O cenário de "deserto" urbano, impulsionado por uma forte onda de calor, colocou em xeque a saúde da população e o equilíbrio ambiental (Marcelo Camargo/Agência Brasil) O ar seco cortou a respiração de milhões de paulistas na última quinta-feira. O que parecia apenas mais um dia quente de primavera se transformou em um alerta de emergência. Cidades no interior do estado de São Paulo registraram índices de umidade relativa do ar semelhantes aos dos desertos mais áridos do planeta, como o Saara e o Atacama. A mínima chegou a incríveis 4% em Descalvado, um número extremamente alarmante, considerando que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já emite alerta quando a umidade fica abaixo de 30%. O cenário de "deserto" urbano, impulsionado por uma forte onda de calor, colocou em xeque a saúde da população e o equilíbrio ambiental. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A meteorologia por trás do ar seco Para entender por que o estado de São Paulo se transformou em um deserto temporário, é preciso olhar para a meteorologia. O fenômeno é resultado da combinação de fatores típicos desta época do ano. A ausência de frentes frias e a predominância de uma massa de ar seco e quente sobre a região central do país são os principais responsáveis pela queda drástica da umidade. O meteorologista Paulo Roberto Santos, da Universidade de São Paulo (USP), explica que "a alta pressão atmosférica age como uma tampa, impedindo a formação de nuvens e, consequentemente, de chuvas. Com o sol forte e o calor intenso, a pouca umidade existente se dissipa rapidamente. Isso cria um ciclo vicioso de calor e secura." O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da Defesa Civil confirmou os dados alarmantes. Além de Descalvado (4%), cidades como Bragança Paulista (4,3%), Itapira (5,8%) e Cordeirópolis (6,7%) também sofreram com índices perigosamente baixos. A condição de emergência, decretada quando a umidade fica abaixo de 12%, foi superada com folga em centenas de municípios paulistas. Um risco silencioso para a saúde A baixa umidade do ar não é apenas um incômodo; é uma ameaça à saúde, especialmente para os grupos mais vulneráveis. A umidade atua como um lubrificante natural para as vias aéreas. Quando ela cai, o ressecamento das mucosas do nariz, olhos e garganta se torna um problema imediato. A mucosa ressecada perde sua capacidade de filtrar vírus e bactérias. Isso aumenta o risco de infecções respiratórias, sinusites e faringites. Pacientes com doenças pré-existentes, como asma, bronquite ou rinite, podem sofrer com crises mais intensas e frequentes. Além disso, o corpo humano precisa de umidade para regular a temperatura através do suor. No ar extremamente seco, a transpiração evapora rapidamente, o que dificulta o resfriamento do corpo e aumenta o risco de desidratação e fadiga. Crianças e idosos, que têm mecanismos de regulação de temperatura menos eficientes, estão entre os mais suscetíveis. A desidratação pode levar a dores de cabeça, tontura e, em casos graves, a complicações renais. Para mitigar os riscos, a Defesa Civil emitiu um alerta severo via Cell Broadcast para 511 municípios, orientando a população sobre medidas de proteção urgentes. A mensagem, recebida diretamente em celulares com tecnologia 4G e 5G, recomendou: Reforçar a hidratação: beber água com frequência, mesmo sem sede. Proteger grupos vulneráveis: crianças e idosos precisam de atenção redobrada. Evitar atividades físicas ao ar livre nos horários de pico de calor. Umidificar ambientes fechados: usar umidificadores, toalhas molhadas ou bacias com água. Usar soro fisiológico para umidificar olhos e narinas. Impacto no meio ambiente: o fantasma das queimadas Se o risco para a saúde humana é grave, para o meio ambiente ele é catastrófico. A vegetação seca se transforma em um combustível perfeito. Um pequeno foco de incêndio, que poderia ser facilmente controlado em condições normais, pode se espalhar de forma quase imediata em um ambiente com umidade tão baixa. A Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros emitiram alertas para que a população não realize queimadas, seja para limpeza de terrenos ou para descarte de lixo. Em São Paulo, a legislação proíbe o uso de fogo para essa finalidade, e o cenário de emergência torna a prática ainda mais criminosa e perigosa. Os municípios com os menores índices de umidade, como Descalvado (4%) e Bragança Paulista (4,3%), estão sob constante monitoramento para evitar tragédias ambientais. As equipes de combate a incêndios ficam em alerta máximo, prontas para responder a qualquer chamado. A adoção de medidas simples como a hidratação e a umidificação de ambientes se tornam essenciais para a saúde. Ao mesmo tempo, a conscientização sobre os perigos das queimadas e a responsabilidade de cada um na preservação do meio ambiente ganham uma importância ainda maior. O "deserto" em São Paulo não foi apenas um fenômeno passageiro; foi um chamado para a ação, uma oportunidade para aprender a viver com um clima cada vez mais imprevisível e proteger o que mais importa: nossa saúde e o nosso planeta.