No setor portuário, autoridades e empresários trabalham para ampliar a participação feminina nas áreas administrativa e operacional (AdobeStock) A contratação de mulheres pelas empresas, independentemente do setor, vai além da busca pela igualdade de oportunidades entre os gêneros e se trata de geração de riqueza mundial. A conclusão é da superintendente de Inovação e ESG da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Cristina Castro, com base em índices globais. Durante o lançamento do projeto Mulheres a Bordo, do Grupo Tribuna, no evento Woman on Board, promovido na última terça-feira, em Santos, ela explicou que 58% das mulheres são arrimo de família e as profissionais ganham 20,7% a menos do que os trabalhadores do sexo masculino em organizações com mais de 100 funcionários. “Quando falamos de 58% de mulheres chefes de família, são mulheres que precisam bancar todo um processo dentro de casa: alimentação do filho, escola, roupa. E isso significa um medo enorme de faltar”, pontua Cristina. É esse receio que, segundo ela, muitas vezes impede as mulheres de se posicionarem firmemente no ambiente profissional. “Quando uma mulher vai para o mercado de trabalho, ela teme perder aquele assento. Porque isso significa voltar para casa e não ter como sustentar o filho”, reforça. A desigualdade de gênero no ambiente corporativo, para Cristina, está profundamente enraizada em aspectos culturais. “Cultura é a identidade de uma sociedade. Para mudar traços culturais, você leva anos, séculos. E a inserção da mulher no mercado de trabalho veio muito depois.” Essa entrada tardia, somada à invisibilidade histórica do trabalho feminino, cobra um preço alto. “Estudos mostram que mulheres, para se posicionar, precisam ter três vezes mais competência técnica e intelectual do que os homens. E mesmo assim se observam menos capacitadas. É uma questão de percepção.” Problema documentado Cristina reforça que essa competência, muitas vezes, está documentada. De acordo com o IBGE, na faixa de 15 a 17 anos, 92,5% das adolescentes estudam, ante 91,9% dos jovens. Já entre aqueles que têm de 18 a 24 anos, as proporções são de 32,6% para as mulheres e 28,1% para os homens. Na média, a instrução das mulheres com 25 anos ou mais de idade superava a dos homens no Censo de 2022. O levantamento mostrou que 20,7% delas tinham nível superior completo. Já no sexo masculino, essa proporção era de 15,8%. “Elas estudam mais. Em níveis de graduação, mestrado e doutorado. Então, por que não olhar isso como um diferencial?”, questiona. Para ela, competência envolve conhecimento, habilidade e atitude. Nesse último ponto, o “querer fazer” está diretamente relacionado ao peso que essas mulheres carregam. “Elas sabem que, se não fizerem, não têm como bancar os filhos. E isso, por si só, já é uma violência de gênero.” A falta de igualdade salarial, os estigmas em processos seletivos e a suposição de que a maternidade é um obstáculo são parte dessa violência silenciosa. “Ninguém considera que a mulher tira menos licença médica que o homem. Ou que, quando volta da licença-maternidade, muitas vezes produz 100% mais, porque aprendeu a disciplinar o tempo. Precisa resolver tudo no dia, porque não pode levar trabalho para casa. São questões que precisam ser analisadas com dados, de maneira mais fria.”