Atílio não possuía habilitação e entregou um carro para a então parceira, que também não tinha o documento, a fim de ensiná-la a dirigir (Reprodução/ Redes sociais e Reprodução) Além dos registros de violência doméstica envolvendo Jane de Araújo Lima, Atílio Ferreira da Silva, de 49 anos, também aparece em outro boletim de ocorrência mais antigo. Em 2012, na capital paulista, na Rua Mar Alto, em Pirituba, ele foi citado em um caso de acidente de trânsito que envolveu uma outra ex-companheira. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com o documento, Atílio não possuía habilitação e entregou um carro para a então parceira, que também não tinha o documento, a fim de ensiná-la a dirigir. Durante a tentativa, ela perdeu o controle do veículo, que capotou. A mulher sofreu um ferimento no braço, foi levada a um pronto-socorro, medicada e liberada. Após a liberação do automóvel pela perícia, Atílio acionou um guincho particular para remover o carro do local. Denúncias anteriores Jane já havia procurado a polícia para denunciar o companheiro, Atílio Ferreira da Silva, de 49, por violência doméstica. O homem foi preso no dia 9 de setembro e confessou ter matado a vítima durante uma discussão no final de agosto. De acordo com registros obtidos por A Tribuna, Jane relatou em um boletim de ocorrência que chegou a ser enforcada com um fio e agredida fisicamente pelo suspeito. O primeiro boletim foi feito em abril de 2023, na 4ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Pirituba, em São Paulo. Na ocasião, Jane contou que discutiu com o namorado e levou um tapa no rosto. Ela também afirmou que Atílio usou um fio para agredi-la e tentou enforcá-la. Na mesma ocasião, a vítima manifestou interesse em solicitar medida protetiva de urgência, mas não há registro se o pedido foi deferido pela Justiça. Meses depois, em outubro de 2023, um novo boletim foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santos. O documento traz o relato de um policial militar que atendeu uma ocorrência envolvendo o casal. Segundo o registro, os dois apresentavam sinais de agressões mútuas, mas afirmaram não querer dar prosseguimento criminal ao caso. Tatuagens Atílio carrega no braço uma tatuagem com o nome dela. O casal vivia junto havia cerca de sete anos e tinha um relacionamento marcado por brigas e episódios de violência doméstica. De acordo com foto obtida por A Tribuna e publicada nas redes sociais do casal, o homem aparece abraçado com a vítima e, na imagem, é possível ver uma tatuagem em que está escrito o nome 'Jane' em seu braço. Em entrevista para A Tribuna, uma das filhas de Jane, que preferiu não ser identificada, por questão de segurança, disse que a mãe também tinha uma tatuagem com o nome de Atílio. "Eu acho que ela tinha duas. Ela tinha esse costume; quando arrumava um namorado, logo fazia uma tatuagem com o nome dele. Inclusive, ela tem uma flor com o nome de um ex-companheiro". Relembre o caso Jane permaneceu desaparecida por mais de uma semana até ser encontrada morta dentro de uma mala em um terreno baldio no bairro Ribeirópolis, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. O companheiro dela, Atílio Ferreira da Silva, de 49 anos, confessou o crime após se apresentar espontaneamente na delegacia e ser confrontado com as provas já reunidas pela Polícia Civil. O delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande, Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior, detalhou o caso em coletiva de imprensa nesta quarta-feira (10), no Palácio da Polícia, no Centro de Santos. Segundo ele, Jane foi morta após uma discussão ocorrida no dia 27 de agosto, uma quarta-feira, dentro da casa onde morava com o companheiro. O corpo foi colocado na mala e desovado no terreno da Avenida Doutor Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho apenas na noite de 2 de setembro, terça-feira. Ele foi encontrado por crianças dois dias depois, na noite de 4 de setembro, quinta-feira. “Naquele dia, houve uma briga acalorada, com relatos de vizinhos inclusive sobre agressões físicas. Desde então, a vítima não foi mais vista no