Neusa Marcelino: diversidade deixou de ser um discurso institucional (Divulgação) Mesmo com avanços no debate sobre diversidade corporativa, mulheres ainda ocupam menos de 10% dos cargos de CEO no Brasil e no exterior. Quando chegam ao topo, enfrentam mandatos mais curtos e maior pressão por resultados. Em contrapartida, pesquisas mostram que empresas lideradas por executivas ampliam a diversidade e adotam decisões mais inclusivas e estratégicas, desafiando estruturas históricas, sobretudo em setores tradicionalmente masculinos, como o portuário e o marítimo. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! À frente da divisão marítima da CMA CGM no Brasil, uma das maiores empresas globais de transporte marítimo e logística, a CEO Neusa Marcelino simboliza essa transformação. Sua trajetória e atuação no comando da companhia ilustram como a diversidade deixou de ser apenas um discurso institucional para integrar escolhas estratégicas. Ela encerra o projeto Mulheres a Bordo, lançado em abril na sede do Grupo Tribuna, ocasião em que foi apresentada a 2ª Pesquisa de Equidade de Gênero no Setor Portuário e Marítimo, elaborada pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Para Neusa, os obstáculos que ainda limitam o avanço feminino em cargos decisórios são majoritariamente culturais e estruturais. “O setor foi historicamente construído sob forte predominância masculina, e isso ainda influencia o acesso feminino a áreas estratégicas”, afirma. Estereótipos de gênero e redes de relacionamento pouco diversas continuam dificultando a visibilidade e a progressão profissional, sobretudo em operações e projetos considerados críticos para a formação de lideranças. Apesar dos entraves, o momento atual apresenta sinais consistentes de evolução. A executiva avalia que a diversidade ganhou espaço relevante nas agendas corporativas, impulsionada por resultados concretos e pela pressão social. “O movimento é irreversível e ganha força de forma progressiva”, destaca, observando também o surgimento de novas referências femininas em posições de destaque no setor portuário e logístico. Desafios A própria caminhada de Neusa até o comando da CMA CGM do Brasil foi marcada por desafios. Com passagens pelas áreas comercial, operacional e administrativa, ela construiu uma visão abrangente da cadeia logística. Ainda assim, enfrentou a ausência de modelos femininos de liderança e vieses sutis que colocavam sua capacidade sob constante escrutínio. “Muitas vezes eu era a única mulher na sala”, relembra. Outro desafio foi interno: a autocrítica excessiva, que a fazia hesitar diante de oportunidades. Reconhecer esse padrão foi decisivo para sua evolução profissional. No ambiente corporativo, políticas estruturadas de diversidade e inclusão vêm gerando resultados mensuráveis. Um exemplo é o programa She Sails, voltado à ampliação da participação feminina em carreiras marítimas. Em um ano, o número de mulheres a bordo mais que dobrou, além de dezenas de promoções, inclusive para cargos de oficialato sênior. Segundo a CEO, iniciativas como essa impactam diretamente o clima organizacional, a inovação e o engajamento das equipes. Cenário nacional No Brasil, ela avalia que o setor portuário ainda avança de forma desigual, mas demonstra maior maturidade em relação ao tema. Há mulheres qualificadas técnica e academicamente, prontas para assumir posições estratégicas. O desafio, de acordo com ela, é acelerar esse processo por meio de critérios de promoção mais justos e ambientes que conciliem desempenho com qualidade de vida. Ela pontua: diversidade é estratégia, não adorno. A disparidade de oportunidades ainda é mais evidente em áreas operacionais, embora esse quadro esteja em transformação. Além do She Sails, o grupo lançou o programa WE – Women Empowerment, focado na preparação de lideranças femininas. A recente promoção de Anielle Cardoso a diretora-geral para a frota marítima no Brasil é apontada como reflexo desse esforço contínuo. Em um contexto tradicionalmente masculino, decisões de liderança exigem firmeza e sensibilidade. Romper padrões, redesenhar equipes e enfrentar comportamentos inadequados fazem parte do processo. “A liderança se revela quando escolhemos o que é melhor no longo prazo, mesmo diante do desconforto”, afirma Neusa, que defende uma gestão baseada em coerência, escuta ativa e respeito. Ela acredita no potencial transformador da perspectiva feminina. A presença de mulheres nos espaços decisórios amplia o olhar sobre segurança, saúde, ética, sustentabilidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Não se trata de oposição entre gêneros, mas de complementaridade capaz de tornar organizações mais humanas e competitivas. “Quando as mulheres estão presentes nesses espaços, tendem a contribuir com uma liderança mais colaborativa, baseada na escuta, diálogo e construção conjunta de soluções”.