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Segunda-feira

18 de Março de 2019

Especialistas se dividem sobre segurança em escolas após massacre em Suzano

Advogado Pablo Carvalho Moreno e especialista em segurança José Vicente da Silva filho têm opiniões distintas sobre o assunto

O covarde massacre em Suzano, no qual dois ex-estudantes da Escola Estadual Raul Brasil mataram oito pessoas e deixaram 11 feridas, levou o país a um questionamento sobre o nível de segurança e controle de acesso nas escolas. As opiniões dos especialistas ouvidos pela Reportagem estão divididas sobre o assunto. Alguns defendem que prevenir é calcular riscos. Já outros veem o caso como pontual. O coronel da reserva da Polícia Militar e especialista em segurança José Vicente da Silva Filho acredita que o caso seja excepcional.

“Não tem medida preventiva para isso, porque é um comportamento anormal. Poderia ter acontecido com os jovens entrando ou saindo da unidade. Mas não quer dizer que as autoridades do Estado não possam desenvolver programas de segurança, como o controle de acesso”.

Ele explica, por exemplo, que o manual da polícia de Nova York (EUA) aponta um sargento - que cuida de patrulhamento e investigação - para cada área escolar. “Lá, a segurança inclui toda a movimentação de alunos, desde a espera do ônibus no ponto até a chegada na escola”, diz José Vicente, que também é mestre em Psicologia Social pela USP e ex-secretário nacional de Segurança Pública.

Regras

O advogado da área cível Pablo Carvalho Moreno acredita que a situação atual da segurança não está a contento. “Isso acontece não só nas instituições de ensino, mas na maioria dos lugares. Hoje, seu filho vai para a escola e você não sabe se volta”.

Apesar de a unidade de Suzano ser pública e, na teoria, a entrada ser livre, Pablo lembra que é possível criar regras para o acesso.

“Isso pode ser feito limitando o horário de atendimento, pedindo identificação ao visitante e exigindo uniforme. É preciso criar uma rotina de procedimentos de segurança como em qualquer lugar privado e falar sobre regras sem que seja tabu”.

Na opinião do advogado, o crime poderia ter acontecido em qualquer escola, sem ter diretamente a ver com mecanismos de segurança adotados nas unidades. “Se a escola não tem um professor, que é o alicerce, um elemento básico, como terá um segurança? Não se consegue pagar e manter dignamente um professor”.

Outro lado

Já o especialista em segurança pública e privada Vinicius Vaz diz que no Brasil se trabalha com correção, e não com prevenção, o que para ele é errado.

“É preciso calcular o que pode acontecer. Nós temos o caso Realengo [RJ], parecido com o desta semana, e o que as escolas fizeram? Nada. O problema é achar que segurança é custo, e não investimento”.

Vinicius diz que, nas unidades particulares, são usadas câmeras, biometria e cercas. Isso, além da figura do porteiro, que deve ter o “sexto sentido” de distinguir quem é quem.

“Já na escola pública, não temos catraca ou controle de crachá. Não existe nem a seleção primária. As câmeras já não têm o efeito psicológico de anos atrás. Hoje, elas servem para registro e apuração dos fatos depois que já aconteceram. O bandido não se dá mais ao trabalho de se esconder ou cobrir o rosto”.

Especialistas dão opiniões diferentes sobre a segurança em escolas do Brasil (Foto: Divulgação e Alexsander Ferraz/AT)

Realidade

O advogado de Direito Público do Sindicato dos Professores da Escolas Públicas de Guarujá e Região, Ericson da Silva, vê a realidade das escolas bem de perto, já que faz visitas às unidades.

“Em alguns lugares, temos um porteiro eletrônico. Em outros, as pessoas nos veem por janelas e deixam entrar. Nós somos conhecidos, mas e quem não é? Não temos um guarda municipal em cada escola, e o mais inesperado é um garoto fazer uma atrocidade dessas. Ele não é um bandido comum. Falta família”.

Ericson lembra que é comum pensar em questões de segurança ao imaginar um estádio de futebol lotado, ou uma balada que tem bebida alcoólica, mas não em uma escola com crianças.