Equipamentos podem ser operados de forma remota nos terminais, democratizando ainda mais o trabalho (Santos Brasil/Divulgação) As mulheres ocupam apenas 10% dos cargos operacionais no setor portuário, de acordo com a 2ª Pesquisa de Equidade de Gênero da Antaq. Esse dado reforça a imagem de “trabalho braçal” nos portos, muitas vezes associada ao sexo masculino, que abarca 90% das vagas nesse recorte. No entanto, os avanços tecnológicos já vislumbram um novo cenário, em que elas não se restringem mais à área administrativa, atuando também na operação de enormes equipamentos, na programação de cargas e no transporte de mercadorias pelas estradas. Trata-se de mais uma oportunidade aberta dentro de um ambiente historicamente masculino, reforçando que as chances no mercado profissional devem ser acessíveis a todos, independentemente de gênero. “A automação tem sido um verdadeiro divisor de águas para a inclusão feminina nas atividades portuárias. Hoje, por exemplo, operadoras de portêiner e RTG atuam a partir de cabines climatizadas, com ergonomia adequada, sistemas embarcados e controle por joystick, garantindo mais conforto, precisão e segurança no desempenho das tarefas”, afirmou a gerente executiva de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da Santos Brasil, Béatrice de Toledo Dupuy. Segundo ela, no Terminal de Contêineres (Tecon) da companhia localizado na Margem Esquerda do Porto de Santos, em Guarujá, oito RTGs já são manuseados remotamente, a partir de um centro de controle moderno, ampliando ainda mais as possibilidades de atuação para profissionais do sexo feminino, inclusive durante a gravidez, pois não é mais necessário subir 120 degraus para operar o equipamento presencialmente. “A digitalização também criou novas frentes para que colaboradoras atuem como programadoras de carga, analistas de operação, motoristas de carreta e especialistas nas áreas de planejamento de navios e controle operacional. Os recursos tecnológicos têm contribuído significativamente para desmistificar a ideia de que o trabalho em terminais exige esforço físico, mostrando que competência técnica, atenção e preparo são os principais diferenciais”, disse. Linguagem e pilar Diante dessas transformações, o que falta é tornar a linguagem mais acolhedora. Para Béatrice, é fundamental reforçar que o porto também é espaço para elas, com chances reais, inclusive nas áreas operacionais. Isso significa, por exemplo, ampliar a divulgação de vagas nos complexos marítimos para alcançar mais candidatas, especialmente nos concursos do Órgão Gestor de Mão de Obra (Ogmo). Na Santos Brasil, a dirigente menciona que a equidade não é apenas um compromisso, mas um pilar para o crescimento sustentável da companhia e de toda a cadeia logística. A instituição tem se dedicado a superar barreiras culturais e estruturais que dificultam o ingresso e a permanência das mulheres na área. Isso inclui processos seletivos justos, treinamentos sobre vieses inconscientes e metas públicas de diversidade. Não por acaso, no último ano foram contratadas 60 operadoras de conjunto transportador (OCT), com 76% das vagas afirmativas destinadas à inclusão feminina. No que se refere à desconstrução de estereótipos, Béatrice observa que visibilidade e representatividade são cruciais. "Mostrar histórias reais de profissionais que atuam com excelência no setor é fundamental para romper paradigmas e ampliar referências", comentou. Campanhas A Santos Brasil tem promovido campanhas institucionais, visitas guiadas com escolas técnicas e programas de aprendizes focados na diversidade de gênero, como o Formare. O projeto social de educação profissional é realizado no Tecon Santos em parceria com a Fundação Iochpe e prepara jovens para o mercado, com ampla presença feminina nas turmas. A classe de 2025 conta com 22 alunas entre as 25 vagas disponíveis. Em 2024, elas também foram maioria: 14 entre 20 participantes. A preocupação com ambientes de trabalho seguros e inclusivos, envolvendo políticas claras contra o assédio e incentivo à igualdade nas promoções internas, também fazem parte das ações da Santos Brasil. Sororidade Béatrice destacou ainda a importância da sororidade entre as colaboradoras, reiterando que a criação de espaços de escuta e troca é fundamental para fortalecer a rede de apoio. A companhia tem incentivado encontros periódicos, programas de mentoria e participação em eventos de outras empresas para promover a solidariedade e o avanço da equidade. “A sororidade se constrói no dia a dia: ao apoiar uma colega, compartilhar conhecimento, indicar profissionais e abrir portas para quem está começando. Já avançamos, mas ainda há muito a evoluir para que essa rede de solidariedade se torne uma prática enraizada no setor. Com esse propósito, realizamos em março a segunda edição do workshop O Porto é Delas, iniciativa voltada à valorização e ao fortalecimento do protagonismo feminino nas áreas de logística e transporte.”