“É fundamental que as empresas adotem políticas de equidade”, diz Patrícia (Divulgação) A presença feminina no setor portuário ainda é ínfima se comparada à masculina, principalmente em cargos de liderança, mas o Instituto PORTa trabalha para mudar essa realidade. Com ações efetivas, a instituição conecta mulheres às diversas empresas desse mercado de trabalho. A fundadora, Patrícia Lia Brentano, que também é gerente de Produto da Norcoast e colunista da editoria Porto & Mar de A Tribuna, explica detalhes na entrevista a seguir. Interessados em saber mais sobre o Instituto PORTa podem acessar o site Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Como surgiu a ideia de criar o Instituto PORTa? O que a motivou? Nasceu da minha experiência como mulher da área portuária e das conversas com amigas como a Neusa Marcelino, CEO da CMA CGM do Brasil, a Thais Perrella, diretora-geral da UWL, a Jussara Neto, diretora de Sustentabilidade da Portgreen, e a Flavia Takafashi, diretora da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). Faltava um espaço de apoio efetivo às mulheres, com um trabalho individualizado e acessível. Com o tempo, essa percepção se transformou em inquietação e depois em propósito. Após uma situação de muito sofrimento que eu mesma vivi, decidi estruturar o projeto, oferecendo oportunidades reais de inserção, troca e crescimento para as mulheres. Qual é o objetivo do instituto? O principal objetivo é conectar mulheres da área portuária, promovendo acesso a vagas, a boas mentorias, à capacitação, a uma rede de relacionamento e, principalmente, à informação. Como é o encaminhamento das mulheres ao setor portuário? O PORTa atua por meio do Banco de Talentos, Banco de Palestrantes e Banco de Vagas, do Programa de Mentoria, e dos cursos e projetos customizados para as empresas. No Banco de Talentos, os currículos estarão no formato do PORTa, com a nossa curadoria, para que as empresas tenham mais facilidade na busca dos candidatos e assertividade nas contratações. Que tipo de capacitação e mentoria o PORTa oferece? O PORTa oferece mentoria individual e coletiva, conduzida por profissionais — mulheres e homens — experientes da área portuária, que ajudam as mulheres a entenderem as dinâmicas do setor, desenvolver competências técnicas e construir autoconfiança. Além disso, o instituto promove cursos e treinamentos em parceria com empresas e entidades educacionais, abordando diversos temas do setor — sempre com foco na inserção e ascensão profissional feminina. Quais são as barreiras que impedem o ingresso da mulher nos portos brasileiros? A principal é cultural. Ainda existe o estereótipo de que o trabalho portuário não é para mulheres, e é ainda mais severo em relação à liderança. Na base da pirâmide (ou nos cargos de entrada), a presença das mulheres é uma realidade, mas quanto mais alto o cargo, menos mulheres encontramos. Como reverter o cenário predominantemente masculino no mercado portuário? A mudança começa pela cultura corporativa. É fundamental que as empresas adotem políticas de equidade de gênero, invistam em capacitação interna, revisem processos seletivos e estimulem lideranças inclusivas. Também é importante que o tema da diversidade saia do discurso e passe a integrar a estratégia de negócios — afinal, portos mais diversos são portos mais eficientes, inovadores e representativos. As empresas portuárias têm procurado o instituto em busca de candidatas e treinamentos? A receptividade tem sido muito boa. A dimensão que o PORTa está tomando aumenta minha responsabilidade e das pessoas que estão comigo no projeto. Eu me sinto no melhor momento da minha vida pessoal e profissional e poder canalizar essa energia para algo maior e que pode beneficiar tantas pessoas é gratificante. Quais áreas oferecem mais oportunidades às mulheres? Observamos um crescimento maior nas áreas administrativas, comerciais e de gestão, onde as mulheres têm conquistado espaço com destaque. No entanto, o grande desafio está nas áreas técnicas e operacionais, que historicamente foram dominadas por homens, mas que hoje começam a se abrir para novas profissionais qualificadas. Já temos mulheres brilhantes em TI, engenharia e operações. Com a automação do setor não existe mais barreira para as mulheres. O que é o PORTa Talks? O PORTa Talks foi lançado em 13 de outubro. Semanalmente, um convidado especialista traz um assunto importante para a carreira e para a vida das mulheres. É um espaço essencial para reflexão e conscientização coletiva. Ao abordar temas como assédio, igualdade salarial, liderança feminina e saúde mental, o projeto ajudará a quebrar silêncios, a acolher tristezas e a promover conversas que o setor muitas vezes evitava. Para 2026, teremos o projeto PORTa Voz, com mais discussões sobre a diversidade no setor portuário. Como o PORTa medirá o impacto de suas ações e acompanhará a evolução da presença feminina nos portos? Por meio de indicadores de participação feminina nas empresas parceiras, número de contratações intermediadas, mentorias realizadas e, também, pelo engajamento nas ações de capacitação e conscientização. Além disso, o PORTa trabalha na criação de um observatório de gênero portuário, que permitirá acompanhar de forma contínua a evolução da presença feminina no setor. Qual é a sua mensagem às mulheres que querem construir uma carreira na área portuária? Não deixem que a falta de representatividade se transforme em medo. O setor está mudando e há espaço para quem tem vontade, preparo e propósito. Procurem informação, busquem mentoras, participem de redes de apoio — e lembrem-se: cada mulher que entra abre caminho para muitas outras que virão. Estudem sempre e muito. A caminhada, às vezes, não é fácil, mas o esforço e a determinação valerão a pena. Não é à toa que coragem é uma palavra feminina.