A redução da variedade de produtos nas gôndolas, também chamada de racionalização do sortimento, é uma tendência (FreePik) Quem frequenta supermercados com regularidade já percebeu mudanças sutis nas prateleiras: menos marcas de um mesmo produto, menor variedade de tamanhos ou sabores e até o desaparecimento de itens antes tradicionais. Essa redução do mix faz parte de uma estratégia nacional para conter perdas, reduzir custos operacionais e aumentar os lucros, segundo redes varejistas e consultorias do setor. Mas como essa mudança afeta o consumidor e a indústria? Entenda a seguir. A redução da variedade de produtos nas gôndolas, também chamada de racionalização do sortimento, é uma tendência que vem sendo implementada por grandes redes de supermercados no Brasil e no mundo. Segundo relatório da NielsenIQ, consultoria global de consumo, supermercados que reduziram o sortimento em até 20% registraram ganhos de eficiência logística, redução de perdas por vencimento e aumento médio de 3% na margem de lucro. Essa estratégia tem como base estudos comportamentais que mostram que o excesso de opções pode confundir o consumidor e retardar decisões de compra. A prática, conhecida como paradoxo da escolha, foi estudada pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, que identificou que consumidores tendem a comprar mais quando há menos opções disponíveis, desde que suas necessidades básicas sejam atendidas. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, a consultora especializada em varejo Fátima Merlin, da Connect Shopper, explicou que a racionalização do sortimento faz parte de um movimento de eficiência operacional que começou na pandemia, quando a indústria sofreu com rupturas de estoque e dificuldades logísticas, e hoje se consolidou como estratégia para ampliar lucro. Impacto na indústria Se por um lado os supermercados ganham ao reduzir custos logísticos e perdas com vencimento de produtos, por outro, a indústria, especialmente pequenos fornecedores, sofre com a exclusão de seus itens do mix. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), as marcas menos conhecidas ou regionais são as primeiras a sair das prateleiras, o que pode comprometer a diversidade de produtos e o desenvolvimento de pequenos negócios. Para driblar a exclusão, muitas pequenas indústrias têm buscado acordos de fornecimento direto com redes de atacarejo, mercearias e marketplaces, onde ainda encontram espaço para ofertar seu portfólio completo. Reflexos para o consumidor Para o consumidor, a mudança traz pontos positivos e negativos. Entre os benefícios está a maior rapidez na escolha, já que há menos marcas e tamanhos para comparação, além da redução de rupturas, quando um produto desejado fica indisponível. Em contrapartida, a perda de variedade pode impactar aqueles que preferem marcas regionais, linhas premium ou opções com especificidades nutricionais, como produtos zero lactose ou integrais de marcas menores. Segundo pesquisa da Kantar, 38% dos brasileiros afirmaram sentir falta de algum produto ou marca nos supermercados em 2023, contra 25% em 2019, antes do início da racionalização do sortimento em grande escala. Estratégias das redes As redes priorizam marcas líderes de mercado ou marcas próprias, que possuem maior margem de lucro e giro rápido. Além disso, a redução do sortimento facilita a gestão de estoque, diminui espaços ociosos nas gôndolas e reduz desperdício, principalmente em categorias como laticínios, panificados e hortifrúti, que lideram o ranking de perdas no varejo alimentar, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Tendência deve continuar Para os próximos anos, especialistas projetam manutenção dessa estratégia, principalmente em grandes redes. Porém, mercados regionais e atacarejos tendem a manter maior variedade, buscando conquistar o público que valoriza marcas locais e produtos diferenciados. O presidente da Abras, João Galassi, afirmou em entrevista recente que o modelo híbrido deve prevalecer, com redução de mix em categorias estratégicas, mas manutenção de variedade em categorias onde a diferenciação de marcas é essencial para o consumidor.