EDIÇÃO DIGITAL

Terça-feira

16 de Julho de 2019

Geraldo Alckmin: 'O governo é improvisado, a formação é equivocada'

Presidente nacional do seu partido, explica que logo deixará essa função diretiva e se dedicará somente à Medicina e à docência

Ex-governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB) afirma não pensar em postos políticos no futuro. Presidente nacional do seu partido, explica que logo deixará também essa função diretiva e se dedicará somente à Medicina e à docência.

Alckmin, de 66 anos, é médico anestesiologista, professor universitário e atualmente tem um quadro sobre saúde no programa Todo Seu, apresentado por Ronnie Von, na TV Gazeta. O ex-governador esteve, na última segunda-feira, na Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), na qual ele tem título de professor emérito. No local, conversou com A Tribuna. Avaliou a derrota na eleição presidencial de 2018, quando concorreu e ficou apenas em quarto lugar, com menosde5%dos votos válidos, e fez críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Leia a seguir trechos da entrevista.

Como o senhor avalia hoje, passados mais de cinco meses, a derrota expressiva que teve na eleição para presidente?

Foi uma eleição atípica, porque o PT se vitimizou com a prisão de Lula e depois, com a facada, o Bolsonaro se vitimizou até acabar a eleição. Na véspera da facada eu tinha subido dois pontos e o Bolsonaro caído dois pontos. A diferença era de oito pontos: passei de 9 para 11 e ele de 21para 19. Teria sido totalmente diferente, mas na hora que teve a facada acabou a campanha. Ficou morre, não morre. Opera, não opera. Transfere, não transfere. E depois, foi o voto útil. Como polarizou ele com o PT, ganhou o anti-PT. Não mudaria nada na campanha (atacando os adversários), estava correta, tanto que estávamos subindo.

Recentemente, o senhor teve um encontro com Bolsonaro e saiu falando que é um governo de improviso. Mantém a opinião?

O governo é heterogêneo, veja os ministros, e é improvisado, evidente. Você vê todos os dias as dificuldades de governabilidade. A formação do governo é equivocada. Pega a política externa: o Itamaraty está boquiaberto. É uma coisa errática. Comprar briga com a China, que é o maior parceiro comercial do Brasil, com o mundo árabe, que é para onde nós vendemos proteína animal. Os Estados Unidos (com quem Bolsonaro se aproximou) é nosso concorrente, na soja, no milho, no etanol, na carne bovina. Tem que ter uma política externa que não seja caudatária (seguidora) do (Donald) Trump (presidente dos EUA). Mas que defenda o interesse brasileiro para conquistar mercado, produzir mais e gerar emprego no Brasil.

O PSDB votará a favor da reforma da Previdência proposta pelo governo?

O PSDB não vai fazer parte do governo, não participa da base do governo, não aceita cargos no governo. Votaremos a reforma da Previdência, sem precisar de nenhum cargo, com dois nortes. O primeiro é justiça social, acabar com privilégios, e o segundo é ser justo com os trabalhadores. Não permitir BPC (Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos pobres) de R$ 400,00 (a proposta de Bolsonaro é reduzir o valor atual, que é de um salário-mínimo, a partir dos 60 anos e só pagar um salário de 70 anos em diante). Devemos desconstitucionalizar processos, mas não direitos dos trabalhadores.

A reforma da Previdência passa ainda neste primeiro semestre?

Se não passar neste, passa no início do segundo semestre. Não sei se com muitas mudanças (no texto inicial), mas é natural que ocorram. Realmente, não se sustenta ter um deficit, somando as previdências do regime geral e do setor público, de R$ 350 bilhões, mais de 5% do PIB. Temos compromisso como Brasil, apoiaremos as reformas que forem de interesse do País. Entendo que três são estruturantes: Previdência, Tributária e Política –não é possível ter 35 partidos no Brasil.

O que acha da série de polêmicas envolvendo o Ministério da Educação e a recente troca do ministro?

Não conheço o novo ministro, mas, lamentavelmente, passaram 100 dias (de governo) e a única coisa que não se discutiu até agora foi educação. Então, esperamos que o novo ministro ponha no rumo correto.

Sobre os rachas internos do PSDB, eles continuam? Como está o partido hoje?

Estamos em um processo de renovação partidária. A municipal já foi feita no Brasil inteiro, inclusive em Santos. A estadual será no começo de maio e a nacional no fim de maio. Eu voltei para a Medicina, voltei a dar aulas, e não pretendo continuar na direção partidária. Então, teremos até o fim de maio para montar a nova executiva nacional.

Já se entendeu com João Doria? Ele disse que o senhor poderia ser chamado para ser conselheiro do partido em São Paulo…

Não precisa… A relação com ele é sempre boa. No que eu puder ajudar, ajudo. O governo dele está começando ainda, é muito cedo para avaliar. O Bolsonaro começou errando mais, mas tem chance para recuperar. Nada é perdido.

Doria tem perspectiva de ser presidente, dá muitos palpites em Brasília…

É muito cedo, estamos nos primeiros meses de governo (Bolsonaro) ainda. Mas isso é bom (dar palpites). Santo Agostinho dizia: ‘prefiro os que criticam, porque me corrigem, do que os que adulam (elogiam) porque me corrompem’. É importante ter a capacidade de ouvir. Um dos problemas do Governo Federal é a intolerância à crítica. Democracia pressupõe diálogo, entendimento. Mas eles vão aprendendo com o tempo.

E o seu futuro político?

Meu pai me ensinou que o futuro a Deus pertence. Eu já fui prefeito, deputado estadual, deputado federal, governador. Agora vou me concentrar na Medicina e no magistério.