A Ucrânia sinalizou uma mudança importante em sua estratégia para tentar encerrar a guerra contra a Rússia. O governo ucraniano passou a admitir a possibilidade de não ingressar na Otan, desde que receba garantias firmes de segurança de países ocidentais, como Estados Unidos e aliados europeus. A sinalização foi feita pelo presidente Volodymyr Zelensky pouco antes de reuniões com representantes dos Estados Unidos e da Europa em Berlim. O objetivo central das conversas é encontrar um caminho viável para um acordo de paz após anos de conflito iniciado com a invasão russa em 2022. Desde o início da guerra, a entrada na Otan era vista pela Ucrânia como a principal forma de proteção contra novos ataques. Essa meta, inclusive, foi incorporada à Constituição do país. Agora, o governo ucraniano admite que acordos bilaterais de defesa podem substituir essa adesão, desde que tenham força legal e compromisso real de apoio militar. Garantias de segurança no lugar da Otan A proposta em discussão envolve garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos, países da União Europeia e outros aliados estratégicos, como Canadá e Japão. A ideia é criar um sistema de proteção que dificulte ou impeça novas ofensivas russas, mesmo sem a Ucrânia fazer parte formal da aliança militar do Ocidente. Segundo o governo ucraniano, essa alternativa representa uma concessão relevante, já que a Rússia sempre exigiu que o país abandonasse o plano de entrar na Otan. Moscou também pressiona para que a Ucrânia aceite neutralidade permanente e limite a presença militar estrangeira em seu território. Além disso, a Rússia exige a retirada de tropas ucranianas de áreas do leste do país ainda sob controle de Kiev. Mesmo com a mudança de postura em relação à Otan, a Ucrânia continua rejeitando oficialmente a entrega de territórios ocupados. As negociações ocorrem em um cenário de forte pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos. O governo americano tem defendido um acordo que reduza a escalada do conflito, enquanto acusa a Rússia de prolongar a guerra com ataques a cidades, usinas de energia e sistemas de abastecimento de água. Negociações em Berlim e possível cessar-fogo Representantes americanos e europeus se reuniram com autoridades ucranianas em Berlim para discutir um plano de paz que inclui cerca de 20 pontos. Entre eles está a possibilidade de um cessar-fogo ao longo das atuais linhas de frente, considerado um cenário aceitável por Kiev neste momento. A Ucrânia afirma que não mantém negociações diretas com a Rússia e que qualquer avanço depende da mediação de parceiros internacionais. A expectativa é que, ao final desse processo, seja possível interromper os combates e iniciar uma etapa de estabilização. Líderes da Alemanha, França e Reino Unido também participam das articulações diplomáticas. Esses países trabalham para ajustar as propostas apresentadas pelos Estados Unidos e reforçar o apoio financeiro à Ucrânia, inclusive com o uso de ativos russos congelados no exterior. O momento é tratado como decisivo por governos europeus, que veem a guerra como uma ameaça à segurança do continente. Enquanto isso, a Ucrânia segue lidando com os efeitos dos bombardeios, que deixaram centenas de milhares de pessoas sem energia, aquecimento e serviços básicos em diversas regiões do país.