Atriz, diretora de teatro e tevê, mas também médica formada. Tanto para a ribalta quanto para a Medicina, o talento vem de berço: filha de médico e da atriz Lupe Gigliotti, sobrinha de Chico Anysio e de Zelito Viana, Cininha de Paula abraçou de vez o palco quando um professor, na residência médica, abriu seus olhos: era preciso decidir. De lá pra cá, foram 40 anos na dramaturgia. Agora, aos 66 anos, Cininha lança, junto com Charles Daves, o livro Caminhos do Ator - Do Palco à Câmera (Rubi Editorial, R\$ 59,99), para auxiliar a jornada dos jovens que hoje se lançam na carreira artística. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Como surgiu a ideia de escrever um guia para jovens atores e qual o objetivo com ele? Há muito tempo queria escrever esse livro. Você vai chegando numa determinada idade e quer deixar um legado. Há um ano, surgiu a ideia de dar um curso on-line gravado. O curso se chamava Do Palco à Câmera e eu sentia que os atores compravam e gostariam de ter isso eternizado com eles, porque o curso tem um tempo limitado de acesso. Pensei em transformar aquele conteúdo em livro, para eternizar o meu conhecimento e do meu sócio, o Charles, para as pessoas do curso on-line. Você nasceu numa família com fortes laços artísticos, mas mesmo assim foi cursar Medicina. Meu pai, Antonio Carlos Gigliotti, era um grande médico. A influência dele em casa foi tão grande, que nós três, irmãs, somos médicas. Quando e como decidiu seguir a arte de vez? Eu tinha voltado para a tevê e fazia residência médica. Um professor, Stanislau Kaplan, um grande clínico, disse: ‘a doutora tem que se decidir, porque é ótima médica e uma excelente atriz (...) acho que as duas não vão conseguir conviver muito tempo’. Ele abriu os meus olhos. Quando optei, estava casada com um médico, pai do meu filho mais velho. Claro que essa mudança, para ele, que me conheceu médica, foi definitiva contra o casamento. Tudo ocorreu de maneira muito orgânica e eu acabei depois me casando com quem estava também saindo da Medicina para ficar na arte, que foi o Wolf (Maya, ator e diretor). O que uma pessoa precisa ter para ser um bom ator ou atriz? Vocação. Que é muito diferente de talento. É o seu foco, a sua dedicação, a sua forma de enfrentar qualquer que seja a sua profissão. O talento às vezes existe, mas se você não tem vocação, você não vai adiante. A vocação tem ramificações: paciência, resiliência de enfrentar as dificuldades; ter a capacidade de estudar e se aperfeiçoar; de entender que às vezes o caminho não é como ator, mas diretor, produtor, cenógrafo, figurinista. Principalmente, entender que não conseguir por um caminho, mas por outro, não quer dizer que você não seja capaz, mas que teve a inteligência de visualizar a melhor trajetória. Quais os percalços mais comuns para o ator ou atriz? São muitos. Hoje existe muita concorrência. Antigamente, ela era fincada no seu tipo físico. Se você era lindo, linda, as suas possibilidades eram maiores. Hoje, isso caiu por terra. O ator precisa ter qualidades. Mas em compensação, a concorrência é maior. O mercado mudou. A configuração tevê, palco, cinema se ampliou com o streaming, com grande quantidade de produções. Isso ajuda ou atrapalha? É maravilhoso. Antigamente, só havia a Globo. As pessoas não querem saber se você é um ator hiperconhecido da Globo para protagonizar algo no streaming. Querem saber qual o ator mais indicado para o papel. Há muito ator que ninguém conhecia e surgiu assim. O que você carrega, profissionalmente, que atribui a ensinamentos da sua mãe? Aprendi a ser humilde, entender minhas limitações e meus conhecimentos. Aprendi que somos celeiros de informação e a gente não pode morrer sem passar adiante. Nunca tive receio de apresentar alguém talentoso na Globo, com medo de me tomar o lugar. A gente tem que ter receio de passar incólume pela vida, de não ter nada para oferecer. E Chico Anysio? Na comédia, quando você vai criar um produto, seja no audiovisual ou no palco, tem que saber como vai terminar. Chico me ensinou: se a piada não tiver um bom desfecho, não adianta ser um assunto interessante. Ele foi um grande criador, um grande observador da vida. Nunca vi alguém observar tão bem, captar a alma para construir algo novo. Quais são seus próximos projetos? Estou focada no audiovisual, produzindo novela vertical com meus alunos. Acredito que até 20 de janeiro estará nas plataformas. Chama-se Fruto do Abandono. Tenho um projeto com o Miguel Falabella, o filme de Toma Lá Dá Cá, claro, tem que ter autorização da Globo, mas é um projeto querido meu, como diretora, e do Miguel, como criador. Tem também um documentário sobre os 100 anos da Mangueira, que será meu primeiro documentário, da Fato Produções, uma produtora de projetos pretos. Me sinto muito honrada de estar incluída nele.