Para atuar em operações da Receita, cachorros têm treinamento especializado que dura um ano e meio (Sílvio Luiz/AT) A cadela Candy, uma border collie de dois anos, indica que há algo errado no contêiner separado para fiscalização pela Receita Federal no Porto de Santos. Com eficiência e rapidez, ela ajuda a encontrar 58 quilos de cocaína ocultos na estrutura de refrigeração do contêiner, que chegou vazio de Barcelona, na Espanha. A cena foi acompanhada por A Tribuna durante uma reportagem sobre o trabalho dos agentes federais no cais santista, há duas semanas. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O contêiner passou inicialmente por uma triagem feita por escâner, que indicou suspeitas. Mas foi o faro apurado de Candy, integrante de um grupo de oito cães farejadores treinados, que confirmou a necessidade de aprofundar a fiscalização. Quando o cachorro dá o sinal, sabemos que vale a pena investigar. Acelera muito o processo e evita o trabalho pesado de abrir todo o contêiner, conta o analista tributário da Receita Federal Márcio Sadao Nakaya, que tem três décadas de experiência na profissão e trabalha há um ano com Candy. Nesse caso, ao abrir o contêiner, os blocos de cocaína estavam escondidos na área técnica reservada aos componentes do sistema de refrigeração do contêiner. Em descobertas assim, a Polícia Federal (PF) é acionada para assumir a investigação. É um trabalho integrado, que depende da agilidade dos cães e da perícia dos analistas para garantir que nada passe despercebido, explica Nakaya. Treinamento Para atuar em operações como essa, os cães recebem um treinamento especializado que dura um ano e meio, realizado em Vitória, no Espírito Santo. Segundo Nakaya, o animal precisa ter o ‘drive’, que são impulsos ou instintos naturais que levam o cachorro a agir de certas maneiras. No nosso caso, esse ‘drive’ é a vontade do cachorro de ir atrás da bolinha para brincar. Ele encontra a droga pelo odor, sempre pensando no momento da recompensa (ganhar a bolinha). O cão entende o trabalho como uma brincadeira, nunca tem contato direto com a droga, apenas com o cheiro. Os cães farejadores trabalham até os oito anos de idade, quando, então, seus condutores podem adotá-los e levá-los para casa, mantendo o vínculo criado durante as operações. Trabalho cirúrgico O Porto de Santos pode movimentar mais de dez mil contêineres em um único dia. Por isso, o trabalho da Receita Federal precisa ser extremamente cirúrgico para não comprometer a fluidez das operações e evitar custos extras para o comércio exterior. Delegado da Alfândega da Receita Federal no Porto, Richard Neubarth, destaca a importância do gerenciamento de risco. Hoje, temos uma equipe com cerca de 80 auditores fiscais e 80 analistas tributários, que trabalham para garantir a segurança das operações e também a agilidade necessária para não atrasar as cargas, afirma Neubarth. De acordo com Neubarth, a seleção dos contêineres que receberão fiscalização detalhada se baseia em uma série de parâmetros. Utilizamos um conjunto muito amplo de informações para definir quais cargas oferecem mais risco. Isso inclui as rotas, dados da operação de comércio exterior, o que foi declarado, quem é o exportador e o importador, a origem, o destino, quem transportou a carga até o porto e a análise das imagens geradas pelo escâner. Apreensões Desde 2018, a Receita fez 292 apreensões de drogas no Porto de Santos, totalizando cerca de 121,4 toneladas de cocaína. A Receita também combate a entrada de mercadorias falsificadas, como materiais esportivos, mecânicos e automotivos, que são os produtos mais apreendidos. O valor das mercadorias apreendidas vem crescendo. Em 2023, chegou a R\$ 124,5 milhões, montante que subiu para R\$ 379,3 milhões em 2024. Equipamentos com câmeras ajudam a identificar pessoas e veículos (Receita Federal/Divulgação) Drones também ajudam A Receita Federal também usa drones nas áreas portuárias do País para combater o tráfico de drogas e o contrabando. Os equipamentos, com câmeras de alta definição, ajudam a identificar pessoas e veículos suspeitos que se aproximam de navios e de terminais. O uso já é rotina no Porto de Santos. Pela primeira vez, o Curso de Formação de Pilotos de Drones (Corpas) foi ministrado na Alfândega de Santos, no mês passado, com treinamento teórico e prático em ambiente operacional. Foram 48 pessoas de todo o Brasil capacitadas em Santos, com atividades em terminais portuários do cais santista, uso de simuladores, provas teóricas e práticas, além de treinamentos com diferentes modelos de aeronaves remotamente pilotadas. Entre os alunos do curso, 42 foram da Receita Federal, enquanto os demais foram distribuídos entre Exército, Marinha e Guarda Portuária. A Receita Federal utiliza aeronaves para fazer vigilância. Entre essas aeronaves não tripuladas, os drones são uma ferramenta bastante versátil para o trabalho de vigilância, de estudo diário, que é amplamente utilizado, destaca o delegado da Alfândega da Receita Federal no Porto, Richard Neubarth.