Mais de 100 policiais participaram da operação (Divulgação/ Governo do Estado de São Paulo) A Operação Spare, deflagrada nesta quinta-feira (25), apura a exploração de jogos de azar, a comercialização de combustíveis adulterados e a lavagem de dinheiro por meio de uma fintech (empresa financeira e tecnológica). A investigação revelou 60 empresas do setor hoteleiro, entre motéis e hotéis — incluindo dois na Baixada Santista —, que estariam envolvidas no esquema. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo apuração do jornal Metrópoles, esses estabelecimentos foram utilizados para lavar dinheiro em um esquema bilionário que liga o Primeiro Comando da Capital (PCC) à região da Faria Lima, em São Paulo. A Spare é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, que revelou a atuação do PCC em fintechs ligadas ao sistema financeiro da Faria Lima. De acordo com a Receita Federal, os recursos de origem ilícita eram inseridos no setor formal por meio de empresas operacionais. Conforme apuração do jornal A Tribuna, foram encontrados comprovantes de diversas transferências em favor do BK Bank — fintech investigada na operação — realizadas por empresas do ramo hoteleiro, que operavam uma contabilidade paralela, dificultando o rastreamento dos recursos. Entre as empresas da rede hoteleira identificadas pela operação na Baixada Santista estão: RCS Empreendimentos Hoteleiros – Motel Anonimato (Santos) São Vicente Empreendimentos Hoteleiros (São Vicente) A Tribuna entrou em contato com o Motel Anonimato e aguarda retorno. A reportagem tentou localizar a São Vicente Empreendimentos Hoteleiros, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação. Investigação Os estabelecimentos investigados estão localizados na capital paulista, na região metropolitana e no litoral de São Paulo, e estavam registrados em nome de laranjas. Juntos, movimentaram aproximadamente R\$ 450 milhões entre 2020 e 2024. Ainda segundo a investigação, máquinas de cartão apreendidas em casas de jogos ilegais, uma delas na Rua Euclides da Cunha, no Gonzaga, em Santos, estavam vinculadas a postos de combustíveis. O cruzamento de dados financeiros mostrou que os valores eram direcionados a uma instituição de pagamento, utilizada para ocultar a origem ilícita do dinheiro e movimentar cifras milionárias. Organização De acordo com o jornal O Globo, a organização criminosa, comandada por Flávio Silvério Siqueira, usou 267 postos de combustíveis, 98 lojas franqueadas de O Boticário, 60 motéis e empreendimentos imobiliários para lavar dinheiro de origem ilícita. Parte dos alvos possui vínculos diretos com integrantes do PCC. A fintech usada no esquema era o BK Bank, por meio do qual circulavam recursos obtidos com jogos ilegais e combustíveis adulterados. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco. Defesa Ao jornal O Globo, a defesa de Flávio Silvério Siqueira negou qualquer envolvimento com o crime organizado. Segundo o advogado Marco Antonio Gonçalves, seu cliente é dono de motéis, não atua mais no ramo de combustíveis e estaria sendo vítima de perseguição por parte de policiais que teriam tentado extorqui-lo no passado. O Boticário Outro alvo da operação, Maurício Soares de Oliveira, é proprietário de uma rede de lojas franqueadas da marca O Boticário. Segundo o Ministério Público, esses comércios apresentaram movimentações bancárias compostas 100% por depósitos em dinheiro vivo — prática frequentemente associada à lavagem de dinheiro. Mesmo durante a pandemia, as lojas apresentaram crescimento de receita bruta, descolado da realidade do setor na época. A Receita Federal identificou 21 CNPJs ligados a 98 estabelecimentos, que movimentaram cerca de R\$ 1 bilhão entre 2020 e 2024, mas emitiram apenas R\$ 550 milhões em notas fiscais. Em nota, o Grupo Boticário afirmou que não tinha conhecimento das irregularidades e que repudia qualquer prática ilegal, destacando suas políticas de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e anticorrupção. PCC De acordo com o Jornal O Globo, o promotor Silvio Loubeh, do Ministério Público (MP) de Santos, afirmou que embora nenhum dos investigados tenha sido formalmente identificado como membro batizado do PCC, muitos possuem relações diretas com lideranças da facção. “Alguns já foram assassinados, como Cabelo Duro (Wagner Ferreira da Silva), que frequentava a casa do líder deste grupo. Alemão (José Carlos Gonçalves) é sócio em uma aeronave. O Japonês (Rafael Maeda Pires), também assassinado, frequentava a residência dos envolvidos”, afirmou Loubeh. As empresas controladas pela organização recebiam volumes elevados de depósitos em espécie, sem origem identificável. Balanço e Impacto As operações Spare e Carbono Oculto resultaram no bloqueio de R\$ 7,6 bilhões em bens de 55 investigados. Segundo o subsecretário-adjunto da Fazenda, Paulo Ribeiro, o objetivo é compensar os prejuízos aos cofres públicos. Entre os bens bloqueados estão: Empresas com contabilidade paralela Ativos ocultos em instituições de pagamento Veículos e imóveis de alto valor, entre outros Mais de 110 policiais militares, integrantes do Comando de Choque e de unidades especializadas participaram da ação, considerada mais um passo no combate à lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado em setores da economia formal.