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Sábado

15 de Agosto de 2020

Polícia e Exército apuram falsificação de laudos; um deles é do produtor e empresário KondZilla

Laudos psicológicos falsificados foram feitos para a emissão de Certificados de Registro (CRs) de armas para atividades de atirador, caçador ou colecionador

A Polícia Civil e o Exército investigam em Guarujá esquema de falsificação de laudos psicológicos para a emissão de Certificados de Registro (CRs) de armas para atividades de atirador, caçador ou colecionador. Com indícios de falsidade, três documentos são provas materiais da fraude. Um deles é de Konrad Cunha Dantas, o KondZilla, empresário, produtor, compositor e dono do segundo maior canal de música do Mundo.

Com uma legião de 58,6 milhões de inscritos em seu canal no YouTube, KondZilla defende-se. Por meio do advogado José Estevam Macedo Lima, o empresário informa que contratou, “por indicação”, um despachante e lhe outorgou poderes visando renovar seu CR como atirador esportivo. Em nenhum momento, o Exército ou o despachante alertaram KondZilla sobre irregularidades no trâmite do procedimento, destaca a nota.

“Konrad Dantas aproveita para expor que preza por sua imagem e que suas condutas sempre estão pautadas na ética e na legislação vigente”, conclui o comunicado do advogado. Além do produtor musical, Antônio Marcos de Souza e Claudir José Bianchi tiveram os seus requerimentos de emissão de CR suspensos devido a indícios de falsificação dos laudos psicológicos. A Reportagem não conseguiu ouvi-los.

Pontos em comum

Há três fatos em comum nos requerimentos de CR de KondZilla, Antônio Marcos e Claudir. O mesmo despachante, Dario de Oliveira Lima, que possui escritório na Zona Sul de São Paulo, atua nos três procedimentos. Os laudos psicológicos estão supostamente assinados pela psicóloga Liliana Valente de Almeida, que atende em Santos. Por fim, os documentos foram apresentados em uma unidade militar de Guarujá.

Conhecida por hospedar o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e o atual, Jair Bolsonaro, a 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea, instalada no Forte dos Andradas, recebeu as documentações dos CRs. Os militares incumbidos de analisar os papéis suspeitaram da autenticidade dos laudos psicológicos, que atestam a aptidão dos requerentes para realizar tiro, manusear e possuir arma de fogo para prática esportiva.

Militares no Forte dos Andradas duvidaram da veracidade dos papéis (Foto: Paulo Tavares/TV Tribuna)

A desconfiança surgiu após os laudos serem comparados com outros arquivados no Forte dos Andradas. Os padrões dos documentos de KondZilla, Claudir e Antônio são diferentes de outros emitidos pela mesma psicóloga. Para esclarecer os fatos, a profissional foi avisada pelo Exército e compareceu à unidade militar. Ela não reconheceu como suas as assinaturas nos documentos suspeitos.

Boletim de ocorrência

Liliana apontou outros sinais de falsificação dos laudos. Segundo ela, os documentos sob suspeita contêm erros de português e não possuem código de barras. A psicóloga também verificou discrepâncias entre os papéis autênticos e os falsificados, que estão relacionadas ao carimbo e à chancela. A profissional relatou os fatos na Delegacia de Guarujá, sendo registrado boletim de ocorrência sobre o crime de falsidade ideológica.

A psicóloga frisou na delegacia que não teve qualquer contato com o despachante Dario e as três pessoas cujos laudos estão sob investigação. A Reportagem procurou Liliana e ela disse que se manifestaria por meio de um advogado. No entanto, este profissional, após solicitar o envio de e-mail com perguntas, não respondeu se a cliente ratifica ou nega o que declarou na repartição policial, bem como se tem algo a acrescentar.

“Não fiz os laudos”

O despachante Dario, por intermédio do advogado Victor Waquil Nasralla, afirma que não tem informações sobre a autenticidade dos laudos porque não os elaborou. Ele também informou que KondZilla, Claudir e Antônio o procuraram “por meio de indicação”. Por fim, reforça que apenas presta serviços de despachante, “não sendo o responsável por confeccionar os laudos psicológicos dos clientes”.

Nasralla defende Dario em processo de estelionato em trâmite na 4ª Vara Criminal de Osasco. Segundo denúncia do Ministério Público (MP) oferecida em fevereiro de 2017, o despachante adquiriu por R$ 7 mil duas pistolas Taurus calibre 380. Documentos falsos e cheques fraudados foram usados na transação, ocorrida em agosto de 2010. Para isso, o acusado se valeu de um ex-cabo do Exército e de um terceiro homem, já falecido.

De acordo com o MP, Dario prestava serviços de despachante à loja onde foram compradas as armas semiautomáticas e tramou o golpe. Ele encomendou os documentos e cheques ao parceiro que já morreu, enquanto o ex-cabo se dirigiu ao estabelecimento para comprar as pistolas. Para transparecer maior credibilidade, o ex-militar foi ao comércio vestido com a farda do Exército.

Investigação

O delegado titular de Guarujá, Marco Antonio do Couto Perez, diz que irá requerer ao Exército os laudos, “imprescindíveis à formação da prova, já que se trata de crime material”. Ele também intimará todas as partes para esclarecer quem contratou o serviço de quem. Por fim, Perez declara que, “com os originais em mãos, daremos continuidade aos procedimentos de polícia judiciária, com as requisições de perícia, inclusive”.

O Exército, por meio de nota do Comando Militar do Sudeste, informa que “a 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea instaurou sindicância para apurar as irregularidades na apresentação dos documentos falsificados”. Caso haja indício de crime, será aberto Inquérito Policial Militar. Esta apuração é independente da que a Polícia Civil realiza a partir do boletim de ocorrência de falsidade ideológica registrado pela psicóloga.

O Comando Militar explica que o documento expedido para as atividades que tenham por objeto produtos controlados pelo Exército é o CR, com validade de dez anos. Ele abrange atividades solicitadas pelo requerente, podendo ser de caçador, atirador e colecionador. “As equipes que analisam os processos de CR são treinadas regularmente para identificar qualquer alteração de documentos oficiais, como ocorreu neste caso”.

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