Infectologistas da Baixada explicam sobre alterações no olfato e paladar provocadas pela Covid-19

Perda da capacidade para sentir cheiros e gostos não é apenas um sinal de sintomas da doença, mas uma das sequelas mais comuns

Por: Júnior Batista & Da Redação &  -  31/01/21  -  21:10
Mortes pela doença confirmadas nesta sexta-feira (9) ocorreram em Santos
Mortes pela doença confirmadas nesta sexta-feira (9) ocorreram em Santos   Foto: Matheus Tagé/AT

As sequelas provocadas pela covid-19 em nosso organismo seguem na mira de cientistas e pesquisadores. É consenso que algumas delas são mais comuns entre os infectados, como a perda do olfato e paladar, que predomina entre aqueles que se recuperam da infecção.


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Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), em andamento e feita com 650 pacientes, mostrou que 5% deles não recuperaram a capacidade de sentir cheiro dois meses e meio após o início dos sintomas. Outro estudo, da Academia Brasileira de Rinologia (ABR) e Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (Aborl-CCF) mostrou que 13,2% seguem sem olfato.


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Segundo o infectologista Ricardo Hayden, essa última possibilidade, apesar de mais rara, é possível. “O vírus causa grande reação inflamatória. Tem tratamento, mas é algo complexo”.


O médico Roberto Debski explica que estudos têm sugerido que pacientes com a covid-19 sofrem alterações no epitélio nasal – camada de células responsável por registrar odores. São as chamadas células de sustentação e células-tronco. Aparentemente, não há lesão nos neurônios olfativos.


Ele explica que a entrada do coronavírus nas células acontece por meio da ligação da proteína “S” dele aos receptores de uma enzima. Esta, por sua vez, é a conversora da angiotensina 2 e “sustenta” a mucosa nasal.


“Os neurônios dependem do equilíbrio das células de sustentação para enviar sinais olfativos ao cérebro. Com a infecção delas, os sinais neuronais podem ser interrompidos. O olfato fica reduzido ou ausente”. É como se cérebro e nariz não conseguissem “conversar” entre si.


“Ao infectar a mucosa das vias aéreas superiores, o coronavírus tem ação direta na estrutura de suporte das terminações nervosas olfatórias”, afirma o infectologista do Hospital Casa de Saúde de Guarujá, José Raphael Bigonha Ruffato.


O motivo disso acontecer ainda é um mistério, afirma o infectologista Leonardo Weissmann, da Sociedade Brasileira de Infectologia.


Segundo Ruffato, pacientes que continuam sem sentir os cheiros podem fazer fisioterapia respiratória – um teste às cegas de odores de produtos como mel, café, cravo, baunilha, suco de tangerina (pó), vinagre de vinho tinto e creme dental de menta. “Você pode cheirar por dez segundos cada um deles, com intervalos de 15 segundos a um minuto entre eles. Cada sequência, duas a três vezes ao dia”.


Não é nada difícil encontrar pessoas que venceram a covid-19, mas apresentaram dificuldades para recuperar olfato ou paladar mesmo depois de terem recebido alta médica.


A dona de casa Bianca Maria de Jesus Borges, de 29 anos, é um exemplo. Ela teve a doença em maio de 2020. O marido dela, Emerson Batista, também de 29 anos, foi infectado um mês antes. Ela foi a única a perder a capacidade de sentir cheiros e gostos e até hoje não teve o retorno desses sentidos.


Segundo o marido, durante o período em que teve a doença, Bianca apresentou falta de ar e dores pelo corpo por mais de um mês. “A falta de ar foi melhorando, as dores passando e ela ficou com a falta de olfato e paladar”.


O advogado Leandro Weissmann, de 39 anos, também não sente cheiros até hoje. Ele contraiu a covid-19 em agosto. “Quando a comida está muito quente, peço para me avisarem”, diz ele, que mora com os pais e o irmão.


O industriário Furtado Júnior, de 36 anos, está sem olfato desde abril. Ele e a esposa, Debóra Lima, de 33 anos, tiveram a doença na mesma época. “Mandaram ele fazer uma tomografia”, explica a esposa. O paladar do marido voltou, mas nada de sentir cheiros. “Se ele está com 20% do olfato, é muito”, conta ela.


A cantora Patrycia Alves, que teve um filho durante a pandemia, disse que o paladar voltou mais de seis meses depois de ter tido a doença. “Tive covid com oito meses de gravidez e o paladar, só voltou quando meu filho estava com quatro meses mais ou menos. Sorte que tive no começo da pandemia”.


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