Pandemia muda mercado de imóveis na Baixada Santista

Profissionais do setor imobiliário e dados da habitação indicam procura pela casa própria mais espaçosa e com área para home office

A pandemia influenciou as prioridades de quem busca neste momento a casa própria, segundo profissionais do setor imobiliário. Apartamentos maiores ou com um dormitório exclusivo para fazer de escritório já são mais procurados na região, acompanhando uma tendência nacional.

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Pesquisa encomendada pelo Sindicato da Habitação (Secovi) e feita pela Brain com 2.389 consumidores de todas as regiões do País apontou que para 34% dos possíveis compradores é imprescindível ter um espaço para home office.

Segundo o corretor de imóveis Haroldo Tucci, a procura por lazer e conforto em casa começaram a ser mais importantes, porque os moradores agora passam mais tempo em casa, usufruindo também da estrutura do condomínio.

“A pandemia trouxe essa busca por um tamanho maior de apartamento e também por um cômodo a mais. Esta é uma tendência deste momento enquanto vivemos essa pandemia”, destaca ele.

Isso se dá em todas as classes sociais, conforme ele. Desde um público específico, que já está começando a avaliar uma cobertura, por exemplo, até aqueles que simplesmente querem sair de um quarto e ir para dois, mesmo sem filhos.

“A explicação para isso está na insegurança. Não há garantia de vacina nem de que a pandemia terá uma onda única. Isso afeta as decisões tanto dos que já pensavam em mudar quanto daqueles que se viram apertados porque começaram a trabalhar de casa”, afirma Tucci.

Imóveis populares

Para o diretor de obras da Construtora Credlar, Reinaldo Lozano, esse movimento também alcançou a habitação popular. Entre seus clientes, com renda familiar em média de R$ 6 mil, houve aumento de cerca de 30% na busca por apartamentos de dois dormitórios desde o começo da pandemia. Já a área de lazer se tornou um item indispensável para esse público.

“Antes da pandemia, o preço era o item mais importante. Agora, é o preço e o lazer”, diz ele, que produz imóveis para Praia Grande e agora investe em São Vicente. Em abril, Lozano entregou 500 unidades na Esplanada dos Barreiros e há 278 prontas para venda na Rua Frei Gaspar.

Profissionais do mercado de imóveis na região confirmam que o mercado está aquecido, com bons preços, estáveis e até mesmo mais baratos em muitos casos. O Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci) na Baixada Santista e Vale do Ribeira afirma que o mês passado foi o melhor agosto em três anos, com média de 80% a mais em vendas sobre o ano passado, englobando imóveis novos e usados.

“É um percentual alto, mas, na prática, é o que está acontecendo. Tanto novos quanto usados”, afirma o delegado regional do Creci na região, Carlos Ferreira.

Um terço desses compradores é formado por quem já possui uma casa e quer trocá-la por uma maior, segundo o delegado do Creci em Praia Grande, Paulo Wiazowski.

“De cada dez lançamentos neste ano, só um é dormitório único. Até o ano passado, essa proporção era de 50% um dormitório e 50% 2 ou mais. As permutas puxam muito isso, pois há os que moram em um e estão indo para dois, além dos que possuem dois e foram para três dormitórios.

Qualidade da moradia ganha importância

Para o arquiteto Claudio Abdala, que trabalha há 45 anos no setor imobiliário, a pandemia deixa um aprendizado muito grande de que a qualidade da habitação precisa ser levada em consideração. 

“A guinada do home office está acontecendo nas classes mais altas, há esse anseio, sim”, afirma ele. Segundo ele, a moradia cada vez mais deixa de ser um local onde só se vai para dormir. “Ela é um reflexo de como somos”.

Entretanto, afirma Abdalla, ainda há uma insegurança por parte do incorporador para investir. Para este ano, explica ele, há “meia dúzia” de projetos em estudos em São Vicente, Santos e Guarujá. De acordo com o arquiteto, o está sendo vendido, na verdade, é estoque.

Segundo o diretor regional do Sindicato da Habitação (Secovi), Carlos Meschini, a tendência de compra de apartamentos maiores se justifica apenas pela pandemia, porque as famílias estão em casa sem certeza de quando terão suas vidas de volta à normalidade ou ao “novo normal”.

“No Brasil, casam-se 1 milhão por ano e se separam 350 mil. Entretanto, os casais novos estão preferindo moradias menores. Os separados também”. 

Já o presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Ricardo Beschizza, ressalta que as condições de financiamento melhoraram e os juros baixaram. “Não sabemos o que vai acontecer com os resultados da pandemia. Isso vai determinar, mais para frente, uma escolha de produto”.

Para ele, a tendência de compra é apenas uma fotografia do momento e não reflete uma tendência de mercado. “Entre os empresários, não há essa expectativa de tendência, são demandas reprimidas. Quem tinha dinheiro para comprar, estava na dúvida e decidiu”.

Um dormitório é trocado por imóvel de três

O aposentado Marzino Machado de Campos, de 75 anos, trocou o apartamento de um dormitório que vivia com a esposa, na Pompeia, em Santos, por outro de três dormitórios no José Menino durante a pandemia. 

Mais tempo dentro de casa, percebeu que o espaço ficava muito apertado quando recebia o casal de filhos e os cinco netos.
“Nós dois já somos aposentados e agora não saímos mais de casa. Estávamos há 16 anos nesse apartamento apertadinho, mas que até então estava bom. Mas sentimos essa necessidade”, diz ele.

Ele optou por uma casa espaçosa com suíte e mobiliou os dois quartos para os netos e visitas. A cozinha também tem um espaço maior, pois passaram a se alimentar mais em casa. “Vejo muita procura como a que fizemos. No meu prédio, senti um movimento de mudanças forte”, conta ele.

Na busca por um novo endereço, o casal também quis manter a qualidade de vida que já tinham com uma boa oferta de áreas de lazer no condomínio, uma prioridade para o casal de aposentados.

“Quase todos os dias os netos ocupam um quarto lá. Agora ficou uma delícia, muito bom mesmo”, completa ele.

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