Operações da Polícia Civil e Federal nos últimos meses miraram em esquemas do PCC praticados em vários estados do país (Divulgação/Receita Federal) As recentes operações policiais, prisões de líderes e membros, além das investigações conduzidas pela Polícia Civil (PC) e pela Polícia Federal (PF), têm revelado uma presença cada vez mais forte da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) em Santos, Praia Grande e demais cidades da Baixada Santista, no litoral de São Paulo. A Tribuna reuniu os principais acontecimentos dos últimos meses que mostram como a organização criminosa tem operado na região. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A maior operação contra o PCC Em agosto, foi deflagrada a maior operação já realizada contra o PCC. Ao todo, 15 alvos da Operação Carbono Oculto aparecem como sócios de 251 postos de combustíveis em diferentes estados do país — 33 deles na Baixada Santista. A operação mirou mais de 350 pessoas e empresas suspeitas de ajudar o PCC a esconder dinheiro obtido com crimes por meio de lavagem de dinheiro. Segundo decisão judicial que autorizou buscas e prisões, 15 alvos têm ligação direta com o esquema. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) não confirmou se os 251 postos estão formalmente sob investigação, alegando sigilo. Já a Receita Federal afirmou que mais de mil estabelecimentos já foram utilizados pelo grupo, sem divulgar a lista. Conforme apuração do g1, 233 postos ficam no Estado de São Paulo, sendo 33 na Baixada Santista: 12 em Santos, 9 em Praia Grande, 6 em Guarujá, 3 em São Vicente, 2 em Cubatão e 1 em Mongaguá. Do total, 11 não têm bandeira, enquanto os demais estão vinculados à rede Ipiranga (12), Rodoil (9) e BR/Petrobras (1). Nenhuma das distribuidoras foi alvo direto da investigação. Execução de ex-delegado O ex-delegado-geral da Polícia Civil e secretário de Administração de Praia Grande, Ruy Ferraz Fontes, de 64 anos, foi executado com 12 tiros de fuzil em 15 de setembro, após encerrar o expediente na Prefeitura de Praia Grande. Ele foi perseguido, teve o carro prensado por um ônibus e capotou. Na sequência, criminosos armados com fuzis dispararam 29 vezes contra o veículo. Câmeras de monitoramento flagraram o assassinato. As investigações apontam que o crime foi minuciosamente planejado e executado de forma ostensiva. Segundo o secretário de Segurança Pública do Estado, Guilherme Derrite, o homicídio teve participação direta do PCC. Durante coletiva, Derrite confirmou o envolvimento da facção e revelou dois suspeitos com prisão temporária decretada: Flávio Henrique Ferreira de Souza, de 24 anos, e Felipe Avelino da Silva, o “Mascherano”, ambos integrantes do PCC. “Que há participação do crime organizado, para nós, não resta dúvida, principalmente por conta do Mascherano, que pertence à organização criminosa”, afirmou Derrite. De acordo com relatórios de inteligência, Felipe Avelino atuava como “disciplina” do PCC no ABC paulista — posição de destaque dentro da facção. Ele foi preso no último dia 6. Jogos de azar, hotéis e motéis A Operação Spare, deflagrada em 25 de setembro, investiga exploração de jogos de azar, comércio de combustíveis adulterados e lavagem de dinheiro por meio de fintechs para o PCC. A apuração identificou 60 empresas do setor hoteleiro, incluindo dois estabelecimentos na Baixada Santista, envolvidas no esquema. Segundo o portal Metrópoles, os negócios foram usados para lavar dinheiro em um esquema bilionário que liga o PCC à região da Faria Lima, em São Paulo. A Spare é um desdobramento da Carbono Oculto, que revelou a atuação da facção em fintechs ligadas ao sistema financeiro. A Receita Federal apontou que os recursos ilícitos eram inseridos no sistema formal por meio de empresas de fachada. Documentos obtidos por A Tribuna mostram transferências ao BK Bank, fintech investigada, feitas por companhias do ramo hoteleiro com contabilidade paralela para dificultar o rastreamento. Na Baixada Santista, foram identificadas: RCS Empreendimentos Hoteleiros – Motel Anonimato (Santos) São Vicente Empreendimentos Hoteleiros (São Vicente) Postos de Praia Grande e Guarujá Na região, dois postos também foram alvos da Carbono Oculto: o Auto Posto Boulevard XV São Paulo, em Praia Grande, e o Auto Posto Maragogi Ltda., em Guarujá. A investigação, conduzida pelo MP-SP com apoio de órgãos estaduais e federais, apontou que cerca de mil postos movimentaram R\$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com indícios de sonegação de R\$ 7,6 bilhões. Casas de jogos ilegais em Santos Os alvos da operação, registrados em nome de laranjas, movimentaram R\$ 450 milhões entre 2020 e 2024. Máquinas de cartão apreendidas em casas de jogos ilegais — inclusive na Rua Euclides da Cunha, em Santos — estavam vinculadas a postos de combustíveis. Os valores eram enviados a uma instituição de pagamento usada para ocultar a