Trio suspeito de balear cabo diz que policial foi vítima de 'fogo amigo' em Santos

Caso ocorreu na madrugada do último dia 13, no bairro Embaré

Por: Eduardo Velozo Fuccia  -  23/02/19  -  19:48
  Foto: Divulgação

Três jovens suspeitos de trocarem tiros com dois policiais militares, baleando um deles no braço direito, na madrugada do último dia 13, no bairro Embaré, em Santos, negam os disparos e afirmam que sequer portavam arma de fogo. De acordo com o trio, os tiros foram efetuados exclusivamente pelos agentes públicos na direção do carro que ocupava.


Segundo Francisco Martori, advogado de um dos rapazes, o que houve, na realidade, foi “fogo amigo”, ou seja, um cabo foi alvejado acidentalmente por um soldado parceiro de viatura. O defensor requereu à Polícia Civil e à Corregedoria da Polícia Militar a apuração dessa versão, que pode representar uma reviravolta no caso.


Motorista de aplicativo de transporte de passageiros, um dos jovens, de 27 anos, não nega que tenha cometido três furtos em série na madrugada do dia 13, acompanhado de um empresário de 21 e de um autônomo de 22 anos. Os demais suspeitos também admitem os delitos.


“Os acusados não negam que cometeram três furtos a estabelecimentos mediante o arremesso de pedras nas vidraças dos comércios. Eles alegam que estavam embriagados e estão envergonhados. Por isso, por meio de parentes, já entraram em contato com as vítimas para ressarci-las dos prejuízos”, declara Martori, que defende o empresário.


O primeiro furto foi cometido em um bar na Rua Carvalho de Mendonça, no Marapé, de onde foram levados televisor e 11 garrafas de uísque e vodca. Em seguida, o trio seguiu com o Ford Ka preto usado pelo motorista de aplicativo até uma padaria na Rua Goiás, no Gonzaga, pegando outro televisor e maços de cigarros.


Os produtos foram deixados na casa do autônomo e o trio, na sequência, partiu para o terceiro delito, cometido em um pet shop na Avenida Epitácio Pessoa, no Embaré, de onde furtaram outras mercadorias. Nesse momento, policiais militares já possuíam informações sobre a utilização de um Ford Ka nos arrombamentos e avistaram o carro.


Advogado Francisco Martori
Advogado Francisco Martori   Foto: Arquivo Pessoal

O motorista conseguiu escapar dirigindo pela contramão, e os disparos tiveram início. “O empresário estava no banco traseiro e disse que se abaixou e ouviu um policial gritar para o colega de farda: ‘Sou eu, você me acertou’”, afirma Martori. De acordo com o advogado, pelo menos cinco tiros acertaram o Ka e, por sorte, os rapazes escaparam ilesos.


O carro foi abandonado na Rua Vergueiro Steidel, no bairro Aparecida. Os suspeitos fugiram correndo em direção ao BNH e tomaram rumos diferentes, sendo preso apenas o motorista de aplicativo. Ele identificou os parceiros e revelou os seus endereços, o que possibilitou a detenção do autônomo. O terceiro não foi achado em casa.


Com base na versão dos PMs, de que o cabo foi ferido em tiroteio, a delegada Edna Pacheco Fernandes Garcia, do 3º Distrito Policial, autuou a dupla em flagrante por furto qualificado e tentativa de homicídio. O motorista de aplicativo e o autônomo permanecem presos. No dia seguinte, o empresário se apresentou no distrito acompanhado do advogado.


Após apresentar a sua versão e ser indiciado pelos mesmos crimes dos demais, o empresário foi liberado, porque não houve flagrante em relação a ele e nem tinha contra si mandado de prisão. Na sexta-feira (22), a delegada concluiu o inquérito policial e o encaminhou à apreciação da Justiça e do Ministério Público.


Em seu relatório, Edna Garcia narra que os três negaram portar arma de fogo e, consequentemente, terem disparado na direção dos PMs. Ela acrescenta que vários policiais de outras viaturas deram apoio ao colega baleado, mas não apreenderam qualquer armamento no Ford Ka ou com a dupla presa em flagrante.


O documento final do inquérito também cita declaração do jovem que se apresentou no distrito no dia seguinte aos fatos. Esse rapaz relatou que, em um “ato de desespero”, ele e os outros suspeitos abandonaram o Ka e correram para o BNH por causa dos tiros efetuados pelos policiais na direção do carro.


Os policiais tiveram as armas apreendidas para perícia. Porém, o exame de confronto balístico ainda não pôde ser feito. O projétil que atingiu o cabo continua alojado e, por ora, por recomendação médica, não deverá ser extraído, devido à gravidade das lesões. A delegada também requereu perícia para o veículo do motorista de aplicativo.


Pedido de providências


Com o objetivo de apurar a verdade dos fatos e afastar a versão de que os suspeitos enfrentaram os policiais a tiros, Martori encaminhou “pedido de providências urgentes” à Polícia Civil, à Corregedoria da PM e à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Subseção Santos.


Nove imóveis residenciais e comerciais que possuem câmeras de segurança e estão na rota de fuga do trio foram identificados e fotografados pelo advogado. Ele quer que as imagens sejam requeridas pelas autoridades e analisadas, como prova de que os suspeitos, além de não terem disparado, foram alvos de tiros efetuados pelos PMs.


“Impossível negar que os policiais militares vivem diuturnamente em situação de estresse e que, com ânimos exacerbados, acabaram, infelizmente, por balear um colega de farda”, frisa Martori. Porém, ele pondera que o caso poderia ter sido mais grave, “porque o veículo da fuga foi duramente atingido pelos disparos dos PMs que o perseguiam”.


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