos é o maior porto do Hemisfério Sul, mas enfrenta gargalos logísticos como acessos viários, burocracia aduaneira e custos portuários elevados. Ao mesmo tempo, terminais de outros estados vêm investindo pesado em tecnologia, automação e incentivos fiscais”, indica. Para que o complexo santista siga competitivo, na visão de Lúcio, Santos precisa acelerar projetos estruturantes como a conclusão do túnel imerso Santos-Guarujá, a modernização dos acessos rodoviários e ferroviários, e a digitalização completa dos processos portuários. Ele cita a integração entre Receita Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro) e outros órgãos em plataformas únicas. “Outro ponto crucial é fortalecer a colaboração entre os operadores privados, os órgãos públicos e as empresas do setor, criando um ambiente de confiança e previsibilidade. Isso é o que faz com que investidores e operadores internacionais continuem apostando em Santos como hub principal de exportação, não só de automóveis, mas de toda a cadeia industrial brasileira”, reforça.