Cerca de três meses após iniciar o uso, o homem começou a apresentar delírios paranoicos (Reprodução e FreePik) O avanço da inteligência artificial (IA) tem transformado desde tarefas simples, como a organização de agendas, até atividades complexas, como análise de dados e apoio a diagnósticos médicos. No entanto, um caso recente divulgado por médicos norte-americanos reacendeu o alerta sobre os riscos de confiar cegamente em chatbots para questões de saúde. Segundo um estudo publicado no Annals of Internal Medicine, um homem foi hospitalizado após seguir uma recomendação dietética fornecida pelo ChatGPT. A orientação indicava substituir o sal de cozinha (cloreto de sódio) por brometo de sódio, um produto químico que, apesar de ter nome parecido, não é seguro para consumo humano. O paciente, que buscava reduzir o consumo de sal e melhorar sua saúde, seguiu a recomendação sem consultar um médico ou verificar informações em fontes confiáveis. Comprou o brometo de sódio pela internet e passou a consumi-lo diariamente. O produto, no entanto, é utilizado principalmente como desinfetante de água, bactericida, algicida e fungicida, e não como tempero ou suplemento alimentar. Essa informação crucial não teria sido mencionada na resposta da IA. Sintomas graves e internação psiquiátrica Cerca de três meses após iniciar o uso, o homem começou a apresentar delírios paranoicos, acreditando que estava sendo envenenado por um vizinho. Nas primeiras 24 horas de internação, sofreu alucinações auditivas e visuais, além de comportamento agitado, o que levou à necessidade de internação psiquiátrica involuntária. Após estabilização com medicamentos, o paciente revelou aos médicos como obteve a recomendação e detalhou seu consumo de brometo de sódio. Exames de sangue mostraram níveis de brometo 170 vezes acima do considerado seguro: 1.700 mg/L, quando o limite tolerado é de até 10 mg/L. O diagnóstico foi bromismo, uma condição rara causada pelo acúmulo tóxico da substância no organismo. Especialistas alertam para riscos de confiar apenas na IA Os autores do estudo ressaltaram que sistemas como o ChatGPT podem fornecer informações incorretas, sem capacidade de análise crítica ou de considerar os riscos clínicos de forma adequada. Isso pode favorecer a disseminação de orientações perigosas, especialmente quando o usuário não busca validação com profissionais de saúde. Médicos reforçam que qualquer mudança na dieta ou no uso de substâncias deve ser feita sob acompanhamento médico. Substituir produtos alimentares por compostos químicos sem orientação profissional pode ter consequências graves e até fatais. O que é o bromismo O bromismo é uma intoxicação causada pelo excesso de íons brometo no organismo. Os sintomas variam de fadiga, confusão mental e alterações de humor a alucinações e convulsões. Em casos graves, pode levar a danos neurológicos e morte. O tratamento inclui a suspensão imediata da exposição e medidas para acelerar a eliminação da substância do corpo. Recomendações para o uso seguro de IA na saúde Embora a inteligência artificial seja uma ferramenta útil para esclarecer dúvidas iniciais, especialistas reforçam que ela deve ser apenas um ponto de partida para buscar informações — nunca a fonte final de decisão médica. Organismos como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) orientam que consultas virtuais com sistemas automatizados não substituem a avaliação presencial de um médico. O caso serve como alerta para que usuários tratem respostas de chatbots com cautela e sempre confirmem informações junto a fontes oficiais, como profissionais de saúde e órgãos públicos.