Os primeiros meses de vida — inclusive no útero — deixam marcas que ajudam a moldar a personalidade (Divulgação / Freepik) Será que o mês em que você nasceu pode dizer algo sobre quem você é? A ciência sugere que sim. Embora durante muito tempo essa ideia tenha sido atribuída ao misticismo ou à astrologia, estudos científicos conduzidos em diversas partes do mundo apontam que o mês — e a estação — em que uma pessoa nasce pode ter influência sobre seu comportamento, temperamento e saúde mental. E o motivo não está nos signos, mas sim em fatores como exposição à luz solar, temperatura ambiente, infecções sazonais, alimentação da mãe durante a gestação e níveis hormonais no desenvolvimento fetal. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pesquisadores da Universidade de Cambridge, da USP e do Instituto Nacional de Saúde dos EUA já demonstraram que há correlações estatisticamente significativas entre a época do nascimento e padrões comportamentais, como tendência à introversão, otimismo, hiperatividade e até doenças como TDAH, depressão e bipolaridade. Embora os efeitos não sejam determinantes, o consenso científico atual é que o ambiente nos primeiros meses de vida — inclusive no útero — deixa marcas que ajudam a moldar a personalidade. É o que os especialistas chamam de efeito sazonal de nascimento. Veja o que cada trimestre pode sugerir sobre você Os estudos analisam padrões em milhares de pessoas e são baseados na influência das estações climáticas. No hemisfério sul, as associações são as seguintes: Nascidos na primavera (setembro a novembro) Tendem a apresentar maior otimismo, energia e criatividade. Pesquisas apontam níveis mais altos de dopamina — neurotransmissor ligado ao prazer e motivação. São pessoas que geralmente se adaptam com facilidade a mudanças. Nascidos no verão (dezembro a fevereiro) Têm maior propensão à impulsividade e temperamento mais instável. Podem ser mais sociáveis, mas também mais propensos à ansiedade. Estudos ligam o nascimento em meses quentes a maior incidência de transtornos afetivos. Nascidos no outono (março a maio) Mostram-se mais equilibrados emocionalmente, com menor risco de transtornos como depressão. Podem ser mais introspectivos, porém focados e persistentes. Estudos apontam para maior estabilidade de humor ao longo da vida. Nascidos no inverno (junho a agosto) Têm maior tendência à introversão e pensamento analítico. São vistos como cautelosos, resilientes e com boa capacidade de planejamento. Níveis de serotonina tendem a ser mais baixos — o que pode impactar o humor, principalmente na adolescência. Esses dados vêm sendo analisados por estudos longitudinais com grupos de diferentes países, inclusive no Brasil. Um exemplo é uma pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, que cruzou dados de nascimento com respostas emocionais em testes psicológicos padronizados. Mas afinal, por que o mês de nascimento influencia a personalidade? A explicação está em uma série de fatores biológicos e ambientais que afetam o feto e o recém-nascido: Exposição à luz solar durante a gestação, que altera os níveis de vitamina D da mãe; Temperatura média e riscos de infecções sazonais, como gripes e doenças virais, que afetam o sistema imunológico em formação; Disponibilidade de nutrientes na dieta materna em determinados períodos do ano; Ritmo circadiano e fotoperíodo, que afetam o funcionamento hormonal e a maturação neurológica. O que se percebe é que os primeiros meses de desenvolvimento do cérebro e do sistema endócrino são especialmente sensíveis a estímulos ambientais, que podem deixar “pegadas” sutis, mas duradouras. A ciência confirma: não é superstição, é biologia Importante destacar que os cientistas não afirmam que o mês de nascimento define quem a pessoa será, mas que ele pode influenciar predisposições, funcionando como um dos muitos fatores que formam a personalidade, ao lado da genética, ambiente familiar, escolar e experiências de vida. Assim como na epigenética — campo que estuda como fatores ambientais alteram a expressão dos genes —, o mês de nascimento entra como mais uma variável na equação do comportamento humano. E, mesmo com efeitos pequenos individualmente, os padrões se tornam claros quando analisados em grandes populações.