bairro”, afirmou o delegado. Crime dentro de casa De acordo com o delegado, a perícia encontrou manchas de sangue em um dos cômodos da residência do casal, mesmo após uma tentativa de limpeza. “Foi possível identificar sangue humano em um cômodo que estava visivelmente mais limpo. Isso reforçou que a vítima foi agredida e morta dentro de casa”, explicou. Na confissão, o homem disse que a discussão começou após o uso de bebida alcoólica e cocaína. Ele contou à polícia que Jane teria se apoderado de uma faca, mas que conseguiu desarmá-la e desferiu os golpes. “Ele permaneceu com o corpo na sala de quarta para quinta-feira. Na noite seguinte, colocou a vítima dentro de uma mala e manteve ainda no imóvel. Só quase uma semana depois levou a mala até o terreno baldio”, relatou o delegado. O delegado também disse que o homem apresentava um corte na região do peito, próximo ao coração, e alegou que teria sido feito por Jane durante a discussão. “Ainda não foi possível confirmar se esse ferimento foi causado pela faca, já que estava cicatrizado pelo tempo decorrido”, explicou. A mala e a ocultação Atílio levou o corpo até o terreno baldio sozinho, caminhando cerca de três quadras. “Não houve a participação de outra pessoa. Ele carregou a mala sozinho, com a intenção de se desfazer do corpo e depois criar uma narrativa para enganar a polícia”, disse Lara Dias. A mala usada para ocultar o corpo já havia aparecido em vídeos gravados pela própria vítima dentro de casa. “Uma das filhas de Jane, que mora no Maranhão, enviou um vídeo em que a mãe mostrava a residência. Nele, é possível ver a mala idêntica à encontrada no terreno”, contou o delegado. Atílio ainda tentou se desfazer da faca do crime, quebrada ao meio devido à violência dos golpes. Ele a escondeu entre dois muros próximos à residência. “Nesta terça-feira (9), localizamos as duas partes da faca, exatamente como ele descreveu”, acrescentou o delegado. Dias depois do crime, Atílio vendeu os móveis do casal e chegou a dizer a conhecidos que Jane havia se mudado para o Maranhão ou Piauí. Contradições e confissão Segundo a Polícia Civil, o homem se apresentou no 3º Distrito Policial (DP) de Praia Grande na tarde de terça-feira (9), sem saber que havia contra ele um mandado de prisão temporária. Inicialmente, negou o crime e apresentou versões contraditórias, mas acabou confessando o assassinato durante o interrogatório. “Ele colaborou e demonstrou arrependimento. Chorou bastante ao reconstituir a dinâmica do crime no imóvel. A confissão foi filmada para não deixar dúvidas sobre sua espontaneidade”, explicou o delegado. Mas Lara Dias foi categórico: “Não podemos nos esquecer de que se trata de um homicídio doloso, um feminicídio, com vontade livre e consciente”. Ainda conforme o delegado, Atílio alegou que a mala havia sido encontrada na rua pelo casal, que gostou do objeto e que já possuía uma sequência numérica colada antes mesmo do crime. Histórico de violência O delegado informou que o casal vivia um relacionamento conturbado, com histórico de violência doméstica, inclusive já registrado por familiares no Maranhão. “Desde quando ainda residiam no Nordeste, havia relatos de agressividade entre eles. Aqui em São Paulo, ele chegou a responder a medidas protetivas em relação a uma ex-companheira”, revelou. Segundo a autoridade policial, os dois se conheceram no Nordeste e mantinham um relacionamento há cerca de sete anos. Eles já moraram em Guarujá, Santos e, por último, em Praia Grande. Atílio trabalhava como serralheiro, enquanto Jane fazia serviços como diarista. Ela deixa três filhas, todas residentes no Maranhão Investigação segue A Polícia Civil aguarda laudos necroscópicos e tanatológicos para confirmar a dinâmica dos fatos e o tempo exato da morte. “O exame é fundamental porque o corpo não apresentava, à primeira vista, características compatíveis com um homicídio cometido uma semana antes. Só a perícia vai esclarecer se ela morreu imediatamente ou se ainda ficou algum tempo viva após as agressões”, concluiu o delegado. Atílio segue preso temporariamente por 30 dias e aguarda audiência de custódia.