O colecionador de LPs Leandro Menezes, autor da obra, com seu gramofone manual (que funciona!) (Arquivo Pessoal e Reprodução) Um disco por dia, nos 365 dias do ano. Eis a proposta (literal) de LP Todo Dia - Diário de um Colecionador para Colecionadores (Garota FM Books, R\$ 65,00), recém-lançado livro do professor de História e Filosofia, escritor e colecionador, Leandro Menezes. O livro é uma compilação do perfil do Instagram de Leandro, LP Todo Dia (@lptododia), que já existe há oito anos, com 1,6 mil resenhas. “A ideia foi fazer uma curadoria para selecionar, desses 1,6 mil, 365, que não são necessariamente os meus prediletos”, explica o autor. Assim, na obra, em cada data, Leandro menciona um disco (isso mesmo, de vinil) e apresenta uma história em torno dele. As datas escolhidas para cada disco seguiram vários critérios: ou o nascimento do artista, ou quando o álbum foi lançado: ou algo da vida pessoal do próprio Leandro, a que o disco faça referência. “Falo do impacto daquele disco, encaixado naquele dia do ano”. Coleção Embora o título sugira, o livro não é apenas para colecionadores de LPs – “É para qualquer pessoa interessada em música”, enfatiza. Mas só foi possível porque ele, Leandro, é um colecionador. Aos 39 anos, tem por volta de dois mil discos, entre vinis tradicionais, compactos e os de goma-laca, feitos especialmente para serem apreciados no gramofone, rodado a manivela, que tem em casa. Tudo isso começou em família. Os irmãos, bem mais velhos, carregaram o caçula ainda bem menino para o rock Brasil dos anos 80 e para o grunge, já no início dos 90. “Não fui educado nas músicas infantis, Xuxa, Angélica; ouvia o que eles ouviam”. Do rock, ampliou os horizontes musicais: entraram samba, MPB e jazz. “Escolho o disco pelo quanto ele é impactante para a música e a beleza do encarte”, resume. Mas a veia do colecionador extrapola o gosto pessoal: vai ao ponto de escolher discos para completar portfólios. “Por exemplo, o Kiss é uma banda de que nem gosto tanto, mas acho fundamental ter um álbum da banda, por reconhecer o impacto à cultura”. Por que vinil? Leandro nasceu já no início do CD, hoje engolido pelo streaming. Mas seguiu o caminho do bom e velho vinil para colecionar. Há duas razões para isso: sonora e estética. “É mais orgânico, a começar pela forma do som ressoar, menos elétrico, mais físico, no contato com a agulha. Do ponto de vista estético, as impressões ficam melhores, o material é maior, os livretos. Ele vence outras mídias, como o CD, no ponto de vista gráfico”. Compra, em média, 10 discos por mês, entre novos e usados. A garimpagem ocorre na internet – onde só compra disco novo e lacrado – e em feiras e lojas de vinil Brasil afora. Ainda tem alguns ‘furos’ na sua coleção. Um deles, é o primeiro disco de Roberto Carlos, Louco por Você, de 1961 – um exemplar raríssimo. “Ele não entraria na minha lista nem dos melhores do Roberto, mas eu gostaria por ser muito cultuado e raro”. Quando surge à venda na internet, o preço está sempre entre R\$ 5 mil e R\$ 10 mil. A razão é que Roberto Carlos ‘baniu’ o álbum de sua discografia – ele nunca mais foi reimpresso, ou seja, os exemplares que existem por aí são os originais da época. Goiano sem sertanejo Leandro bem que tentou o violão. Mas não evoluiu como músico. Ele desfruta da música apenas como ouvinte. E embora seja goiano, o sertanejo não é bem a sua praia. Mas tem respeito pela identidade sertaneja que caracteriza o estado. Tanto, que não deixou de incluir discos de nomes do gênero no livro: Milionário e José Rico, Tonico e Tinoco, Sérgio Reis. Na sua visão, hoje, a música perdeu ritmo: está pior. Para ele, é uma questão de formato, velocidade de produção. “São canções mais curtas, com batida padrão, estética massificada”. Atendem nichos de durabilidade muito curta. “Há uma questão geracional. Mas há também um achatamento da música: ela perdeu camadas, as canções parecem lineares demais, independente do gênero”. O retorno Leandro não está só. Há uma retomada do vinil, inclusive com o retorno de fábricas que produziam essa mídia e haviam sido extintas. É o caso da Polysom, que havia fechado as portas em 2007 e retornou em 2009. A própria empresa informa, em seu site, que há hoje 65 fábricas de prensagem de vinil no mundo, produzindo juntas 50 milhões de cópias anuais. Ilha deserta A lista dentro da lista. Pedimos a Leandro que escolhesse 10 discos imprescindíveis para levar a uma ilha deserta. Eis as respostas: Rubber Soul (1965, The Beatles): foi o disco da virada da banda e mudou a história da música. Panis et Circenses (1968, vários artistas): álbum manifesto do Tropicalismo, reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Nara Leão. Transa (1972, Caetano Veloso): sexto álbum de estúdio do cantor, foi gravado em Londres, durante o exílio. No Code (1996, Pearl Jam): quarto álbum da banda norte-americana de Seattle, surgida na onda do grunge. Mellon Collie and The Infinite Sadness (1995, Smashing Pumpkins): terceiro álbum de estúdio da banda de rock alternativo norte-americana. ‘Disco da banana’ (1967, Nico e The Velvet Underground): álbum de estreia da banda, com a cantora alemã Nico, e o desenho de uma banana feito por Andy Warhol. Construção (1971, Chico Buarque): o disco marca a vertente crítica da poética do compositor. Verde que Te Quero Rosa (1977, Cartola): terceiro álbum de estúdio do músico carioca, é um clássico do samba. Is This It? (2001, The Strokes): disco de estreia da banda norte-americana, ganhou o disco de platina. “Esse tem a ver com a minha adolescência”. Sombrou Dúvida (2019, Boogarins): quarto álbum de estúdio do grupo goiano de rock. “Para não deixar minha regionalidade de fora”.