Conexão Irlanda: Quando o passado bate à porta

Nesta edição da coluna, Camila Natalo relembra o conflito 'Domingo Sangrento' e faz uma comparação com a atualidade no país

Por: Camila Natalo - De Dublin  -  30/01/19  -  21:03

No dia 19 de janeiro, os jornais irlandeses noticiavam um atentado com carro-bomba em frente ao Fórum de Londonderry (também conhecida por Derry), na Irlanda do Norte. Felizmente, não houve feridos.


Ainda assim, sabendo do passado da cidade, era perceptível uma tensão no ar. Por aqui é algo óbvio. Mas por aí, poucos devem ter ciência de que, literalmente, já ouviram a história. A canção 'Sunday Bloody Sunday', da banda U2, remete exatamente ao conflito ocorrido em London (Derry) conhecido como “Domingo Sangrento”, onde civis foram atacados pelo Exército inglês.


O que era para ser uma manifestação contra a atuação do Governo Britânico, que prendia suspeitos de terrorismo sem julgamento prévio, e contra as desigualdades religiosas presentes no Norte da Irlanda acabou com 14 mortos, sendo seis menores de idade, e 26 feridos. Todos estavam desarmados e cinco das vítimas foram alvejadas pelas costas. O episódio, aliás, acabou fortalecendo o Exército Republicano Irlandês (IRA), que lutava pela separação da Irlanda do Norte com o Reino Unido e pela união com a República da Irlanda.


Nessa terça-feira (29), dez dias após o incidente e, coincidentemente ou não, no mesmo dia em que o Parlamento Britânico se reunia para votar emendas em busca de uma solução para o Brexit que evite as fronteiras entre as Irlandas, um grupo autointitulado IRA afirmou estar por trás do atentado.


Em uma nota enviada ao jornal local Derry Journal, os dissidentes do inativo Exército Republicano Irlandês afirmaram que “continuarão a atacar o pessoal e as forças da Coroa Britânica e a sua política imperialista, e que aqueles que colaboram com os britânicos devem parar de fazê-lo imediatamente, pois não existirão mais advertências”. Eles ainda afirmaram que o Brexit não tem nenhum peso em suas ações – lembrando que uma das questões principais da saída do Reino Unido da União Europeia é a fronteira entre as Irlandas do Sul (que faz parte da União Europeia) e Norte (que faz parte do Reino Unido), que remete à guerra entre católicos e protestantes, nacionalistas e unionistas, terminada em 1998 com o Acordo de Belfast (também conhecido por Acordo da Sexta-feira Santa), baseado, principalmente, na liberdade de movimento.


Embora muitos afirmem que o ataque é chocante e não reflete a personalidade da população atual de London(Derry), ainda hoje é possível se deparar com as marcas do passado quando em contato com o lado irlandês e/ou britânico de sua população.


Ainda existe muita precaução na hora de perguntar se alguém é de Derry ou Londonderry. Geralmente, os irlandeses mais fervorosos ainda podem se sentir ofendidos com a pergunta: Então você é de Londonderry? (ou Derry, para o caso dos britânicos).


Sinais visíveis da disputa também são evidentes em sinais de trânsito: aqueles que apontam para a cidade da República da Irlanda referem-se como Derry, enquanto os sinais da Irlanda do Norte usam Londonderry. Não é incomum também ver marcas de vandalismo: A parte “London” rabiscada em Londonderry ou, ocasionalmente, adicionada em placas de “Derry”. Em algumas placas, ainda, é possível ver a palavra “London” substituída por “Free” (Free Derry, que seria traduzida como Liberte Derry).


Em 2007, inclusive, houve um incidente relatado na mídia local onde um turista canadense que pediu uma passagem de ônibus para Derry ficou confuso ao ser informado que Derry “não existia”.


Ninguém pode prever as reviravoltas que ainda estão por vir durante a saga Brexit, mas é evidente que o passado bate à porta. É estranho como, em um piscar de olhos, uma ligação profunda entre as pessoas pode desaparecer e trazer à tona tantos sentimentos ruins.


A verdade é que nenhuma expectativa pode preparar a Ilha como um todo para tal realidade e, de certa forma, ainda que o Brexit se resuma em “saída”, o grande problema para irlandeses, principalmente os do Norte, é que muitos não sabem exatamente quem ou o que estão deixando e quanto será preciso perder.


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