Pediatra defende protocolos para retomada das aulas de forma segura; confira os sete alicerces

Pesquisas apontam que as crianças transmitem menos o coronavírus e desenvolvem quadros menos graves da doença, o que facilitaria um retorno seguro às salas de aula

Por: Tatiane Calixto & Da Redação &  -  01/02/21  -  18:47
“Com os protocolos, é possível fazer a retomada das aulas de forma segura”
“Com os protocolos, é possível fazer a retomada das aulas de forma segura”   Foto: Divulgação

Se tudo tiver que fechar as portas devido à nova alta nos casos de covid-19 no Brasil, as escolas devem ser as últimas a engrossar a lista. Esse é o principal ponto do trabalho que um grupo de médicos, a maioria pediatras, vem fazendo pelo País. Chamado de Ciência Pela Escola, o movimento defende que os colégios sejam priorizados nas decisões sobre o que abre e fecha em meio à pandemia.


Clique e Assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!


Um dos idealizadores é o pediatra Paulo Telles. Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria e especialista em Neonatologia, ele conta que o movimento surgiu da ideia de médicos, já cansados das fake news, divulgarem informações corretas. “A ideia era divulgar estudos para conscientizar a população e os governantes sobre o fato de que, com os protocolos, é possível fazer a retomada das aulas de forma segura”.


Pesquisas apontam que as crianças transmitem menos o coronavírus e desenvolvem quadros menos graves da covid-19, o que facilitaria um retorno seguro às salas de aula. Por outro lado, o médico afirma que esse tempo longe das escolas tem aumentado casos de depressão, automutilação e violência entre crianças e jovens.


Estamos no pior momento da pandemia no País. É a hora das crianças voltarem às salas de aula?


Quando começou a pandemia, a gente achava que as crianças tinham um papel muito importante na transmissão do vírus. O que se mostrou ao longo do ano foi que a abertura das escolas não influencia o número de casos na sociedade. E os efeitos que a gente tem do ponto de vista de atraso no desenvolvimento e prejuízos na saúde das crianças, por tê-las fora da escola, são enormes. Sem dúvida, temos que priorizar a saúde das crianças. Isso significa que, se preciso, devemos fechar outros serviços para as escolas ficarem abertas, mesmo no momento em que temos um aumento no número de casos.


Houve um erro no fechamento das escolas com medo das crianças infectarem os avós?


Na verdade, a gente considerou no início da pandemia que o vírus tinha um comportamento semelhante ao Influenza e outros vírus respiratórios. Neles, as crianças são realmente uma fonte importante de transmissão. O que se mostrou é que esse conceito estava errado. As crianças se infectam menos e transmitem menos que os adultos.


Quais evidências científicas apontam que esse retorno pode ser seguro?


São vários estudos que mostram que a transmissibilidade das crianças é menor. Sabemos atualmente que as crianças transmitem (a covid-19) de duas a cinco vezes menos que os adultos. Quanto à gravidade, a taxa de letalidade entre as elas é baixa, em torno de 0,6%. Nós nos preocupamos com o quadro de Síndrome Inflamatória Multissistêmica (associada à covid-19), mas vimos que se trata de um quadro muito raro, com cerca de dois casos para cada 100 mil pessoas e tem tratamento. Alguns estudos sugerem a proteção cruzada dos mais novos por conta de outros coronavírus. Então, a criança estaria com os anticorpos mais altos porque, em geral, nos infectamos com esses vírus na infância. Outra justificativa seria uma menor concentração da ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2), que é a receptora na qual as espículas do vírus se ligam para poder entrar nas células do corpo. Além disso, as crianças são mais assintomáticas. E quando você tem menos sintomas, ou seja, quando não tosse, não espirra e elimina menos o vírus, pode ser um fator que diminui a transmissibilidade.


Quais as diferenças de contágio e evolução da doença nas faixas etárias de crianças e jovens?


Os estudos mostram que, quanto mais jovem a criança, menor a taxa de transmissão. Em relação à evolução da doença, nos adolescentes ela tem um cenário semelhante ao dos adultos. Então, a gente fala que a população abaixo de 10 anos tem uma transmissibilidade e um risco de complicações menores. As de 10 a 17 anos, mais que as crianças mais novas, porém menos que a população geral de adultos. Já dos 17 a 20 anos, o comportamento da doença é semelhante ao dos adultos, tanto em relação à transmissão como em termos de complicação.


