“...Eu menti. Não, eu não menti, simplesmente não contei nada. Várias vezes, tive vontade de escrever uma carta ou de chamar ele e falar tudo. Mas ele também não deu nenhuma oportunidade pra isso”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O texto é um pedaço da alma do artista plástico Leonilson (José Leonilson Bezerra Dias, 1957-1993), expoente da arte brasileira dos anos 80, que morreu prematuramente, vítima do vírus HIV. O trecho está incluído na compilação Leonilson: Diários de uma Voz, que reúne a transcrição de 16 fitas cassetes gravadas pelo artista entre 1990 até 1993 – ano de sua morte –, com reflexões sobre a arte, a vida, os medos, as relações. “Ele mesmo cita, a ideia de gravar foi porque ‘eu uso as palavras, mas não sei escrever’. Ao longo do tempo, as gravações vão se tornando um diário”, diz o compilador e organizador da obra, o escritor e professor universitário na área da Comunicação, João Anzanello Carrascoza. João foi convidado pelo Projeto Leonilson, gerido pela família e amigos do artista, para realizar o trabalho. De um total de 19 fitas, as 16 transcritas quase somaram exatas 16 horas de áudio. “Não foi feito nenhum corte, tive total liberdade. Cacos e repetições da fala oral, do improviso, pausas para respirar, essas partes a gente cortou, mas são muito pequenas”. A obra é dividida em livretos independentes, cada um com um tema, sendo que cada tema foi batizado sob inspiração de uma obra de Leonilson: Nada Direi Tudo Direi, A Visão Interior, Um Artista com Fogo nas Mãos, Costuras da Solidão, Anjos da Guarda e As Bordas da Dor. Dentro de cada livreto, a publicação é cronológica. O resultado é uma organização ao mesmo tempo temática, cronológica e caleidoscópica. “Eu vivi como se ele estivesse do meu lado, foi algo mediúnico. Fui lendo os textos e ativei as temáticas, que não eram recorrências, mas as únicas, obsessivas, que foram essas seis em que dividimos tudo”. Avanço da reflexão As gravações começam antes de Leonilson receber o diagnóstico que abreviaria sua vida. “Ele estava indo viajar pelo mundo para receber prêmios”. Nesse início, as inquietações são existenciais, do artista em face da obra, os amores e as dores, que são dínamos da criação. E também reflexões sobre a arte. “Eu tinha antipatia gratuita pela Yoko (Ono), e hoje eu mudei completamente. Ela fez tudo o que o pessoal anda fazendo hoje, ela já escrevia nas telas...”. À medida que o tempo avança, as batalhas contra a doença vão se avolumando nos áudios. Se não chegam completamente a dominar a aura de Leonilson, já ocupam um ponto central. As entradas se dividem entre visitas a médicos e o desejo pela arte. Cresce um senso de urgência, de realizar o que pudesse, como se o tempo fosse feito de cristal e a qualquer instante pudesse se partir. “...Hoje é o primeiro dia que eu me revolto contra essa coisa. Estou com frio, depois calor, aí dor de barriga; tenho vontade de telefonar pras pessoas, elas não estão...”. Palavra, imagem Para João, trabalhar na compilação das fitas reverberou no seu próprio caminho. Publicitário e escritor, tem muitas obras que se servem de ilustrações. Ou seja, a imagem em resposta à palavra – uma característica presente na obra de Leonilson, mas ao contrário: a palavra em resposta à imagem. “Boa parte das peças, sejam gravuras, desenhos, ilustrações, tem palavras escritas dentro da obras. São elementos poéticos, pequenos discursos que têm ancoragem com o visual”. Nas fitas, João também descobriu as motivações artísticas: Leonilson criava como uma declaração de amor. “Ele gostava de alguém, de um filme, de um espetáculo, fazia um quadro. É o que eu penso também: a gente escreve para se aproximar do outro, se declarar ao outro. A obra é algo que sai de nós e vai ao encontro da humanidade”. João é autor de mais de 25 livros, entre romances, contos e infantojuvenis. Recebeu vários prêmios literários, incluindo dois jabutis, por contos e crônicas. Mesmo assim, realizar a compilação dos áudios foi especial. “Foi um trabalho de grande força emocional, de grande comoção. Não escrevi, fui o organizador, mas essa obra teve a mesma potência, na minha alma, como as outras que eu mesmo escrevi”. Vida Leonilson nasceu em 1º de março de 1957, em Fortaleza. Em 1961, mudou-se com a família para São Paulo, onde, entre 1977 e 1980, cursou artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). A primeira exposição individual foi já em 1981, em Madri. Sua obra é predominantemente autobiográfica, centrada nos 10 últimos anos de vida. Integra o grupo de artistas que revolucionou as artes plásticas no País, com a retomada do ‘prazer’ da pintura, conhecido como Geração 80.