Ariel (à esquerda) e Dill Black (à direita) foram convidados para o evento (Reprodução/ Redes Sociais) Dois barbeiros famosos com milhares de seguidores nas redes sociais registraram um boletim de ocorrência na Polícia Federal (PF) após terem sido alvo de uma brincadeira considerada racista em cruzeiro que saiu do Porto de Santos. As vítimas Dill Black e Ariel Blindado alegam que um funcionário fingiu que os dois lhe ‘assaltavam’ enquanto tentavam comprar um pacote de internet. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a petição, o caso aconteceu na madrugada de 7 de abril. Os dois embarcaram no navio MSC Seaview, como palestrantes, para participar do evento Cruzeiro Barber. Durante três dias, apresentariam workshops enquanto a embarcação saía de Santos para Buzíos e retornava. Dill alegou que saiu para comprar um pacote de dados de internet e foi ao local onde estava sendo disponibilizado o serviço na embarcação. Era por volta das 2 horas quando entrou na fila com amigos. Enquanto estava na fila, o barbeiro não viu qualquer comportamento estranho, porém, na sua vez de ser atendido, foi surpreendido pelo funcionário. Rapidamente, o homem ergueu os braços de forma abrupta e disse em voz alta que poderiam levar tudo. “Leva tudo! Pode levar tudo!” (sic), disse o funcionário na frente das pessoas que aguardavam na fila. A simulação de um assalto foi considerada uma situação vexatória pelo barbeiro, por ter sido apontado (junto com Ariel), como um bandido. O barbeiro contou que ficou sem reação e, diante dessa falta de expressão, o funcionário tentou se retratar afirmando que era apenas uma brincadeira para quebrar o gelo. Ele chegou a pedir desculpas, mostrando um guia (colar usado por médiuns e filhos da casa em religiões afro-brasileiras) para demonstrar ser da mesma religião que o barbeiro. “O rapaz que você atendeu antes, você não fez nenhum gesto, você simplesmente atendeu socialmente. E eu, junto com meus colegas aqui, somos para vocês uma cópia de ladrão? Ou um ladrão?”, respondeu o barbeiro, conforme a petição. O documento conta que houve, “sem qualquer dúvida, o crime de injúria racial no presente caso, porquanto houve uma conduta discriminatória patente. O agressor falou alto, no meio de um salão repleto de pessoas desconhecidas, que o simples fato de o senhor Aldrieu (Dill Black) estar naquele lugar, era um indício de que corria-se perigo”. Barbeiro dos famosos Aldrieu Araújo Silva, conhecido popularmente como ‘Dill Black’, de 42 anos, é barbeiro profissional há 30 anos, com prêmios nacionais, atuação internacional e possui mais de 300 mil seguidores no Instagram. O profissional já prestou serviços para celebridades como o cantor Belo, Éder Militão, Naldo Benny, entre outras. O caso não foi exposto por ele nas redes sociais. “Pelo fato de hoje eu ministrar curso, tanto no Brasil quanto no exterior, me sinto um pouco conflitado na linha de que, por mais que eu possa me tornar um barbeiro exemplar, um excelente ou o número um, sempre vou ter um conflito da pessoa que olhar para minha pele. Isso é o que mais me deixa para baixo”, diz. O barbeiro relatou que, quando tentou fazer o registro no navio, para oficializar o que havia acabado de acontecer, teve a sua solicitação negada. A situação foi registrada por Ariel Blindado. Em seguida, Dill ressaltou ter tentado contato com a Polícia Federal (PF) e foi desencorajado a registrar o caso criminalmente. “Tenho minha cabeça que me manteve pleno para eu não xingar, não usar minhas redes sociais. Simplesmente fiquei lá no meu comum, sofrendo com o meu interno, mas preocupado porque aconteceu comigo, mas sabendo que poderia ter acontecido com outros”. “Eu não descia nem para a recepção para não encontrar as pessoas, para elas não pensarem mal de mim, porque eu comecei a me sentir mal com isso. Então, o reflexo dessa situação mexeu um pouco na minha mente por eu não esperar isso de uma empresa. Me conflitou, o que hoje reflete na minha chegada em casa antes de estar no meu estabelecimento. Me traz lembranças, porque isso criou em mim um impacto emocional”, conclui. Rei do Blindado Ariel Franco de Melo, conhecido como Rei dos Blindados, é destaque pela criação de novos estilos de corte de cabelos que viram tendência pelo país Com mais de 440 mil seguidores no Instagram, ele também presenciou e alegou ter sido vítima da ‘brincadeira’ que lhe atribuiu um falso assalto. “(Me senti) muito constrangido. A gente se sentiu triste pela situação, porque ‘o cara’ fez uma simulação como se a gente fosse roubar ele, por conta da nossa cor, como se a gente fosse ladrão. Então foi um mix de sentimentos que deixaram a gente bem chateados”, relembra Ariel. Depois do ocorrido, Ariel chegou a gravar um vídeo afirmando ter sofrido racismo, tentando fazer o registro no navio, com a sua solicitação sendo negada. Defesa e a empresa O advogado Irapuã Santana, do escritório BFBM Advogados, defende os dois barbeiros. O defensor explicou que a equipe do cruzeiro errou em não registrar formalmente o ocorrido, pois o comandante do navio tem o dever de fazer o registro de qualquer ocorrência que aconteça. “Agora, a gente vai acompanhar as investigações com relação ao que aconteceu no navio. Tem vídeo, tem tudo. Então, eu acho que a gente vai conseguir trazer alguma solução relevante aí para nós”, retrata. Santana informou que o ocorrido se trata de racismo recreativo. “Não é muito usual uma pessoa negra ir para um cruzeiro e, quando chega lá, ainda que para trabalhar, sofre esse tipo de tratamento discriminatório”. Inicialmente, o advogado acompanha o andamento do processo criminal e, posteriormente, estuda a hipótese de mover uma ação cível contra a empresa de cruzeiros de que o funcionário faz parte. Procurada, a MSC Cruzeiros informou apenas que possui "uma robusta política de tolerância zero quando se trata de discriminação" e que leva a sério todos os assuntos dessa natureza. A reportagem de A Tribuna procurou a organizadora do evento para um posicionamento sobre o caso. Ela enfatizou que os barbeiros foram convidados pela equipe para fazer um workshop dentro do navio da MSC Cruzeiros, mas ressaltou que "o racismo ocorrido foi pelo funcionário da MSC". "Nós que fizemos o Cruzeiro Barber, somos apenas clientes da MSC. Compramos as passagens e as cabines e fizemos o workshop lá. Nosso pessoal não presta serviço e nem é parceiro da MSC", concluiu.