“O maior legado foi a manutenção da boa imagem da Capitania”, diz Marcus André (Reprodução) Foram dois anos comandando a Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP), com sede no Porto de Santos. O capitão de mar e guerra Marcus André de Souza e Silva deixou o posto na sexta-feira (23), passando o cargo para o também capitão de mar e guerra Leandro Gomes Mendes com a certeza de dever cumprido. Silva tem 51 anos de idade, 35 deles dedicados à carreia militar. Formado na Escola Naval em 1997, já comandou duas embarcações: Navio de Apoio Logístico Fluvial (NApLogFlu) Potengi e Corveta (Cv) Júlio de Noronha. A primeira cidade que ele conheceu em um navio pela Marinha foi justamente Santos. Na entrevista a seguir, o militar faz um balanço do período que ficou como capitão dos Portos, mais um marco em sua longa trajetória. Como o senhor define o balanço da sua passagem pela Capitania dos Portos de São Paulo? Avalio o balanço como extremamente positivo. Nesse período destaco a conclusão da construção do novo prédio do Ensino Profissional Marítimo, que conta com uma estrutura ampla e moderna, e permitiu à CPSP dobrar sua capacidade de formação de mão de obra qualificada para as atividades de aquaviários. Destaque também para o acordo firmado entre a Marinha do Brasil e a Autoridade Portuária de Santos (APS), integrando a Ilha da Moela às estações de monitoramento do Sistema de Gerenciamento de Informações do Tráfego de Embarcações (Vessel Traffic Management Information System, VTMIS), contribuindo para uma iniciativa que resultará em maior segurança ao tráfego de embarcações no Porto de Santos. A Capitania atuou de forma intensa durante a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), iniciada em novembro de 2023 e encerrada em maio de 2024. Como foi essa experiêcia? O período de GLO ensinou a importância da sinergia e cooperação interagências, que potencializa a capacidade de cada órgão ou instituição envolvida, que de forma individual teria sua atuação menos efetiva. Quais foram os principais avanços na fiscalização do tráfego aquaviário e das embarcações ao longo da sua gestão? Considero que um dos principais avanços foi a atualização dos antigos convênios com os municípios visando a cooperação na fiscalização do tráfego de embarcações que ponham em risco a integridade física de banhistas nas áreas adjacentes às praias. Esse convênio foi atualizado para um modelo mais moderno, um Acordo de Cooperação Técnica, que proporciona maior rapidez no credenciamento de novos municípios, permitindo maior presença de fiscalização em todos os municípios interessados e contribuindo para a salvaguarda da vida humana nas praias e rios. Importa frisar que o primeiro acordo assinado neste novo modelo foi realizado com a prefeitura de Santos. O Porto de Santos continua batendo recordes de movimentação. De que forma esse crescimento impacta o trabalho da Capitania? O crescimento da movimentação implica maior participação da Autoridade Marítima no acompanhamento das novas tendências no setor portuário e de navegação de forma a antecipar os estudos necessários a permitir a adequação e modernização do Porto de Santos sem por em risco a segurança da navegação. Como o senhor avalia a integração da Capitania com a Autoridade Portuária de Santos, a Praticagem, a Polícia Federal, a Receita Federal e outros órgãos que atuam no porto? Essa integração foi um dos pontos fortes observados ao longo de meu período à frente da CPSP. Ela se mostrou, sempre produtiva e saudável, permitindo a solução de problemas comuns de forma consciente e harmoniosa. Houve situações críticas ou episódios marcantes nesse período que evidenciaram a importância da presença da Marinha no Porto de Santos? Foram inúmeros episódios marcantes onde a presença da Marinha se mostrou de grande importância. Cito como algumas das mais relevantes: os estudos que culminaram com a homologação do Porto de Santos para operar com os navios de 366 metros, garantindo que o Porto pudesse operar com navios de alta capacidade e mantendo sua posição como importante destino na América do Sul, e as ações de coordenação do desesencalhe do NM Shandong Xin Ze, na entrada do canal do Porto de Santos em setembro de 2025. Essas ações permitiram manter a operação do Porto sem maiores riscos à navegação evitando possíveis prejuízos bilionários à economia do país. A Capitania é responsável por uma área extensa, que inclui 196 municípios. Quais são os maiores desafios para manter padrões de segurança e fiscalização em uma região tão ampla e diversa? Considerando toda a amplitude de nossa área de jurisdição e nossa responsabilidade de garantir a segurança da navegação, da salvaguarda da vida humana no mar e a prevenção da poluição hídrica, o maior desafio é dispor de recursos humanos capacitados para atuarem com precisão e eficiência. Isso gera uma preocupação constante da Capitania em bem qualificar sua tripulação de forma a prover o melhor serviço à sociedade. "O crescimento da movimentação implica maior participação da Autoridade Marítima no acompanhamento das novas tendências no setor portuário”, diz (Alexsander Ferraz/AT) Do ponto de vista da segurança da navegação, quais ainda são os principais gargalos ou riscos no Porto de Santos que precisam de atenção contínua? Atualmente um dos grandes problemas ligados à segurança da navegação, não apenas no porto de Santos, mas em toda a área de jurisdição não diz respeito ao tráfego mercante em si, mas à condução de motos aquáticas por pessoas não habilitadas. Essa situação gerou o maior número de denúncias e acidentes nos últimos dois anos. É importante frisar a necessidade da devida habilitação de amador para a condução dessas embarcações. O senhor destacou, ao assumir, a importância de reforçar parcerias. O que avançou nesse aspecto durante sua gestão? Avançamos no número de municípios interessados em estabelecer cooperação com a Marinha para qualificação de seus profissionais no âmbito do acordo de cooperação técnica que citei anterioramente. Que legado o senhor acredita deixar para a Capitania dos Portos de São Paulo após esse período no comando? Acredito que o maior legado tenha sido justamente a manutenção da boa imagem da Capitania dos Portos de São Paulo, instituição de mais de 178 anos, junto à comunidade local, o que foi conseguido por meio de intenso diálogo e relacionamento com as instituições parceiras e sociedade civil. Que recomendações o senhor faria ao próximo comandante diante dos desafios futuros do Porto de Santos, que tende a crescer ainda mais nos próximos anos? Manter-se integrado à sociedade, buscando o constante estreitamento das relações da Marinha com todos os atores atuantes no Porto de Santos e estar atento às novas tendências mundias, especialmente aquelas voltadas para o setor da navegação e portuário. O que o senhor vai fazer a partir de agora, ao deixar o comando da Capitania dos Portos de São Paulo? Quais serão seus próximos desafios dentro da Marinha? Deixando o comando da CPSP, sigo para minha nova missão como vice-diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), na capital. O CTMSP tem o propósito de contribuir para obtenção de sistemas, equipamentos e técnicas, nas áreas de propulsão e de geração de energia, em especial aqueles relacionados ao Setor Nuclear.