Mudanças no mundo corporativo devem ser acompanhadas de um novo comportamento na rotina da sociedade (AdobeStock) A transformação do cenário atual do mercado de trabalho, com mais oportunidades para as mulheres, passa necessariamente pela formação de homens para o mundo contemporâneo. “É preciso uma escola para homens. Se você quiser sustentabilidade e perenidade para sua empresa, precisa repensar. Se a empresa continuar operando como no século 19, vai continuar respondendo a questões do século 19. Mas a gente está no século 21”, aponta a superintendente de Inovação e ESG da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Cristina Castro. Ela aponta que 75% da predição de consumo no mundo é feita por mulheres. “O que é a predição? O homem vai comprar uma blusa, e eu digo: essa não está boa, compra aquela. E ele compra. Mas só 15% das mulheres têm dinheiro para fazer essa aquisição. Por quê? Porque, embora tomem as decisões de consumo, não têm os mesmos direitos salariais ou não trabalham. E isso gera um vale econômico”. Esse desequilíbrio não afeta apenas as mulheres e acaba se tornando um problema para o homem também. “Hoje, casas não se mantêm com um só provedor. E muitos homens não conseguem mais se inserir no mercado, porque o mercado mudou. As competências exigidas são outras, como o domínio da inteligência artificial, por exemplo”. Cristina conclui com um apelo à racionalidade e ao entendimento coletivo. “É preciso mais mãos para somar no desenvolvimento econômico de um país. E não tem nada mais belo do que isso. Trabalho, renda, lucro, sustentabilidade e perenidade. É bom para mim, para você, para o vizinho. É parar com esse discurso de que um está roubando o trabalho do outro. Tem espaço para todo mundo. Inclusive, tem um monte de vagas abertas. Só não tem gente com competência para entrar. E é isso que a gente precisa rever”. Formas de gestão Cristina explica ainda que existem formas diferentes de gestão, masculina e feminina. Ela entende que a mulher tende a ser mais humana, a querer desenvolver as pessoas. Por outro lado, o homem é mais linear, direto ao resultado. E os dois são complementares. Essa afinidade leva, naturalmente, à replicação dos perfis. “Mulheres tendem a trazer mulheres. Homens tendem a trazer homens. A não ser que o homem tenha uma visão mais feminina. Porque gênero não é sexo. Gênero é forma de agir frente ao mundo”. Reflexão Ela ressalta que inserir mulheres em ambientes de decisão não é apenas uma “pauta bonita”, mas uma estratégia de geração de riqueza mundial. “E ninguém sabe disso. Nem mesmo muitas mulheres em cargos de liderança têm essa noção do retorno positivo”. Cristina diz construir suas argumentações com base em análises do que ela vê no mercado. “Hoje, eu chego numa empresa e falo com números. Digo: ‘Veja, se o senhor quiser ganhar dinheiro, é este o caminho’. Porque não adianta apelar para o vitimismo. Isso não vende para um homem. O que vende para um homem é o dinheiro”. Uma das falhas do movimento em prol das mulheres, aponta a superintendente, está na narrativa. “Temos que saber contar a história do jeito que a pessoa vai entender. Não adianta dizer que precisamos inserir mais mulheres porque elas sofrem. Isso não toca uma cultura masculina. E tem também a questão de a mulher trazer outras mulheres, algo que precisa ir além da empatia e da solidariedade”.