Entenda como o desmatamento pode colaborar com o surgimento de pandemias

Contato entre seres humanos e animais silvestres pode acabar resultando na transmissão de doenças, como aconteceu com o novo coronavírus

A destruição de habitats naturais pelo desmatamento pode aumentar a interação entre animais silvestres e seres humanos e animais domesticados, como o gado, aumentando o risco de transmissão de doenças.

Essas doenças, por sua vez, são carregadas em vírus e bactérias, que evoluem geneticamente para se hospedarem em nós, seres humanos. Assim, a transmissão da doença é faciltada e surge o risco de uma epidemia. Combater o desmatamento, portanto, é uma saída para evitar uma nova pandemia.

O professor Pedro Brancalion, do Departamento de Ciências Florestais da USP, explica que as florestas nativas são riquíssimas em biodiversidade, inclusive de micro-organismos, como vírus e bactérias, que podem vir a causar novas doenças zoonóticas - doenças contagiosas transmitidas naturalmente de animais para seres humanos.

"Quando as florestas são desmatadas, há um contato mais próximo entre os seres humanos e animais que podem ser transmissores deste tipo de doença, resultado conjunto da aproximação de habitações humanas de áreas naturais e da busca por novos locais de vida pelos animais expulsos da floresta com a sua destruição. Essa maior aproximação entre seres humanos e animais silvestres, que pode ser especialmente agravada pelo consumo destes animais como alimento, aumenta muito as chances de surgimento de novas doenças zoonóticas", diz.

Brancalion ainda explica que o contágio de seres humanos por este tipo de doença não é tão comum, já que estes micro-organismos evoluíram para infectar animais. No entanto, é possível que isso aconteça.

"O contágio tem chances aumentadas em regiões especialmente ricas em biodiversidade, em regiões de desmatamento recente, com alta densidade de animais de criação (gado, frango, porco) e consumo tradicional de carne de caça, o que faz do Brasil um cenário ideal para o surgimento de novas doenças zoonóticas. A Covid-19 é um bom exemplo dos impactos indiretos e imprevisíveis da degradação da biodiversidade no bem-estar humano, justificando o cuidado com as florestas e espécies nativas como uma estratégia básica para o desenvolvimento humano, indo muito além do ambientalismo", pondera.

Já Gustavo Maruyama Mori, professor doutor no Instituto de Biociências do Campus do Litoral Paulista da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica que podemos compartilhar vírus com animais, especialmente os domesticados, mas também com os silvestres. A diferença é que para o primeiro grupo, existe monitoramento, como o que é feito pela Vigilância Sanitária, mas animais silvestres são menos vigiado.

"O contato homem-animal se dá muitas vezes ‘no mato’ ou próximo dele. Desta forma, atividades como madeireira, agropecuária, mineração, e construção civil (estradas e usinas), caça e tráfico de animais aumentam muito as chances de transmissão desses patógenos tanto para humanos como para os animais que nos acompanham", conta.

O professor ainda complementa dizendo que o surgimento de doenças infecciosas emergentes, como o novo coronavírus e o Ebola, está relacionado com áreas com alta densidade populacional e alta diversidade biológica. "Esse contato entre animais silvestre, domesticados e humanos é uma receita para o desastre".

Prevenir para não remediar

A preservação do meio ambiente é uma saída viável e econômica para combater o surgimento de novas pandemias. Gustavo Mori explica que combater o desflorestamento traz benefícios como a manutenção da diversidade biológica, prestação de serviços ecossistêmicos e redução da velocidade das mudanças climáticas.

"Manter a floresta em pé sai barato. Inclusive, se somarmos os custos de se reduzir desmatamento à metade, combater o tráfico de animais silvestres, entre outros, são uma pequena fração do custo econômico que só esta pandemia está causando".

Estima-se medidas mais duras de vigilância sanitária, fiscalização do tráfico de animais e combate ao desflorestamento custaria, em dez anos, apenas 2% do custo que a atual pandemia deve trazer à economia global, de acordo com Mori.

"Isso sem falar do preço social e pessoal que está sendo cobrado. Como há evidências de que a frequência de surgimento de doenças infecciosas com potencial pandêmico está aumentando, percebo que mais uma vez minha mãe está certa: É melhor prevenir do que remediar."

Tudo sobre: