O sambista Bezerra da Silva era uma das vozes das comunidades mais pobres do Rio – e de todo o País (José Cordeiro/Estadão Conteúdo) Traíra, dedo de seta, dedo de radar, língua nervosa. Na verve da malandragem, está tudo alinhado pra não dar mole. Especialmente se virar samba. Que o diga um dos mestres de fazer o malandro caber em verso: Bezerra da Silva, morto há 20 anos e que ainda ecoa na quebrada, no dia a dia de quem sobrevive no fio da navalha. “De caguete, ninguém gosta. É uma praga, coisa ruim. Não vê na polícia? Tem sempre um safado lá pra dedurar, pra dizer qual é paradinha do irmão”, explica o compositor Tião Miranda, autor de Língua de Tamanduá, gravada por Bezerra no álbum Alô Malandragem, Maloca o Flagrante, de 1986. Já bicho, no dicionário bezeirrês, é vagabundo e até bandido. “É quem não quer nada, não quer trabalhar, não faz nada. É quem dá tiro na polícia, mata os outros quando vai assaltar”, traduz Tião Miranda. “Malandro demais vira bicho”, alertava Bezerra no samba Os Federais Estão Te Filmando, assinado por Silva Jr. e gravado em 1993. Mané e otário são sinônimos, e no ‘bezeirrês’ querem dizer algo mais do que tolo ou ingênuo. “O otário é aquele cara que te dá um bote. Pede dinheiro emprestado e não paga. Tudo que ele faz está errado”, descreve o compositor Enedir Vieira Dantas, mais conhecido como Pinga e autor de músicas como Quem Usa Antena é Televisão, feita em parceria com Celsinho da Barra Funda, também gravada por Bezerra em 1986. Para entender o que é otário ou mané é preciso consultar a versão de antônimos do Dicionário de Bezeirrês. As duas palavras são usadas em diferentes músicas como o contrário de malandro. Afinal “malandro é malandro e mané é mané”, como há anos explica a letra de Neguinho da Beija-Flor, registrada na voz de Bezerra da Silva em 2000. O malandro do Bezerra O malandro é o principal personagem de Bezerra da Silva. Era o embaixador das favelas, o cronista da vida das pessoas que moram nas periferias e nas comunidades pobres. A história de Bezerra da Silva o habilita para essas atribuições. Ele viveu os problemas que retratou em canções próprias ou do grupo de amigos compositores como Roxinho, Tião e Pinga. Batizado no Recife como José Bezerra da Silva, foi abandonado pelo pai antes de nascer, em fevereiro de 1927. Como ainda acontece com alguns brasileiros, só obteve registro civil tardiamente, aos 15 anos, quando foi trabalhar na Marinha Mercante – de onde foi expulso ao denunciar tentativa de assédio sexual de um oficial. Ainda adolescente, migra clandestinamente para o Rio de Janeiro para localizar o pai. Encontra, mas o convívio na casa do genitor durou menos de uma semana. Sozinho no Rio, vai trabalhar na construção civil. Sem dinheiro para alugar uma casa, dorme nas obras onde trabalha. Adulto jovem, se casa pela primeira vez e vai morar no Morro do Cantagalo. Terminado o relacionamento, Bezerra da Silva vira morador de rua por mais de seis anos em Copacabana. Detido para averiguações As dificuldades de Bezerra começam a ser superadas quando ele passa a se dedicar mais à música, conforme conselho recebido de uma entidade em um terreiro de umbanda. Tornando-se músico profissional, Bezerra da Silva foi percussionista no conjunto que acompanhava Clementina de Jesus, Marlene, Elizeth Cardoso e Roberto Ribeiro. Convidado para tocar na orquestra da Rede Globo, fica na emissora por oito anos. Lá, tem pela primeira vez a carteira de trabalho assinada, documento que lhe fez falta nas 21 vezes que foi detido pela polícia para averiguações. “A grande lição de Bezerra é como o estado lida com os pobres. A criminalização é um dos instrumentos disponíveis para isso”, aponta o advogado e mestre em linguística Yuri Brito Santos. Para ele, Bezerra mostraria que esse segmento marginalizado da sociedade é considerado suspeito até que se prove o contrário. “A premissa do princípio da inocência não se aplica às comunidades carentes cuja voz ele ecoa através da música”. Partido alto Bezerra da Silva entra em estúdio pela primeira vez no início dos anos 1970. Mas o sucesso e o reconhecimento do público só chegariam no final daquela década, quando se torna cantor e compositor de Partido Alto. “Bezerra da Silva acabou criando, com o Dicró, uma linguagem irônica, bem-humorada e que falava muito desse dia a dia das comunidades e das pessoas mais simples. Era um samba muito swingado”, atesta o cantor e compositor Roberto Frejat. Além de tocar percussão, Bezerra da Silva estudou violão clássico por oito anos, sabia tocar piano e, quando ficou doente com problemas respiratórios, aprendeu a tocar sax para exercitar os pulmões.