Com a permanência da pandemia, estamos vendo a mutação do vírus e o aparecimento de uma nova cepa. Isso influencia na segurança do retorno presencial?


Esta nova cepa parece ser mais transmissível realmente, mas serão necessários outros estudos para que se tenha certeza. Mas o ponto mais importante é que esta cepa, apesar de possivelmente ser mais transmissível, não parece ser mais grave. Não existe nenhum estudo que indique que nas crianças ela é ou não pior. A verdade é que temos que reforçar os mesmos cuidados. E, se for necessário, deixar o isolamento mais rigoroso, mantendo as escolas abertas e fechando o resto dos serviços.


Com base nesses dados, como deve ser pensado o retorno das turmas para as aulas presenciais?


É importante a gente falar sobre sete alicerces. O primeiro é a comunicação e treinamento da equipe, conversa com as famílias e com as crianças. É muito importante o distanciamento físico e isso vai determinar o número de crianças por sala. O terceiro pilar é a higiene do ambiente e das mãos. Limpar pelo menos duas vezes os espaços, ao longo do período de cada classe. No quarto, a gente fala das barreiras que é o uso de máscaras. Abaixo dos 2 anos não recomendamos o uso pelo risco de sufocamento. De 2 a 5 anos, o uso com supervisão. E acima disso, recomendamos o uso. O outro alicerce são as bolhas de convívio. Limitar os grupos de convivência. Se acontecer contaminação, a gente isola a bolha para que não se tenha risco de disseminação na escola toda. Ventilação é outra questão. É importante janelas abertas. E, por último, o monitoramento de casos suspeitos e confirmados.


A gente tende a imaginar que as crianças terão mais dificuldade em lidar com os protocolos e que isso poderá sobrecarregar o professor. Como evitar que isso aconteça, em um ano letivo que vai ser muito desafiante para os docentes, já que eles precisam recuperar conteúdo de 2020? E como protegê-los?


A gente costuma subestimar as crianças. Na verdade, elas têm muito mais condições de seguir protocolos quando são bem orientadas. No geral, elas respondem bem. Agora, nos termos de sobrecarga, temos que pensar que o ensino ainda é híbrido. Então, é importante que as escolas se organizem bem para não haver esse problema. Já em relação à transmissão da doença para os professores, os estudos apontam que o risco de transmissão das crianças para eles é menor. Ainda assim, eles terão que seguir todos os protocolos.


Do ponto de vista da saúde física, quais riscos nossas crianças estão correndo com tanto tempo longe da escola?


São muitas alterações. Temos tido uma incidência grande de obesidade com as crianças em casa. Isso por conta da ansiedade, do acesso à alimentação de maneira inadequada e da diminuição da atividade física. Ao mesmo tempo, para a população mais carente, a alimentação na escola era a única refeição de qualidade que alguns tinham. Então, para essa parcela, a gente tem alterações nutricionais, até com risco de desnutrição. Estudos apontam que a taxa de miopia vai aumentar de maneira importante por conta do aumento do tempo em frente a telas.


E em relação ao emocional e social?


Os riscos na saúde emocional são diversos. Temos estudos apontando o aumento dos casos de depressão, ansiedade, automutilação e, também, o suicídio entre adolescentes. Observa-se ainda mais casos de gravidez em jovens. E as perdas nas questões sociais são muito grandes. A escola tem papel humanitário, de saúde pública. É um canal de proteção e temos visto aumentar casos de agressão porque perdemos essa opção. Sabemos que, nas comunidades mais vulneráveis, as crianças são cuidadas nesse período por adolescentes, os irmãos mais velhos, o que faz aumentar os casos de acidentes domésticos. Ou, ainda, ficam nas ruas, sem seguir nenhum protocolo contra a covid-19 e à mercê do contato com o tráfico de drogas e violência. Então, pesando na balança que a doença em criança não é grave e todos esses pontos, é realmente difícil entender como não priorizar as crianças. E ainda tem o estresse tóxico produzido por esse período longo fora da escola e que desorganiza a arquitetura cerebral. Pouco é falado sobre esse fator, que pode causar danos neurológicos irreversíveis.


Logo A Tribuna