Casal Busca-Pó: Rainha do tráfico internacional e mais quatro são condenados em Santos

Grupo enviou mais de seis toneladas de cocaína ao exterior. Pena da mulher é a mais elevada: 17 anos. Empresário santista preso na Espanha aguarda sentença

Ela é a rainha do tráfico internacional no Brasil. Com o companheiro, divide a liderança de organização criminosa responsável pelo envio de mais de seis toneladas de cocaína para o exterior em navios zarpando de vários portos. Conhecido nos meios policiais como Casal Busca-pó, os dois foram condenados com mais três subalternos. Porém, coube a Karine de Oliveira Campos a maior pena: 17 anos e dois meses de reclusão.

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O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, sentenciou o grupo na quarta-feira (23). A segunda maior pena – 15 anos, dois meses e dez dias – é a de Marcelo Mendes Ferreira, companheiro de Karine. O casal foi condenado por sete crimes de tráfico e um de associação para o tráfico, todos agravados pela natureza transnacional dos delitos. Com prisão preventiva decretada, o Casal Busca-pó permanece foragido.

“Karine e Marcelo, pessoas que não possuem fonte de renda lícita conhecida, construíram e estruturaram, ao longo de anos, um grupo criminoso financeiramente poderoso, tendo por atividade principal o tráfico internacional de cocaína”, destacou o juiz federal. Roberto Lemos também considerou demonstradas a autoria intelectual do casal para a execução dos crimes e a “subserviência” dos demais réus em relação a ele.

Os outros condenados e as suas respectivas penas são: Éder Santos da Silva (13 anos, um mês e 26 dias de reclusão, pela associação para o tráfico e por dois crimes de tráfico), André Luís Gonçalves (9 anos e quatro meses, pela associação e por um tráfico) e Pedro Marques de Oliveira (12 anos e oito meses, pela associação e por um tráfico). Assim como o casal, Éder também está foragido.

Alba Vírus

Empresário Eduardo Cardoso foi preso em outubro do ano passado na Espanha (Foto: Reprodução)

Os acusados foram identificados pela Polícia Federal (PF) na Operação Alba Vírus (do latim, veneno branco, em referência à cocaína). A investigação gerou cinco ações penais, sendo a primeira delas sentenciada agora. Também é réu o empresário santista Eduardo Oliveira Cardoso, preso em Madri no dia 22 de outubro de 2019. Ele estava em uma feira da indústria alimentícia, da qual participava como expositor.

Por meio da empresa de Eduardo, 1,4 tonelada de cocaína seria enviada de navio do Porto de Santos para a Europa. A droga estava escondida em uma carga de frango congelado e foi descoberta ainda em solo brasileiro em julho do ano passado. O empresário também aparece em um vídeo no qual acompanha a introdução de outro lote da droga em um carregamento de frango a ser despachado ao exterior pelo Porto de Paranaguá (PR).

A filmagem ocorreu no final de 2018 e foi feita em um galpão na Grande São Paulo. Eduardo permanece preso em Madri e o Governo brasileiro aguarda o espanhol decidir sobre o pedido de extradição do acusado. Na ação da Alba Vírus, o empresário já foi interrogado pelo juiz Roberto Lemos por meio de videoconferência entre a 5ª Vara Federal de Santos e a Justiça espanhola. O processo está na fase das alegações finais.

Para o cumprimento de mandados de busca e apreensão e de prisão de investigados na Alba Vírus, a PF deflagrou megaoperação em 27 de agosto de 2019. Doze pessoas foram capturadas, mas o Casal Busca-pó não foi localizado. Entre os endereços da rainha do tráfico vistoriados estão uma mansão em Guarujá e uma fazenda em Mato Grosso do Sul, adquiridas por ela, respectivamente, por R$ 1,4 milhão e R$ 12 milhões.

Malas com quantias de dinheiro foram apreendidos pela Polícia Federal (Foto: Divulgação/Polícia Federal)

Eventos criminosos

Denúncia do Ministério Público Federal (MPF) atribuiu ao grupo recém-condenado sete “eventos” – denominação de cada operação de tráfico internacional descoberta pela PF. Na principal delas, em duas casas situadas em Guarujá, nos dias 20 e 21 de fevereiro de 2019, havia 1.343 quilos de cocaína, um fuzil, cinco pistolas, 21 celulares, documentos, a quantia de R$ 1.020.650,00 e materiais usados para preparar e embalar drogas.

Nos celulares havia diversos arquivos que incriminam os acusados e revelam vultosas remessas de cocaína ao exterior. Há, inclusive, vídeos mostrando alguns réus participando da ocultação da droga em cargas lícitas a serem embarcadas em navios. Segundo a PF, a filmagem era feita para servir de “prova” aos líderes da organização e importadores do entorpecente de que o esquema foi executado conforme o planejado.

Os vídeos não serviram apenas para identificar integrantes da organização criminosa, mas desvendaram outras seis transações, até então, ignoradas pela PF. De acordo com o juiz federal, as filmagens comprovaram “de forma categórica e definitiva” os eventos narrados na denúncia do MPF. A cocaína foi escondida em diversos tipos de carga, tais como madeira, ardósia, frango congelado e amianto.

Dos portos de Santos, Paranaguá (PR) e Navegantes (SC), navios zarparam para Antuérpia (Bélgica), África do Sul e Valência (Espanha), levando cerca de seis toneladas de cocaína. A Alba Vírus apurou que a organização criminosa também utilizou portos do Nordeste, em especial o de Salvador, para o envio de cocaína ao exterior. Aliás, o Casal Busca-pó tem um histórico de tráfico na Bahia.

Alba Vírus deflagrou organização criminosa que realizavam o envio de cocaína através dos portos brasileiros (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Expansão do negócio

Karine é do Mato Grosso do Sul, que faz divisa com o Paraguai e a Bolívia. Provavelmente, esta condição geográfica lhe favoreceu para estabelecer contatos com produtores de cocaína bolivianos. Marcelo começou a distribuir a droga na Bahia. Em 2009, o casal chefiava uma quadrilha que agia nos municípios baianos de Alagoinhas e Camaçari e foi preso, mas só ficou seis meses na cadeia.

Uma década depois, Karine e o companheiro expandiram os seus negócios ilícitos para além do Atlântico. Para lavar o dinheiro do tráfico, compraram caminhões e carros de luxo, montaram duas empresas de logística e adquiriram fazenda e outros imóveis. Com indícios de serem proveito da venda de cocaína, joias e relógios apreendidos em endereços do casal foram avaliados em R$ 1.760.380,00.

Sobre uma das pessoas jurídicas montadas pela rainha do tráfico internacional, Roberto Lemos a rotulou na sentença como “empresa de fachada, que recolhia regular e pontualmente todos os impostos, pagava todas as suas obrigações, mas não prestava de fato os serviços previstos em seu contrato social, já que boa parte da frota de caminhões ficava parada no galpão alugado à transportadora”.

Para impedir a prática de novos crimes, garantindo a ordem pública e assegurando a aplicação da lei, o juiz federal proibiu a possibilidade de os réus apelarem em liberdade. Em sua decisão de 190 páginas, Roberto Lemos também decretou a perda, em favor da União, de todos os bens móveis e imóveis, além do dinheiro, apreendidos durante a Operação Alba Vírus.

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