Conexão Austrália: Pegar a estrada por aqui

Nesta edição da coluna, Fabiana Marinelo fala sobre a inusitada experiência de dirigir no país

Por: Fabiana Marinelo - De Sidney  -  15/02/19  -  18:46

Assim como muitos australianos, eu peguei a estrada no fim do ano, batendo 3.000 quilômetros no odômetro. Natal e Ano Novo na estrada, de Sidney a Melbourne, com algumas paradas e escapadas fora da rota. 


Viajar faz parte da cultura local. De acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas, em média, cada veículo australiano acumula cerca de 13 mil quilômetros por ano – sendo grande parte disso nos meses de verão. Antes do fim do ano, não tem como ficar sem a pergunta se você vai ou não hit the road (pegar a estrada). É um hábito local, como mencionado outras vezes por mim em colunas anteriores. Mas, desta vez, foi minha vez de viver esta experiência com a família.


Ao pensar em pegar a estrada na Austrália, vem logo a imagem de cangurus e coalas atravessando em frente ao carro. E, sim, isso acontece. Pelo menos conosco aconteceu uma vez. Vimos um canguru enorme e, por sorte, estávamos dirigindo por uma estrada vicinal e em velocidade baixa. O bicho até parou, olhou diretamente para o nosso carro e seguiu seu caminho saltando vegetação adentro. Da janela do carro é fácil avistar os cangurus vivendo livremente. E, triste realidade, vimos mais de trinta animais mortos pelo caminho. Os números não são exatos, mas estimativas indicam mais de um milhão de animais mortos todos os anos nas estradas australianas. 


A vida selvagem na Austrália é diversa. Cangurus e coalas são os mais conhecidos, mas há dezenas de outros animais livres vivendo próximo às estradas do país. A quantidade de pássaros e répteis, sem falar nos insetos, é inacreditável. Por esta razão, há muitos alertas nas estradas para que os motoristas tenham atenção redobrada. 


A paisagem é muito diferente do Brasil. A alguns quilômetros de Sidney, uma das maiores cidades do país, o entorno já muda. Ao invés de prédios e residências, o que se vê pela frente são fazendas. Muita criação de gado e ovelhas e muitas plantações de frutas e vegetais. É interessante também ver o quanto o país é vazio (de gente mesmo). As estradas não têm trânsito intenso e, nas pequenas cidades, o movimento é pequeno. 


No nosso caso, a jornada foi tão importante quanto o destino. Viajamos pela Great Ocean Road, uma estrada que lembra um pouco a nossa Rio-Santos e é considerada uma das mais belas viagens de carro do mundo. Nosso destino foi o ponto turístico dos Doze Apóstolos, a 250 quilômetros da cidade de Melbourne. O local foi recentemente tema de uma reportagem do Fantástico. Também na região, visitamos Philip Island, área escolhida pelos pequenos pinguins desta região da Oceania para viver. As duas localidades recebem milhares de turistas todos os anos. 


Outro ponto interessante ao dirigir 3.000 quilômetros pela Austrália é a quase inexistência de pedágios. É possível fazer essa jornada sem pagar um centavo. Decidimos pegar alguns trechos com pedágio e pagamos cinco no total. Os valores são em torno de cinco dólares australianos cada. Mas, mesmo sem pagar, é possível chegar a seu destino com excelentes estradas que cortam o país. A viagem é supersegura, com a polícia apenas checando a velocidade, que não passa de 110 km/h. Os veículos, em geral, respeitam a velocidade. As ultrapassagens só ocorrem nos pontos autorizados e ninguém buzina. E dentre outras razões, por causa do comportamento seguro dos motoristas, a Austrália registrou em 2018 um total de 1.143 acidentes fatais nas estradas (no Brasil os números ultrapassam 45 mil por ano). 


Pegar a estrada por aqui é uma aventura interessante e valiosa. A Austrália é sem dúvida um país eleito, com lindas paisagens acessíveis por estradas ótimas e seguras. É um passeio barato e possível para a maioria das famílias. 


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