Dalai Lama disse que uma instituição sem fins lucrativos que ele criou terá a autoridade exclusiva para identificar sua reencarnação (Reprodução/X) O líder espiritual tibetano, Dalai Lama, afirmou nesta quarta-feira (2) que irá reencarnar após sua morte, garantindo a continuidade de sua linhagem milenar. A declaração foi feita durante celebrações em Dharamshala, na Índia, poucos dias antes de ele completar 90 anos, encerrando rumores de que poderia ser o último Dalai Lama. Nos últimos anos, o religioso chegou a cogitar que não teria sucessor, mas voltou atrás, reforçando o papel de sua instituição na escolha do próximo líder. Durante o evento, o Dalai Lama explicou que a responsabilidade de reconhecer sua reencarnação caberá exclusivamente à Gaden Phodrang Trust, organização sem fins lucrativos criada por ele. A decisão contraria diretamente a China, que insiste em determinar quem será o próximo líder espiritual tibetano. Em pronunciamento oficial, Pequim voltou a afirmar que a reencarnação deve ocorrer em território chinês, seguindo rituais sob seu controle. O Dalai Lama criticou essa postura, enfatizando que sua próxima encarnação nascerá fora da China e pedindo a seus seguidores que rejeitem qualquer pessoa apontada pelo governo chinês como seu sucessor. Ele disse que apenas os líderes das tradições budistas tibetanas, em consulta com sua fundação, têm autoridade para conduzir o processo. "Eles devem realizar os procedimentos de busca e reconhecimento conforme as tradições passadas, sem interferências externas", declarou, sendo aplaudido por monges presentes na cerimônia. O anúncio ocorreu durante uma semana de festividades com a presença de centenas de monges, fiéis, jornalistas internacionais e apoiadores, como o ator Richard Gere, que acompanhou o discurso em meio a pinturas de Buda e retratos do Dalai Lama. O líder espiritual reforçou que homens e mulheres podem ocupar o posto, sem restrição de gênero ou nacionalidade, destacando a dimensão global do budismo tibetano. Nascido em 6 de julho de 1935 como Lhamo Dhondup, o Dalai Lama foi identificado aos dois anos como a reencarnação de seu predecessor, após sinais interpretados por monges. Desde então, tornou-se uma das figuras religiosas mais influentes do mundo, recebendo o Prêmio Nobel da Paz em 1989 por sua luta pacífica pela autonomia do Tibete e sua defesa dos direitos humanos. Apesar de frágil fisicamente, o Dalai Lama está com a saúde estável e ainda não deixou instruções escritas sobre sua sucessão, segundo Samdhong Rinpoche, autoridade da Gaden Phodrang Trust. A confirmação de sua reencarnação abre caminho para novos conflitos diplomáticos com a China, que considera o Dalai Lama um separatista desde que ele fugiu para a Índia em 1959, após a fracassada revolta tibetana contra o controle de Pequim.