Projeto Horizontes Femininos, da Norsul, amplia o debate sobre o papel da mulher no setor marítimo (Divulgação) Segundo a sabedoria africana, “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”. Ou seja, a formação de um novo ser não é responsabilidade apenas dos pais, mas de toda a comunidade. Isso se reflete na chamada “rede de apoio”, essencial para que mães e cuidadores se sintam acolhidos diante dos desafios da maternidade. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Ao transportar esse conceito para o mercado de trabalho portuário — tradicionalmente masculino e pouco habituado a lidar com as demandas femininas —, fica evidente a necessidade urgente de promover ambientes mais sensíveis, inclusivos e conscientes. (Reprodução) Estruturar Implementar estruturas internas de suporte, como grupos de escuta, mentorias e espaços de letramento de gênero (desenvolvimento da capacidade de compreender, analisar e discutir criticamente as questões de gênero), é um passo fundamental para legitimar vivências femininas, desconstruir estereótipos e abrir caminho para a atuação ativa e estratégica das mulheres no setor. Mais do que simbólicas, essas iniciativas precisam ser profundas, consistentes e capazes de mudar a cultura organizacional. “Falar sobre rede de apoio para mulheres é abordar a responsabilidade compartilhada. Como tudo o que é coletivo, isso exige intenção, escuta e ação contínua. Transformar culturas não é tarefa de um só grupo. É um chamado para toda a organização, que começa por enxergar, nomear e agir, todos os dias”, enfatiza Aline Carvalho, diretora de Gente, Gestão e Frota da Norsul. Ela foi uma das participantes do lançamento do projeto Mulheres a Bordo, promovido pelo Grupo Tribuna em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), em abril. Para ela, criar ambientes verdadeiramente seguros e respeitosos exige a compreensão de que se trata de um compromisso coletivo. Não é apenas uma pauta do RH ou da liderança, mas um exercício diário que atravessa todas as relações institucionais. Aline reforça que a cultura organizacional se manifesta nos detalhes. Na prática, significa que o discurso precisa estar alinhado à experiência real. “Não adianta o gestor direto adotar uma postura mais consciente ou a alta gestão sustentar um discurso inspirador se isso não se reflete nas relações cotidianas, nos bastidores das decisões”, afirma. “Equidade exige desenho organizacional, escuta ativa e disposição para desafiar a lógica da padronização. Não se trata de criar exceções, mas de reconhecer as diferenças e tratá-las com seriedade”, afirma Aline Carvalho, diretora de Gente, Gestão e Frota da Norsul (Divulgação) Práticas alinhadas ao discurso podem melhorar cenários Na Norsul, que atua no transporte de cargas por cabotagem (navegação dentro do País), práticas como rodas de conversa têm sido adotadas como espaços legítimos para trazer à tona histórias invisibilizadas, tensões ocultas e percepções que os indicadores não revelam. A empresa também investe em políticas estruturantes, como o letramento de gênero, o fortalecimento de grupos diversos e o projeto Horizontes Femininos, que amplia o debate sobre o papel da mulher no setor marítimo. Aline Carvalho, diretora de Gente, Gestão e Frota, destaca, entre as iniciativas, políticas claras de combate ao assédio, canais independentes e confiáveis de denúncia, treinamentos sobre ética relacional, regras que coíbam microagressões e espaços protegidos de fala. Ela também ressalta a importância de modelos de trabalho mais flexíveis e políticas de cuidado, como licenças parentais ampliadas e acolhimento no retorno da maternidade, especialmente para mulheres embarcadas. A diretora observa que a ausência dessas medidas comunica, mesmo de forma implícita, que o modelo ideal de profissional é alguém sem vínculos, interrupções ou demandas externas. Essa lógica penaliza as mulheres de maneira desproporcional, mas também afeta todos que, em algum momento da vida, assumem responsabilidades de cuidado. Na Norsul, além do home office parcial e da possibilidade de horários adaptáveis em algumas funções, está em discussão o redesenho das jornadas no retorno da licença, buscando acolher essa transição e reduzir a sobrecarga invisível que recai sobre muitas colaboradoras. “Modelos flexíveis e políticas de cuidado não são apenas medidas de suporte. São instrumentos de equidade e reparação estrutural”, explica.