Carolina gravou o momento em que o catamarã pegava fogo no meio do arquipélago no Panamá (Arquivo pessoal) Quatro brasileiros — dois moradores de Santos e dois de São Paulo — sobreviveram a um naufrágio nas Ilhas San Blas, no Panamá, após um catamarã (embarcação composta por dois cascos paralelos) pegar fogo no meio do mar. Dois deles pularam na água, mesmo com tubarões por perto, enquanto os outros ficaram em um bote. Os responsáveis pelo barco se queimaram. (Veja vídeo mais abaixo) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O incêndio ocorreu no sábado (6), no arquipélago de San Blas. Nas imagens obtidas por A Tribuna, uma das sobreviventes aparece desesperada dentro de um bote enquanto a embarcação é consumida pelas chamas. No vídeo, a empresária santista Carolina Pereira Topfstedt, de 32 anos, relata que perdeu “tudo”. Ela contou para A Tribuna que chegou ao Panamá em 28 de novembro com os amigos Douglas de Melo Zulião, também de Santos, além de Leonardo Ricciarelli e Luciane Alves Casão, moradores de São Paulo. Segundo Carolina, a viagem terminaria no próximo domingo (14). Se tudo tivesse ocorrido normalmente, o roteiro seria Cidade do Panamá (29 e 30 de novembro), Cartagena das Índias, na Colômbia (30 de novembro a 4 de dezembro), Cidade do Panamá (4 e 5 de dezembro), San Blas (5 a 7 de dezembro), Cidade do Panamá (7 e 8 de dezembro), Bocas del Toro (8 a 13 de dezembro) e novamente Cidade do Panamá (13 e 14 de dezembro). -naufrágio no Panamá (1.492036) Em San Blas, o grupo havia reservado um Airbnb que era um catamarã com tudo incluso. A viagem até a embarcação durou cerca de quatro horas, entre estrada e lancha. Os quatro chegaram ao catamarã na sexta-feira (5), e foram recebidos pelo capitão e seu ajudante. Durante a hospedagem, os brasileiros combinaram a programação. Luciane Alves Casão, Leonardo Ricciarelli, Douglas Melo e Carolina Pereira Topfstedt chegaram no catamarã na sexta-feira (5). No Airbnb, eles comeram frutos do mar e conhecerem ilhas paradisíacas (Arquivo pessoal) No primeiro dia, fizeram stand up paddle e visitaram uma ilha próxima para tirar fotos. Depois, retornaram para almoçar caranguejo pescado pelo capitão. Em seguida, ele levou o grupo até outra ilha onde costumam aparecer tubarões. Durante o passeio, os amigos tiraram fotos e pegaram sol. O capitão jogou pedaços de peixe ao mar para atrair os animais. “Tiramos várias fotos e gravamos muitos vídeos”, lembra Carolina. Ao anoitecer, o capitão cozinhou lagosta pescada no dia anterior. Após o jantar, todos foram dormir. Na manhã seguinte, os quatro tomaram café e acompanharam o capitão e o ajudante na pescaria do almoço. “Foi uma das experiências mais lindas da minha vida. Nadei perto de peixes, águas-vivas e corais no mar mais límpido que já vi. Ficamos cerca de 1h30 no mar, até que eles conseguiram pescar peixes suficientes para o nosso almoço e voltamos ao catamarã”. O incidente Assim que voltaram e os tripulantes começaram a limpar o pescado, Carolina e Luciane foram filmar os tubarões que se aproximavam. “Nesse momento, o capitão ouviu um estralo na cabine e chamou o ajudante. Logo vi fumaça lá dentro. O Douglas pegou um extintor para ajudar, mas a fumaça só aumentava e o extintor acabou. Notei que o bote estava próximo e comecei a calcular meus próximos passos caso piorasse — e piorou. Vi o desespero no rosto do capitão e uma labareda atrás dele. Percebi que precisava sair dali o mais rápido possível”, conta Carolina. A empresária santista pulou no bote e chamou os amigos. Luciane, em