origem do dinheiro. Segundo O Globo, foram usados 267 postos, 98 lojas franqueadas de O Boticário, 60 motéis e empreendimentos imobiliários para lavar recursos ilícitos. Parte dos alvos tinha ligação direta com membros do PCC. A fintech usada era o BK Bank, responsável por movimentar valores de jogos ilegais e combustíveis adulterados. Foram cumpridos 25 mandados em São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco. Entre 2020 e 2024, 98 lojas de O Boticário ligadas a 21 CNPJs movimentaram R\$ 1 bilhão, mas emitiram apenas R\$ 550 milhões em notas fiscais. Durante coletiva, o MP reforçou que o Grupo Boticário não tem relação com o caso, e que as acusações se limitam a franqueado. Líderes presos na Baixada No último dia 10, um dos líderes do PCC, conhecido como “Patrikonha”, de 46 anos, foi preso no Macuco, em Santos, junto com a namorada, de 44. A Polícia Civil apreendeu um lança-granadas norte-americano, fuzis, granadas, pistolas, roupas táticas e munições de alto calibre, avaliados entre R\$ 400 mil e R\$ 500 mil. Segundo a investigação, Patrikonha era responsável por armazenar armas e drogas do PCC. O 'arsenal de guerra' seria levado ao BNH, no bairro Aparecida. O delegado Leonardo Rivau, da 2ª Dise, afirmou que as investigações começaram em maio e revelaram forte presença da facção dentro do conjunto habitacional. Três dias depois, em Peruíbe, foi preso “Leão Banguelo”, de 49 anos, apontado como disciplina-geral do PCC na Baixada Santista. Ele foi encontrado em uma chácara e seria um dos responsáveis por atentados contra policiais do GOE de Santos. Também no dia 13, uma mulher de 22 anos, companheira de um homem investigado por ligação com o PCC, foi presa em Guarujá com o filho de 5 anos, durante cumprimento de mandado. A polícia encontrou uma pistola, armas falsas, munições e drogas. Ela foi liberada após audiência de custódia. O contador do PCC Conforme apurado pelo Estadão, o empresário e contador de Santos Rodrigo de Paula Morgado, preso pela segunda vez em seis meses — agora pela Operação Narco Bet, no dia 14 —, é suspeito de atuar como operador logístico-financeiro do PCC. Conhecido por sortear um Jeep Compass em Santos e ostentar vida de luxo nas redes sociais, Morgado, que é apontado como 'contador do PCC', alega ter enriquecido “pela força de vontade de aprender”. Os rendimentos declarados do contador passaram de R\$ 295 mil em 2022 para R\$ 7,9 milhões em 2023. A variação patrimonial é considerada suspeita pelos investigadores. O rastreamento promovido pela Polícia Federal indica que Morgado é dono de imóveis, carros de luxo, como uma Ferrari, e criptoativos. Tudo, segundo ele, comprado com faturamento lícito. Segundo a PF, ele era o “articulador financeiro do grupo”, responsável por criar e administrar empresas de fachada controladas por laranjas. Relatórios da investigação indicam que ele participou da compra do veleiro Lobo IV, interceptado em 2023 com mais de 3 toneladas de cocaína a bordo. "Os elementos de prova colhidos ao longo da investigação demonstram que Rodrigo Morgado exerceu papel ativo na constituição e manutenção de empresas fictícias, formalmente vinculadas a laranjas ou pessoas sem qualquer capacidade econômico-financeira, mas em realidade controladas e operadas em favor da estrutura criminosa", escreveu o delegado federal Raphael Soares Astini, da Coordenação Geral de Repressão a Drogas, Armas e Facções Criminosas, ao pedir a prisão do contador. "Os documentos analisados revelam que sua atuação não se restringia à mera contabilidade, mas alcançava a concepção e execução de mecanismos de ocultação de ativos, bem como a coordenação das transações vultosas que possibilitaram, entre outros, a aquisição do veleiro Lobo IV, interceptado em alto-mar (pela Marinha americana) em fevereiro de 2023 com mais de 3 toneladas de cocaína a bordo", segue a PF. Preso na Anchieta No último dia 17, a Polícia Militar Rodoviária (PMRv) prendeu um homem ligado ao PCC durante a Operação Impacto Força Total, na Rodovia Anchieta, km 31, sentido litoral de São Paulo. Ele estava em um veículo de aplicativo e demonstrou nervosismo ao ser abordado, fornecendo informações contraditórias sobre sua identidade. 'Tesoureira' da facção em Santos A Polícia Civil prendeu no Embaré, em Santos, Tatiana São José Madureira, de 44 anos, apontada como responsável pelo núcleo financeiro do PCC voltado ao tráfico na Baixada Santista. A investigação teve início após a prisão de Felipe Gelsleichter, o “Adidas”, em 2 de outubro, com 1,3 kg de maconha, balanças, dinheiro e material de embalagem. Os agentes descobriram que Tatiana, conhecida como “Tati Madureira”, controlava o faturamento das vendas ilícitas, recebendo 10% por transferência eletrônica. Ela também atuava como intermediária de um detento que coordenava o grupo de dentro da prisão, demonstrando a estrutura hierárquica e estável do PCC na região.