Conexão Argentina: Como o G20 foi sentido nas ruas de Buenos Aires

Nesta edição da coluna, Samuel Rodrigues fala do importante encontro que reuniu autoridades no País

Por: Samuel Rodrigues - De Buenos Aires  -  04/12/18  -  17:12
  Foto: Ludovic Marin / AFP

O velho Ford Falcon parou de repente em frente à embaixada da Arábia Saudita em Buenos Aires, dois dias antes do início da cúpula do Grupo dos 20. Dentro do edifício, um casarão antigo localizado em uma das partes mais exclusivas do bairro de Palermo, estava o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, acusado de ter ordenado o assassinato de um jornalista opositor dentro do consulado saudita em Istambul. Ele foi o primeiro líder do grupo das maiores economias do planeta a chegar à capital, na noite de quarta-feira.

Munidos de metralhadoras, os oficiais da Polícia e do Exército argentinos que estavam de guarda observaram, curiosos e alertas, o automóvel que ocupava naquele momento uma faixa da Avenida Libertador. Logo relaxaram diante do que parecia uma pegadinha, obra de algum programa de humor. Com décadas de serviços prestados, o carro havia apenas enguiçado, coincidentemente bem na porta de um dos edifícios mais fortemente guardados da cidade naquela noite.

O episódio anedótico contrastou com o nervosismo que se viveu antes e durante a reunião do G20, que trouxe à cidade, de quarta-feira a domingo, o presidente dos EUA, Donald Trump, o presidente da China, Xi Jinping, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente do Brasil, Michel Temer – que, prestes a deixar o cargo, teve participação discreta, para não dizer nula.

A reunião anterior, realizada em Hamburgo, em julho de 2017, levou 100 mil manifestantes às ruas e foi marcada por incidentes violentos, que resultaram na detenção de 190 indivíduos e deixaram quase 500 policiais feridos. Diante da forte tensão social gerada pelo aumento da pobreza nos últimos meses, esperavam-se grandes protestos contra o presidente da Argentina, Mauricio Macri, os demais chefes de Estado e a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, o que não se confirmou.

Durante a semana, a presença policial foi deslocada dos bairros residenciais para pontos movimentados de Buenos Aires, com forte esquema de segurança nas estações de trens e metrô. Na véspera do evento, a prefeitura bloqueou vias e interrompeu os serviços de trens e metrô, em parte para evitar uma reprise dos incidentes da Alemanha e reduzir as chances de protestos massivos. Segundo o site Diario26, alguns sem-teto foram obrigados a deixar os bairros que receberam eventos.

As forças de segurança precisavam dar uma resposta à sociedade, após o fracasso na organização da final da Copa Libertadores da América, entre River Plate e Boca Juniors, em que o ônibus que transportava os jogadores do Boca foi apedrejado por criminosos caracterizados como torcedores do River no caminho até o estádio, apesar da escolta policial. O Monumental de Nuñez, onde ocorreria a partida, fica bem próximo, por exemplo, do Parque de la Memoria, um monumento aos 30 mil desaparecidos políticos durante a última ditadura militar argentina (1976-1983), que recebeu visitas dos presidentes da França, Emmanuel Macron, e da Coreia do Sul, Moon Jae-in.

Mas apesar de toda a expectativa negativa, do medo de possíveis ataques terroristas e até de um pequeno tremor de terra sentido em algumas partes da cidade, não houve nenhum incidente terrível, com exceção do penteado de Trump. Após as partidas dos chefes de Estado, tudo voltou ao normal por aqui. O mesmo se deu, aliás, com o velho Falcon que enguiçou em frente à embaixada saudita: após algumas marteladas de seu dono, sob os olhares incrédulos dos soldados, o carro voltou a funcionar e pôde finalmente seguir seu caminho.

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