desespero, pulou direto no mar, mesmo com tubarões ao redor, e o marido pulou atrás dela. Douglas entrou no bote com Carolina e o desamarrou. Carolina puxou Luciane para dentro do bote, e Leonardo também conseguiu embarcar. “Peguei um remo e comecei a remar o mais longe possível, com medo de o catamarã explodir. O Douglas fez o mesmo. O capitão e o ajudante ficaram a bordo tentando salvar algo do fogo (sem sucesso) e acabaram se queimando”. Um bote de resgate se aproximou, ajudou o grupo a chegar à ilha mais próxima e depois retornou para buscar o capitão e o ajudante. Na ilha, indígenas prestaram ajuda, e um casal estrangeiro deu toalhas para que as mulheres não ficassem de biquíni. Destruição Carolina conta que o catamarã queimou por completo, levando todos os pertences do grupo. “Perdemos roupas, sapatos, maquiagens, joias, remédios, câmeras, passaportes, compras do Panamá e da Colômbia, dinheiro… tudo. Só eu e o Douglas saímos com nossos celulares — o dele porque correu para buscar. O capitão perdeu tudo o que tinha, pois aquela era a casa dele”. Enquanto os amigos estavam na ilha, um cacique os ajudou, levando-os até o local do naufrágio e depois para registrar o boletim de ocorrência. “Após isso, nos separamos do capitão, que voltou ao local do acidente para tentar recuperar algum pertence. Eu e meus amigos seguimos com o cacique até a sede do governo, em outra ilha. Lá nos deram comida, roupas, banho e um lugar para dormir. Era tudo muito simples — banho gelado, sem luz —, mas fomos recebidos com muito amor e empatia”. No domingo (7), o cacique ordenou que seu motorista levasse o grupo até a Cidade do Panamá para resolver a documentação. Segundo Carolina, ele ligou para o cônsul do Brasil e pediu ajuda. “O cônsul, Geraldo Seabra, nos encontrou rapidamente, mesmo em meio a um almoço de domingo e véspera do Dia das Mães no Panamá (comemorado em 8 de dezembro). Ele e seu funcionário nos ajudaram com muita paciência e emitiram um documento que nos autorizava retornar ao Brasil até o dia 11 sem documentos pessoais. O cacique ainda ofereceu o pagamento de hotel para nós, já que estávamos sem dinheiro”. Com o documento em mãos, os quatro compraram roupas — ainda estavam descalços e com trajes da tribo — e depois procuraram passagens para voltar ao Brasil. O retorno ao Brasil O grupo tinha autorização para permanecer no Panamá até esta quinta-feira (11). Por isso, eles compraram as passagens mais próximas possíveis, mesmo estando muito caras: a volta ocorreu na segunda-feira (8). “Estávamos desolados, traumatizados, sem roupas, nem remédios. Perdemos o restante da viagem — mais um dia no Panamá e seis dias em Bocas del Toro — além de hospedagens e passagens. Ficamos tristes por não aproveitar como planejado esse país tão maravilhoso e esperamos nos recuperar logo para voltar”, afirma Carolina. No aeroporto, pessoas notaram a vulnerabilidade do grupo e emprestaram blusas para que os quatro não sentissem frio no voo. “Temos muito a agradecer: primeiro a Deus, por nossas vidas; às nossas famílias pelo suporte; ao capitão do catamarã, que mesmo tendo perdido tudo nunca deixou de se preocupar conosco; ao cacique e seu povo, sem os quais talvez nem estivéssemos bem; ao senhor Geraldo Seabra, que emitiu nossa documentação com tanta prontidão; às pessoas que nos ajudaram no caminho; e aos nossos amigos, pelo cuidado e apoio neste momento”. A Tribuna entrou em contato com a Embaixada Brasileira no Panamá, para mais informações, porém não obteve retorno até a publicação desta matéria.