Mário Jorge de Oliveira: Porque olhar a Nigéria

Editor de primeira página expõe os motivos pelos quais o país africano não deve ser olhado apenas por seus vizinhos continentais, como também pelo restante do mundo

Por: Mário Jorge de Oliveira  -  18/02/19  -  20:23

Poucas vezes a África é foco do noticiário internacional. Quando muito, suas epidemias ganham algum espaço em páginas ou na TV. Pois bem, a Nigéria, país que coleciona números generosos no continente, deveria merecer atenção. A democracia de estilo ocidental, tão vigiada no Ocidente quando as coisas não vão bem em recantos menos expressivos, está sendo posta à prova no país africano.


Sábado passado, o processo eleitoral foi suspenso minutos antes da abertura das urnas. Não havia garantias de eleições livres e imparciais, justificou a Comissão Eleitoral Nacional Independente (Inec, sigla em inglês). Há dois candidatos principais na disputa: Muhammadu Buhari, atual presidente, e o empresário e ex-vice-presidente Atiku Abubakar.


A Nigéria é a maior democracia africana, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo e também a nação mais populosa do continente (190,9 milhões de habitantes). Enfrenta desafios internos, como os atuantes grupos terroristas. Entre eles, o temido Boko Haram e sua dissidência, o Estado Islâmico da Província Oeste da África. Impiedosos, realizam ataques covardes, como o sequestro de meninas, forçadas a viver como escravas sexuais ou vendidas como produto a outros loucos fundamentalistas.


É mais uma razão para que organismos internacionais sérios, coordenados ou não pela ONU, acompanhem o processo eleitoral nigeriano. A tentação ao autoritarismo, sob pretexto de se garantir a segurança nacional, é grande quando se combate inimigos declarados da democracia e de direitos humanos mais elementares.


A justificativa da Inec, de que folhas de apuração e cédulas desapareceram, é aceitável, não literalmente a poucos minutos do início das votações. É sinal de que o acompanhamento não foi tão rigoroso assim. Ah, o Ocidente, sempre relegando o continente negro a um quarto plano, deveria atentar para fatos como este, de modo diplomático, neutro, e sem ameaças de intervencionismo chauvinista.


Pois bem, os 84 milhões de nigerianos aptos a votar retornam, digo, vão às urnas no próximo dia 23. O povo irá escolher, além do presidente, a Assembleia Nacional. E por que o país precisa reforçar sua estrutura democrática? A Nigéria conviveu com ditaduras de cunho militar de 1966 até 1999, com breves períodos de restabelecimento da ordem democrática. Não que as eleições tenham conduzido o país à normalidade com os sucessivos pleitos. Em 2011, protestos pós-eleição resultaram em mais de 800 mortos. No último, em 2015, ao menos 160 morreram em manifestações semelhantes.


O caminho para a democracia nem sempre é plano. Requer lisura, fortalecimento das instituições e respeito aos resultados. Costumava-se dizer que o maior pecado do Ocidente era exigir que seu modelo de democracia fosse aceito goela abaixo nos demais rincões do planeta. Na África, com tradições tribais, as sociedades foram construídas de forma mista, introduzindo vagarosamente conceitos políticos das ditas nações mais avançadas. A África do Sul é um exemplo. Dos bôeres à vitória da democracia, o país teve um árduo e traumático embate com o apartheid, vencido internamente em sangrentos protestos e com justa pressão internacional.


Pois a Nigéria, agora, não deve ser acompanhada com máxima atenção somente por seus vizinhos continentais. Mas pelo restante do mundo, como uma espécie de resgate por décadas de exclusão calcado no preconceito e na concepção negligente e asquerosa do que é um quarto mundo.


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