Embora seja menos chamativa que o seu parente próximo, o guará-vermelho, o tapicuru desperta curiosidade entre moradores e turistas (Arquivo pessoal/ Leonardo Casadei) Até poucos anos atrás, avistar um tapicuru (Phimosus infuscatus) no litoral paulista era raridade. A ave, de plumagem escura e bico longo e fino, era registrada com mais frequência em áreas alagadas do interior e no Sul do país. No entanto, após o lockdown causado pela pandemia da Covid 19, o animal se espalhou e hoje faz parte da paisagem das cidades da região. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp O biólogo Leonardo Casadei, autor do livro Aves da Costa da Mata Atlântica, lembra que o animal praticamente não aparecia na região antes do período de isolamento. “Raramente o víamos por aqui. Depois de 2020, eles começaram a se proliferar demais”, relata. Ele explica que sua chegada recente ao litoral paulista parece estar ligada a um movimento migratório gradual, possivelmente originado de regiões mais ao sul. Segundo o biólogo, ainda não há estudos científicos que expliquem as causas exatas dessa expansão, mas a observação de campo confirma que o avanço se intensificou a partir da pandemia. Desmatamento é aliado da ave O tapicuru é comum em diversos países da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Venezuela. No Brasil, sua presença sempre foi mais marcante em brejos, várzeas e margens de rios, especialmente em áreas agrícolas como arrozais. “A urbanização, que costuma prejudicar tantas espécies, nesse caso acabou favorecendo”, explica Casadei. De acordo com ele, a adaptação da espécie foi facilitada pela preferência por áreas abertas. O tapicuru forrageia – ou seja, busca alimento – diretamente no solo, capturando pequenos invertebrados como insetos e crustáceos. Portanto, a perda de vegetação nativa, somada à criação de gramados, praças, jardins e terrenos baldios, formou um cenário perfeito. “A constituição das nossas cidades e a perda da floresta acabou expandindo essas áreas abertas que beneficiaram o tapicuru”, conta. Com isso, as aves acabaram migrando para a região e se fortalecendo. “A grande oferta de alimento fez com que eles reproduzissem mais e fossem ficando”, explica. Além disso, Casadei destaca que a espécie não possui competidores, o que também ajuda a explicar o aumento da população. Situação atual Hoje, a ave é facilmente encontrada na orla da praia, em parques urbanos, às margens de rodovias e até em áreas de manguezal. Sua natureza discreta faz com que seja pouco notado por quem passa apressado, mas, para observadores atentos, tornou-se uma figura familiar no cotidiano. O tapicuru mede cerca de 45 a 55 centímetros, tem pernas longas e dedos adaptados para caminhar em solos úmidos e encharcados. É mais ativo no amanhecer e no entardecer, períodos em que busca alimento de forma metódica, caminhando lentamente e sondando o chão com o bico. O estado da espécie é classificado como “pouco preocupante” para risco de extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN).