De acordo com a Associação Brasileira de Fintechs, o Brasil conta hoje com mais de 1.600 fintechs (Freepik) A redução do número de agências bancárias físicas no Brasil está transformando o cenário financeiro regional. Fintechs – empresas de tecnologia financeira que oferecem serviços como contas digitais, crédito e pagamentos de forma ágil, sem a estrutura bancária tradicional – têm ocupado o espaço deixado pelos bancos físicos. Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) apontam que, em 2023, foram fechadas cerca de 1.500 agências no país, mantendo uma tendência de redução iniciada em 2017. Esse processo é reflexo da digitalização acelerada, da busca por menor custo operacional e das mudanças no comportamento dos clientes, que utilizam cada vez mais canais digitais. No entanto, para muitos brasileiros, principalmente em pequenas cidades, o fechamento das agências significa enfrentar longas viagens até unidades bancárias ou filas extensas em correspondentes bancários remanescentes. Fintechs regionais crescem em ritmo acelerado De acordo com a Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), o Brasil conta hoje com mais de 1.600 fintechs, um salto em relação às 604 mapeadas em 2018. Esse crescimento tem sido expressivo no interior de estados como Minas Gerais, Goiás, Paraná e Pará, onde o fechamento de agências tradicionais deixou lacunas de atendimento. As fintechs oferecem desde contas digitais gratuitas até linhas de crédito personalizadas, seguros e gestão financeira integrada. Para o economista Rafael Ramos, pesquisador do FGV IBRE, o fechamento de agências físicas impulsionou diretamente a expansão das fintechs. O processo de bancarização digital já ocorria, mas se intensificou quando populações locais ficaram sem opção presencial. As fintechs oferecem a praticidade do digital, mas com atendimento regional, linguagem próxima do público e foco em produtos que os grandes bancos não priorizam, explica. Impacto nas pequenas cidades Em municípios de até 50 mil habitantes, onde o encerramento de agências traz maior impacto social, fintechs regionais têm atuado para suprir a demanda. Um exemplo é o Banco Voiter, que iniciou em 2024 operações de crédito rural digital direcionadas ao Norte de Minas e Sul da Bahia, oferecendo abertura de contas e financiamento de maquinário agrícola sem necessidade de deslocamento a centros urbanos. Outro caso é o Banco Topázio, com sede no Rio Grande do Sul, que aumentou em 40% sua base de clientes no interior gaúcho após o fechamento de agências de grandes bancos. Segundo relatório da instituição, 65% dos novos clientes aderiram ao serviço por indicação de produtores locais, que passaram a utilizar a plataforma para pagamentos de insumos, folha de pagamento e emissão de boletos. Transformação digital como estratégia dos grandes bancos Os bancos tradicionais continuam investindo fortemente em digitalização. Bradesco, Itaú Unibanco, Santander, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil ampliaram o uso de aplicativos, inteligência artificial em atendimento e integração com o Pix. Em nota oficial, a Febraban informou que o fechamento de unidades físicas acompanha tendências globais de reestruturação e fortalecimento de canais digitais. O Brasil é líder mundial em transações via Pix, com 41 bilhões realizadas em 2023, mostrando a mudança de hábito dos clientes. Exclusão digital preocupa especialistas Apesar do avanço digital, entidades alertam para os riscos de exclusão bancária, principalmente entre idosos e pessoas de baixa escolaridade que têm dificuldade em operar aplicativos. A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) critica a eliminação de postos de trabalho bancário e a redução do atendimento presencial em comunidades rurais e periféricas. Para Patrícia Pelatieri, coordenadora do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), fintechs regionais exercem papel relevante, mas é preciso políticas públicas de inclusão digital. Há uma parte significativa da população que não está conectada ou que não domina as plataformas digitais, o que pode aprofundar desigualdades, aponta. Perspectivas para os próximos anos Estudo da PwC Brasil indica que o fechamento de agências continuará, embora em ritmo mais moderado, enquanto fintechs regionais devem crescer acima de 25% ao ano até 2027. Segundo o relatório, esse movimento fortalece a economia local, pois fintechs tendem a contratar equipes regionais e manter parte do capital circulando em pequenos mercados. O futuro do setor financeiro brasileiro será cada vez mais digital, mas não necessariamente centralizado. O avanço das fintechs regionais demonstra que compreender as realidades locais e oferecer atendimento personalizado são fatores essenciais para conquistar a confiança dos clientes em um mercado em rápida transformação.